A política e os limites da dor

0
66
Rodrigo Augusto Prando
No longínquo ano de 2001, ainda jovem e cursando mestrado em Sociologia, travei contato com a obra Em defesa da política, de Marco Aurélio Nogueira, professor titular de Teoria Política, na Unesp, pesquisador e um intelectual público. A obra tem um estilo que prima pela clareza estética conjugada a um excepcional ferramental analítico objetivando defender a Política, com P maiúsculo. Passados 20 anos, o escrito de Nogueira permanece atual e inquietante.

Em uma recente avaliação de meus alunos que, em tempos pandêmicos, realizaram a tarefa no aconchego de seus lares, usei trechos do referido livro. Costumo, sempre, após a prova comentar o que era esperado, relembro os autores estudados (no caso: Maquiavel, Hobbes, Locke e Rousseau) e discuto com a turma a correção. Neste momento, li alguns trechos de Nogueira, especialmente, acerca do cansaço e da descrença na política:

“O quadro geral é de descrença e desilusão. A grande maioria simplesmente se deixa levar. Perde a fé na vida pública, entrega-se ao fatalismo e à resignação, ao deslumbramento perante o poder, caindo nos braços dos ilusionistas de plantão.”
E, sobre os políticos, complementa:

“Os políticos profissionais são intermediários, representantes, lideranças. Vivem e agem no interior de um sistema. A boa ou a má qualidade deles depende da qualidade dos que são por eles representados, dos valores que prevalecem e da armação institucional em que operam.”

No que tange à defesa da política, aduz que:
“Sair em defesa da política, portanto, não é algo que se confunda com a defesa dos políticos ou das instituições que nos governam; é, ao contrário, uma operação destinada a defender a hipótese mesma da vida comunitária. Corresponde à necessidade vital de manter abertas as comportas de oxigênio, para que possamos continuar a respirar.”

Durante a aula, comentando a avaliação realizada e relendo Nogueira, dei-me conta da situação lamentável de nossa existência no Brasil, que, infelizmente, tem conjugado um cenário de pandemia e de uma política que se distanciou de seu nobre objetivo que é organizar a vida coletiva. Teríamos caído, segundo a advertência de Nogueira, nos braços dos ilusionistas de plantão? Daqueles que negam e atacam a política, mas estão no bojo do sistema que condenam? E, ainda, não podemos nos esquecer, jamais, que “políticos profissionais são intermediários” e que a “boa ou má qualidade deles depende da qualidade dos que são por eles representados”. Assim, continua, quase sempre, a preponderar um discurso sedutor, uma retórica que busca culpar a política e os políticos, mas sem levar em conta que, no Executivo e no Legislativo, há os detentores de mandato que foram, legitimamente, eleitos. Apontar o dedo acusador para os políticos implica, no limite, apontar para o espelho, cujo reflexo apresenta a face de nossa sociedade.

Estamos, todos, em maior ou menor grau, esgotados, pouco esperançosos. A doença – com os contaminados e mortos – não é, como no início, de confortáveis abstrações que pareciam distantes, como, por exemplo, “idosos”, “grupos de riscos”, “portadores de comorbidades”. Não. Nos dias que correm, as mortes estão, cotidianamente, em nossas famílias, no grupo de amigos, nos colegas de trabalho. Todos, crianças, jovens, saudáveis, atletas, estão perdendo a vida. As redes sociais apresentam fotos e dizeres como “luto”, “tristeza”, “meu amor se foi”, “minha vida acabou”. Escrevi, alhures, que, no Brasil, já havíamos nos acostumados a um número de quase 100 mil mortos por ano (60 mil assassinatos e 40 mil mortes no trânsito), há tempos nós normalizados o anormal.

Qual o limite para tanta dor? Não sei. Vamos, por enquanto, suportando. Creio, no entanto, que o rescaldo desta tragédia nos deixará individual e coletivamente alquebrados, os custos psicológicos e sociológicos serão enormes. Os sinais, aqui, são péssimos: temos crise econômica, ausência e atrasos na vacinação, desemprego, inflação, aumento de preços, fome e o Brasil isolado do mundo por ser o epicentro da atual onda da pandemia. Segundo dados da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil é o país que, dentre as grandes economias, apresenta desaceleração do crescimento neste começo de ano.

A reconstrução do país, pós pandemia, e, também, de nossas esperanças não será obra simples, rápida e de algum líder iluminado, sempre presente dado à nossa cultura política messiânica. Autocratas se apresentarão como demiurgos, com soluções mágicas e, obviamente, enganosas. Para o bem o para o mal, qualquer ideia ou projeto para o país dependerá da Política, dos esforços coadunados de políticos e demais cidadãos. Espero que estejamos preparados para tamanho desafio. Espero que a dor encontre seu limite e seja substituída por tempos felizes; da felicidade cotidiana, simples, do cafezinho com os amigos, da caminhada no parque, do abraço apertado, da festa de aniversário, do diálogo sem ódio e rancor. Que a Política seja o oxigênio da democracia e não a falta dele que nos sufoca.

Rodrigo Augusto Prando é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui