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Morre um jornalista apaixonado pela notícia

CB.Poder

ANA MARIA CAMPOS

“Do jeito que deixou as malas, não vai ficar”. Era, assim, com uma metáfora, que José Negreiros se referia a um novato que chegava na redação sem garra e paixão pela notícia. O jornalista tinha faro para talentos. Mas sabia também quando alguém não daria certo no cotidiano de apurações pela falta do DNA de repórter. Aos apaixonados, ele generosamente dedicava horas de sua rotina atribulada de chefe, com observações que poderiam melhorar a próxima reportagem. Mas seu foco era o leitor. Ele gostava de traduzir histórias que pareciam importantes aos olhos do mundo político, para que qualquer pessoa simples pudesse entender o real impacto dos fatos em sua vida.

Era um jornalista em tempo integral, sem horário de expediente. Todos que conviveram com Negreiros contam histórias de um profissional incansável, rigoroso, exigente e desconfiado de versões como todos os jornalistas deveriam ser. Muitas vezes, sarcástico. Adorava ironias. Era maluco pela profissão. E intenso. Nunca escrevia sobre qualquer assunto sem se aprofundar. Discorria sobre temas com conteúdo. Foi assim até os últimos dias. Mesmo sofrendo pela doença, que provocava dores fortes, não parou de trabalhar e de apurar. Desde o início do ano, estava internado na UTI em um hospital de Brasília, por conta de uma recidiva do câncer que começou na próstata.

Os familiares se revezavam nos cuidados e no carinho. Muitos amigos se despediram. Aos 68 anos, completados em dezembro, Negreiros morreu ontem. Ele deixa mulher, a jornalista Luciana Bezerra, três filhos: Beatriz, Cintia e Thiago, e muitos discípulos do bom jornalismo. Mesmo fora de redações, ele não deixava de refletir sobre os rumos da profissão, nesses tempos de fake news e apurações frágeis pela concorrência digital.

A amigos, como o sociólogo Fernando Jorge Caldas Pereira, revelou, em longas conversas, sua preocupação com o futuro da comunicação. Jornalista da época em que se investigava à exaustão e se segurava uma reportagem pela incerteza da apuração, Negreiros enxergava com cautela esses novos tempos. Via, com surpresa, como o jornalismo crescia progressivamente em velocidade, mas perdia em profundidade. Achava que as novas gerações eram especialistas nas novas ferramentas da internet e das redes sociais, mas não mergulhavam como deveriam nos conteúdos. Os mais antigos, por sua vez, não acompanhavam a evolução da tecnologia. Os dois mundos precisavam se encontrar, acreditava Negreiros.

Formado pela Universidade de Brasília (UnB), Negreiros, nascido em São Luís (MA), era um respeitado jornalista político e econômico. No Correio Braziliense, passou por várias funções. Foi correspondente internacional, editor de Brasil, Economia e Política e ocupou o cargo de editor-executivo. Ele também passou pelas redações do Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, O Estado de S. Paulo e O Globo.

Atualmente, trabalhava na empresa de análise política Arko Advice. Era consultado por vários políticos, pelas análises que fazia dos cenários. Ao longo da carreira, trabalhou com o então deputado Sigmaringa Seixas (PT/DF) e com o senador José Serra (PSDB/SP). Foi o chefe da comunicação da campanha de Cristovam Buarque à Presidência da República, em 2002. Em 2016, assessorou a candidatura da professora Márcia Abrahão, eleita reitora da Universidade de Brasília (UnB), a primeira mulher a assumir o posto, depois de uma vitória no primeiro turno.

Na redação do Correio, era um dos primeiros a chegar e só saía depois de pensar a edição do dia seguinte, muitas vezes já pela madrugada. Ávido leitor, não deixava de olhar cada reportagem publicada no jornal. Era, acima de tudo, rigoroso com o próprio trabalho. Nos últimos tempos, lamentou não ter estudado mais sociologia e ciência política. Não aceitava comentários rasos, sem profundidade.“Era um cara extremamente raro, preciso, sensível e profundo. Assessorou muita gente, mas nunca foi tiete, nem algoz de ninguém”, descreve Fernando Jorge.

Os amigos contam que Negreiros tinha muito orgulho do trabalho que realizou no Correio, onde trabalhou até 2002. Ele acreditava que tinha aproximado o jornal dos moradores da cidade, com uma cobertura mais intensa sobre o cotidiano dos moradores do Distrito Federal. Tinha um cuidado extremo com as pautas e a repercussão dos assuntos mais importantes. Traçava um plano de ação para a apuração dos fatos. “Ele era encantado pelo furo, pela notícia exclusiva”, conta o jornalista Paulo Fona, hoje secretário de Comunicação do DF. Fona trabalhou cinco anos com Negreiros no projeto de mudanças na editoria de Cidades, quando o caderno cresceu de duas para oito páginas na década de 1990.

Ricardo Noblat, um dos grandes amigos de Negreiros, o descreve assim: “Foi um dos mais brilhantes jornalistas que conheci – repórter de faro apurado, editor caprichoso que sabia extrair o melhor de uma história, correspondente internacional versátil capaz de transitar com desenvoltura por todas as áreas do conhecimento”. Os dois trabalharam juntos durante sete anos no Jornal do Brasil e oito no Correio Braziliense. Os amigos escreveram ao lado dos também jornalistas Gilberto Dimenstein, Bob Fernandes e Roberto Lopes O complô que elegeu Tancredo, livro-reportagem sobre os bastidores que levaram à candidatura do presidente que nunca tomou posse.

A jornalista Ana Dubeux, diretora de redação do Correio, era grande amiga de Negreiros. Trabalharam juntos em várias coberturas importantes do jornal e dividiram madrugadas discutindo edições. “Negreiros era um exemplo do verdadeiro jornalista, que não descansa e vive intensamente a notícia”, afirma.

O senador Cristovam Buarque conta que viveu momentos importantes de sua trajetória política com Negreiros. “Negreiros me acompanhou em todas as cidades ao redor do país, assistindo a todas as minhas dificuldades e me ajudando a formular os Negreiros foi meu assessor de imprensa durante a minha campanha presidencial. Ele me acompanhou em todas as cidades ao redor do país, assistindo a todas as minhas dificuldades e me ajudando a formular os discursos. E ainda era uma companhia muito agradável, conversávamos muito esperando os voos em aeroportos. Era muito intenso e tinha muito conteúdo”

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