BARRACO NO NINHO DOS ARAPONGAS

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    Brasil

    Veja teve acesso a investigações abertas pela Abin para apurar desvio de conduta dos espiões e descobriu que por lá as confusões acontecem até no banheiro, por causa de uma simples toalha

    Tente imaginar o dia a dia de uma agência oficial de espionagem. É natural você pensar nas românticas cenas de Hollywood em que agentes secretos se aventuram mundo afora procurando terroristas, desarmando bombas ou cuidando da segurança de presidentes. Pois nem sempre é assim – e o serviço secreto brasileiro que o diga. Na Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, ultimamente o ambiente está mais para novela mexicana do que para roteiro de James Bond.

    VEJA teve acesso a relatórios que integram um rol de mais de quarenta investigações que a própria Abin fez para apurar denúncias de desvio de conduta de seus arapongas. Há casos que beiram o ridículo – e servem para explicar as razões da conhecida ineficiência da agência, que a cada ano consome mais de 350 milhões de reais dos cofres públicos. Sabe-se agora que muitos dos agentes secretos, encarregados de antecipar à presidente da República eventuais crises e ameaças ao estado brasileiro, andam ocupados com outras coisas. A lista inclui desde brigas nos banheiros da Abin até a história de um agente punido porque levou a noiva para visitar seu bunker secreto. As denúncias de deslizes cometidos pelos espiões passaram a ser comuns após a criação, há três anos, de uma corregedoria interna. Desde então os arapongas, acostumados a bisbilhotar vidas alheias, começaram a ser, também eles, investigados.
    O protagonismo da corregedoria tem motivado reclamações contra o atual diretor da agência, Wilson Trezza, remanescente do governo Lula. São queixas veladas, é claro, até porque não cairia bem espiões, além de tudo, ainda fazerem protesto em praça pública. Os arapongas reclamam que deslizes dos mais irrelevantes têm sido motivo para abrir sindicância, o que estaria comprometendo a atividade-fim da Abin. Dizem que são obrigados a gastar tempo respondendo a procedimentos disciplinares banais enquanto poderiam estar em campo, trabalhando. Entre os casos investigados, há de tudo. A briga no banheiro, por exemplo, se deu porque uma agente deixou a toalha pendurada sobre a porta enquanto tomava banho. Uma colega não gostou e foi tirar satisfação. Só para “investigar” esse caso, foram tomados seis depoimentos. O araponga investigado porque entrou com a noiva nas instalações secretas da Abin até apresentou explicação: disse que ela é especialista em finanças e fora ajudá-lo num relatório em que era preciso fazer contas. Não colou.

    Afora essas, há outras sindicâncias menos prosaicas, para apurar, por exemplo, suspeitas de desvio da verba secreta destinada ao pagamento de informantes. Outros arapongas respondem a processos internos por ter emprestado carros oficiais a parentes e amigos – um deles, por sinal, será exonerado nos próximos dias. As confusões sem fim na Abin têm irritado o Planalto, seu cliente final. Por lá, a avaliação é que a agência continua arrumando mais problemas que soluções. Não é para menos.

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