Você está aqui
Home > Utilidade Pública > Conheça a juíza do DF “psicóloga”, guitarrista e sucesso na web

Conheça a juíza do DF “psicóloga”, guitarrista e sucesso na web

Augusta Diniz jamais vislumbrou, nem no mais ousado dos desejos profissionais, tornar-se uma juíza pop. Mas, hoje, aos 35 anos e após um biênio de magistratura, a chefe da 3ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) galgou nível de popularidade capaz de despertar inveja em aspirantes ao estrelato das “webcelebridades”.

A cada 20 minutos — tempo gasto para cumprimentar as duas companheiras de gabinete, acomodar-se em sua mesa e atualizar-se sobre as novidades do mundo Judiciário pelo computador —, ela ganha um seguidor no Instagram. No fim do dia, serão novos 70. Em uma semana, 500, que vão se somar a outros 37,1 mil, além de dezenas de mensagens, como ocorreu desde a última sexta-feira (17/11).

Em seu gabinete, na sala 734 do Bloco B da Corte, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), a recifense reflete sobre o sucesso nas redes sociais. A ficha não cai imediatamente. Mas a juíza admite que a badalação na rede social, onde mostra sua rotina, contrasta com o resguardo habitual no mundo dos togados.

“Muitas pessoas ainda têm a visão de que juiz só trabalha, não se diverte e se acha. Mostro que temos vida social, saímos à noite, bebemos. Vida normal”, afirma.No “Insta”, Augusta revela o cotidiano ainda camuflado por grande parte dos magistrados: pilhas de processos envoltos em pastas amarelas amontoados sobre mesa e cadeiras do gabinete, viagens, malhação e drinks em baladas brasilienses. O resultado? Publicações com até 7,1 mil curtidas e centenas de comentários.

“Quero ficar conhecida não pelo Instagram, mas por ser pessoa que faz o próprio trabalho de forma célere e trabalha com o lado humano. Não porque julguei A ou B

Augusta Diniz, juíza da 3ª Vara Criminal de Brasília

 

Pin this!

Hoje, as publicações da magistrada têm milhares de curtidas e centenas de comentários

No tempo em que não está na sala de audiências ou no gabinete, a juíza se exercita, estuda e pratica uma das paixões: a música. Tudo isso é acompanhado pelos milhares de seguidores. Na sala do apartamento de dois quartos onde mora com o marido, em área nobre de Brasília, sua guitarra se impõe sobre o suporte posicionado ao lado do sofá.

Como se fosse o anfitrião, o instrumento convida os visitantes a um show intimista ou pelo menos uma “palhinha”. Entretanto, a timidez de Augusta em tocar os acordes diante de plateia se disfarça na justificativa de que “o amplificador não está bom”.

“Não gosto de cantar na frente das pessoas. Eu travo”, explica, enquanto emenda as notas sol, ré e lá menor com sétima e introduz a melodia de “Knockin’ On Heavens Door”, hit do astro americano Bob Dylan.

 

 

Outra paixão que tem lugar cativo na agenda dela é o exercício físico. Em um turno, quando não está em sala de aula aprendendo inglês e espanhol, corre na rua ao menos duas vezes por semana. Em outro, mantém a forma em academia, onde a preguiça jamais a acompanhou. Quem atesta é o educador físico Victor Martini. “Ela é super disciplinada. Malha com muita vontade”, elogia.

A preocupação com a saúde e o bem-estar é acompanhada de dieta, que ela cumpre com rigor. E dá de ombros para a tentação em quebrá-la. Principalmente, ao sair da academia, rodeada por torteria e restaurantes.

Além da música e dos exercícios, Augusta reserva um tempo diário para ler. E se engana quem pensa que a biblioteca dela é composta apenas de obras jurídicas. Entre os 216 livros dispostos sobre prateleiras no escritório do apartamento, há romances, como o que ela lê atualmente: “Chá de Sumiço”, da escritora irlandesa Marian Keyes.

A pompa da juíza se assemelha a de uma celebridade, embora ela descarte este rótulo. Prova disso é o ciúme entre os admiradores nas redes. Que o diga a advogada Clarissa Almeida, 26, moradora de Recife. Seguidora de Augusta há quase dois anos, a criminalista almeja chegar tão longe quanto a conterrânea e se autointitula presidente do fã-clube da juíza. “Não gosto quando outras dizem que são fãs. Fico com ciúme, porque eu sou a número 1”, brinca a jovem, que vive em Recife (PE).

Os admiradores demonstram gratidão também fora do ambiente virtual. A magistrada relata que eles já a reconheceram no elevador do prédio onde vive, em supermercados e na academia.

 

“Fico impressionada e até triste quando as pessoas ficam surpresas por eu cumprimentá-las ou responder mensagens. Elas se sentem como se fosse algo absurdo ou eu tivesse feito o maior favor a elas. Isso deveria ser a regra. Juiz deveria ser acessível à sociedade

Augusta Diniz, juíza da 3ª Vara Criminal de Brasília

Os réus que ficam cara a cara com o martelo de Augusta na sala de audiências também a reconhecem pós-julgamento. No ano passado, ao estacionar seu veículo no Setor Hospitalar Sul, minutos antes de uma consulta médica, ela foi abordada por um lavador de carros. “Posso lavar, doutora?”, perguntou o homem, com um balde na mão direita. “Hoje, não. Obrigada!”, respondeu a chefe da 3ª Vara Criminal de Brasília, antes de desaparecer prédio adentro.

Uma hora depois, ela voltou ao estacionamento e se deparou com o veículo limpo. “Não se preocupe em pagar, doutora. É de graça porque você me soltou”, disse o flanelinha. Dias antes, a juíza havia indeferido pedido de prisão contra o homem.

Apesar de expor a rotina na rede social, Augusta preserva dados pessoais, por questão de segurança, como locais onde mora — ao lado do marido, com quem se casou há um mês — e estuda, além dos horários em que se debruça sobre os processos do TJDFT.

Psicologia
Nas postagens, Augusta exibe suas multifacetas. Filha de psicóloga, sempre amou ouvir histórias. Quando se trata de lamúrias, abre o leque de conselhos. Em um dos “divãs” de seu gabinete, onde já recebeu admiradores, ou na rede social, onde despejam até 70 mensagens por dia de todos os tipos: elogios, pedidos de emprego e até proposta de casamento — estas últimas sequer são respondidas.

“No Instagram, tem gente que me pede conselho sobre concurso, o curso de direito. Também contam problemas sérios, financeiros, caso de abuso sexual e intenções suicidas. Mas o tema campeão é término de namoro”, conta. A explicação para o recebimento de tantas lamentações sentimentais está nas publicações em que Augusta escreve como superou dois términos de noivado e impediu que isso atrapalhasse seus estudos.

Augusta põe a psicanálise em prática também nas audiências. Isso porque a magistrada dedica o máximo de tempo possível a ouvir os réus, independentemente da sentença, e aconselhá-los. “Busco escutá-los com atenção. O juiz tem que ser próximo deles e de suas famílias, ajudá-los também. É um servo da sociedade. Sabemos que as decisões mudam radicalmente as vidas de filhos, mulheres, pais”, explica.

A juíza conta que, caso decida incrementar o currículo com outra graduação, a escolha está feita: psicologia. “Sempre ajudo como posso. O melhor é ver a gratidão das pessoas depois que as respondo”, afirma.

Em setembro do ano passado, quando publicou pela primeira vez foto no trabalho, vestida de toga, a magistrada reservava um tempo à noite, em seu quarto, para responder as mensagens. Hoje, por causa da agenda abarrotada, demora semanas. Mas não deixa os seguidores desamparados.

Clarissa é uma das “clientes” do divã virtual da togada. “Eu me identifico muito com ela. Principalmente quando diz que os livros dela têm marcas de lágrimas até hoje. Também já tive problemas parecidos, fiquei triste e isso influenciou nos estudos. Mas a Augusta me ajudou, por mensagens, a não abaixar a cabeça”, enaltece.

Apesar de Clarissa viver em Recife (PE), cidade que abriga toda a família de Augusta e onde a juíza passa feriados prolongados e férias, jamais houve um encontro entre as duas. Mas não por falta de vontade da advogada, que planeja conhecer a inspiradora pessoalmente.

Linha-dura
No rol de alvos da caneta da juíza, estão figurões da política local e da segurança pública. O caso mais notório e recente chocou o DF, pois o pivô tinha a missão de combater o crime. Augusta sentenciou, no mês passado, a delegada aposentada Martha Vargas Borraz — ex-chefe da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) — por uso de documento falso e pagamento de multa (R$ 586,50).

A policial civil teria forjado, em 2010, pedido para viajar e deslocar equipe com sete integrantes até Presidente Juscelino (Minas Gerais), para supostamente deter um homem. O alvo teria mandado de prisão em aberto. As investigações apontaram que Martha inventou a história para poder apurar denúncias sobre o caso de um serial killer acusado de matar seis jovens em Luziânia (GO).

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Reprodução/TV GloboPin this!

Martha Vargas investigou crime da 113 Sul

Martha, à época da sentença, já colecionava outras duas condenações, de 2016: uma por falsidade ideológica e tortura e outra por fraude processual e violação de sigilo. A delegada participou da primeira fase de investigação do “crime da 113 Sul” — assassinato do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Vilela, da mulher dele, Maria Vilela, e da empregada do apartamento, Francisca Nascimento da Silva, em 2009. A policial teria manipulado a apuração para responsabilizar pessoas inocentes.

Outra condenação de destaque no cenário local é a do ex-secretário-adjunto de Gestão da Saúde Fernando Antunes. Investigado pela Operação Genebra, foi sentenciado a três anos de prisão por ter dispensado licitação e escolhido, de forma direcionada e com superfaturamento, empresa para transporte de pacientes em vans e ambulâncias.

Houve dois contratos firmados em 2009. À época, Antunes alegou caráter de urgência para escolha sem concorrência, pois havia receio de aumento no número de pacientes causado pelo surto do vírus H1N1. Augusta Diniz entendeu que a epidemia foi utilizada “de forma oportunista e artificial” para a contratação da companhia sem licitação.

Sport x Flamengo
Outro caso recebeu a canetada da juíza, mas não oficialmente: a controversa disputa pelo reconhecimento do título de campeão brasileiro de 1987. Torcedora do Sport, ela bate o martelo e declara o clube do coração o vencedor da Copa União daquele ano, conquista reivindicada por outro rubro-negro, o Flamengo.

O impasse, que já dura 30 anos, extrapolou a Justiça desportiva e chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte determinou que o Sport é o único vencedor da competição. O Fla recorreu. Mas, em abril deste ano, a Primeira Turma negou o recurso e manteve a primeira decisão. “Se o STF que é a Corte maior decidiu, não há mais discussão: o campeão é o Sport”, brinca a juíza, que vive o reflexo da disputa em casa, pois o marido dela é flamenguista.

 

FELIPE MENEZES/METRÓPOLES

Felipe Menezes/MetrópolesPin this!

Augusta vai cruzar os dedos neste domingo (26/11) contra rivais do Sport, que, assim como o rubro-negro pernambucano, lutam pela permanência na elite do Campeonato Brasileiro

Carreira
O comando da vara do TJDFT é o ponto final da carreira de Augusta. Pelo menos, por enquanto. Isso porque ela não se imagina trabalhando em outras Cortes. “Estou realizada. Ir para a segunda instância, Supremo Tribunal Federal (STF) ou Superior Tribunal de Justiça (STJ), é algo muito distante”, avalia.

A juíza cogita um dia se debruçar em trabalhos acadêmicos, como fez sua maior inspiração na magistratura, o ministro do STF Teori Zavascki, morto em um acidente aéreo no início deste ano. Ele era o relator da principal operação de combate à corrupção da história do Brasil, a Lava Jato, à época da tragédia.

O ex-chefe de Augusta, o procurador de Justiça aposentado Carlos Eduardo Magalhães de Almeida, discorda. Ele projeta a ex-subordinada em meio ao mais alto escalão do Poder Judiciário brasileiro.

“Ela tem todas as condições de estar não só em uma segunda instância, mas STJ, Supremo. Tem muito conhecimento jurídico, muito bom raciocínio, conhece as leis e a forma de interpretá-las

Carlos Eduardo Magalhães de Almeida, procurador de Justiça aposentado

Almeida foi procurador de Justiça e corregedor-geral do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT). Augusta trabalhou como assessora dele por oito anos, até 2015, quando tomou posse no cargo de juíza do TJDFT.

Longe dos processos e das sentenças, a magistrada sonha um dia se tornar mãe. “Por enquanto, quero ter um filho”, afirma. Entretanto, ela descarta realizar esse desejo nos próximos dois anos. Isso porque julga a atual rotina incompatível. Enquanto isso, concentra esforços na força do martelo.

 

Fonte: Metrópoles

Deixe uma resposta

Top