ASCENSÃO

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A notícia está no jornal: nos últimos sete anos, 303 mil famílias brasileiras chegaram ao que parece ser um oásis com a chancela de Classe A. Juntaram-se às pouco mais de um milhão, distinguidas com a primeira letra do alfabeto, numa conquista importante para os padrões de valores eleitos pela sociedade contemporânea. No mesmo período, também ganharam passageiros as classes B e C.
Certamente a maioria desses privilegiados fez por merecer. Ou seja, ultrapassaram a faixa de renda domiciliar equivalente a vinte salários mínimos, graças ao trabalho honesto e a partir de comprovada competência técnica. Contudo, ali onde desembarcaram aqueles ‘calouros’ ainda não é o Olimpo. Uma categoria superior, que os mesmos especialistas denominam Classe A Gargarejo, habita, imensurável e misteriosa à maioria dos mortais, o cume envolto em densa névoa. É em ambas que um segmento sofisticado do mercado nacional está de olho, enquanto esfrega as mãos na expectativa de continuar disponibilizando produtos e serviços de altíssimo luxo.
Mas a visão, a partir do topo, não parece ser das melhores. Segundo a Organização Mundial do Trabalho, dos 3 bilhões de pessoas empregadas no mundo, 1,3 bilhão ganham até US$ 2 diários, e quase 500 milhões ganham menos de US$ 1 por dia. Os R$ 2 mil que, segundo comerciantes do ramo, “muita gente” no Brasil paga por uma garrafa de vinho, é quantia que não consegue juntar, em um ano, um desses 1,3 bilhão de trabalhadores que sobrevivem com até U$ 2 diários.
Indicadores sociais, sabe-se, são manipuláveis. Dançam, saltam, transformam-se ao gosto de quem precisa deles. Já se disse que o diabo mora no detalhe, mas há quem sustente que toda a hierarquia infernal está nos números. Quando o assunto é pobreza, ela costuma crescer ou diminuir de acordo com a oportunidade. É então que relatórios técnicos podem ser relativos ou exatos.
Há muito a voz das ruas sabe que pobreza e violência andam juntas. Falta só a necessária consciência de que a ignorância dos miseráveis é preciosa para que se mantenha sob controle a desejada, justa, digna e imprescindível ascensão social de todos.
Pretextos – Eduardo Lara resende

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