Brasília sob ameaça de greve

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Em 7 de outubro, servidores públicos tomaram a Praça do Buriti em reação ao decreto antigreve do GDF que previa corte de ponto e demissão

POR OTÁVIO AUGUSTO – CORREIO BRAZILIENSE

 

Movimento unificado reúne hoje, na Praça do Buriti, 32 categorias de servidores públicos que protestam contra o adiamento da última parcela do reajuste salarial. O governo do DF informou ontem à noite que não há datas para negociar com nenhum segmento.

 

E ntidades representativas do funcionalismo público brasiliense formaram um movimento unificado de 32 categorias, que se reunirão pela manhã na Praça do Buriti e podem decidir pela greve. Para tentar evitar a paralisação de áreas como educação, saúde, segurança pública e administração direta, o governo de Brasília apresentou ontem planilhas de gastos aos representantes dos servidores a fim de convencê-los de que não há possibilidade de negociação. As relações pioraram desde que o Executivo local adiou, pelo segundo ano consecutivo, o pagamento da última parcela do reajuste salarial, aprovado na gestão de Agnelo Queiroz (PT) (leia Memória). Há duas semanas, o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) disse que prefere pagar os salários em dia do que “quebrar Brasília”.

 

A mobilização de hoje se desenha desde a semana passada, quando começaram as paralisações. Hospitais públicos suspenderam diversos serviços. As visitas ao Complexo Penitenciário da Papuda e à Penitenciária Feminina estão canceladas desde ontem por causa da greve dos agentes penitenciários. A transferência de 96 presos ontem do Departamento de Polícia Especializada (DPE) para o Centro de Detenção Provisória (CDP) também não ocorreu. Parados desde segunda-feira, policiais civis impediram que um veículo da Polícia Militar passasse por perícia após um dano na lataria.

 

O secretário adjunto de Fazenda, Wilson José de Paula, chegou a destacar ontem, em uma reunião na Câmara Legislativa, que o governo voltaria a negociar com a Polícia Civil em fevereiro de 2017, mas, à noite, o GDF informou que, na prática, não há data para negociar com nenhuma categoria. Os policiais civis pedem equiparação com o reajuste da Polícia Federal, determinado pela União. Hoje, eles realizam nova assembleia. O presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do DF (Sindepo), Rafael Sampaio, ressaltou as dificuldades nas negociações. E o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do DF (Sinpol), Rodrigo Franco, reivindicou uma definição ainda em 2016. “Não há vontade política do governador em resolver a questão”, reclama.

Delegacias

Hoje os policiais civis completam 115 dias mobilizados. As delegacias voltariam a funcionar às 8h desta quarta-feira, após 48 horas de paralisação. As investigações também estão afetadas, e as perícias só são deslocadas para atender crimes graves como latrocínio, homicídios e sequestros relâmpagos. Entretanto, a categoria argumenta que o governo tem recursos para negociar, uma vez que o dinheiro para o custeio dos pagamentos sai do Fundo Constitucional. O movimento reivindicatório por reajuste salarial da Polícia Civil demonstra a tensão nas relações dentro da própria instituição. Enquanto moradores enfrentam dificuldades em registrar ocorrência, integrantes da categoria se atacam em uma disputa de poder, sendo o diretor-geral da Polícia Civil do Distrito Federal, Eric Seba, alvo das principais críticas.

 

Memória

Situação parecida em 2015

O atual momento lembra cenas de janeiro de 2015, quando hospitais públicos da capital federal fecharam as portas, 470 mil alunos ficaram sem aula, o Detran e os postos do Na Hora suspenderam totalmente as atividades e até o Samu operou com 50% das ambulâncias. No ano passado, o estopim para a greve foi a falta de um cronograma para o pagamento dos reajustes concedidos na gestão de Agnelo Queiroz (PT).

 

Atos com pauta única

 

Várias entidades sindicais defendem um movimento unificado como o que será realizado hoje. O Sindicato dos Servidores da Administração Direta reúne 17 categorias e incentiva esse tipo de mobilização. O presidente da entidade, Ibrahim Youssef, reforça que as demais categorias estejam unidas. “Participamos do movimento unificado como um grito de alerta para o governo”, afirma.

 

Na área da saúde, várias lideranças se destacam na reivindicação. Na análise governista, a presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde (SindSaúde), Marli Rodrigues, é o maior encalço. Ela ganhou notoriedade na greve de 2015. “O governo gosta de sindicato subserviente. Por estarmos na linha de frente, somos alvo de ataque”, diz. Ela chega ao fim do primeiro mandato como presidente do SindSaúde como uma das favoritas à reeleição, em dezembro.

 

Durante os primeiros meses de gestão, Rollemberg enfrentou oposição mais intensa do presidente do Sindicato dos Médicos (SindMédico), Gutemberg Fialho. Ex-correligionário do governador, Gutemberg foi expulso do PSB, em abril de 2015, após declarar guerra contra o Buriti. Hoje, à frente do terceiro mandato, ele critica a falta de diálogo. Outros dois líderes trabalham nos bastidores, mas com atuação mais discreta. O presidente do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem (Sindate), Jorge Viana, rompeu com o PSD, sigla do vice-governador, Renato Santana, após perder a eleição de 2014. Ele concorreu ao cargo de deputado distrital. “Cada sindicato tem sua vontade, mas existem pautas conjuntas. Estamos unidos para mobilizar a população”, avisa.

 

Após 20 anos sem troca de gestão, o Sindicato dos Enfermeiros (SindEnfermeiros) elegeu, em junho, nova diretoria. Dayse Donetts Diniz assumiu a entidade com a meta de estreitar relações com os 6 mil profissionais da rede privada. Somados aos da pública, totalizam cerca de 10 mil. Desde a posse, ela se reúne com o secretário de Saúde, Humberto Fonseca, e busca alianças na Câmara Legislativa. “O governo não tem demonstrado interesse em melhorar a situação”, reforça em comunicado da entidade.

 

Até pouco tempo, o Sindicato dos Professores (Sinpro-DF) era um dos mais combativos., mas divergências internas enfraqueceram o grupo. “Vamos às escolas conversar com a categoria. A pauta é pesada e negativa e não queremos um debate pontual”, defende a diretora Rosilene Corrêa. Em 10 de novembro, haverá assembleia, com paralisação.

 

“A sociedade perde”, diz chefe da Casa Civil

 

Segundo Sérgio Sampaio, a greve não vai fazer surgir recursos

 

O secretário-chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, disse que a “sociedade é que perde” com o movimento, já que a greve “não vai fazer surgir recursos”. “Temos dado o tom de como nós vamos atuar e estamos acompanhando com muita apreensão”, avalia. Hoje, o subsecretário de Relações do Trabalho e do Terceiro Setor, Márcio Gimene, acompanhará as mobilizações sindicais.

 

O secretário adjunto de Articulação Política do GDF, Igor Tokarski, minimiza a discórdia com os movimentos reivindicatórios, que, segundo interlocutores, fala-se da formação de uma “tropa de choque sindical”. “Esses líderes têm cada vez menos influência com os servidores. Vejo com preocupação certos discursos de questões que não existem”, rebate. Em pelo menos 40 mesas de negociação — mecanismo criado pelo governo para se relacionar com os sindicalistas —, houve debate de interesses.

Ancorado na cifra, Tokarski garante que existe interlocução entre o Buriti e as lideranças das categorias. “Acusar o governo de falta de diálogo não condiz com a realidade. Uma das grandes virtudes do governo é ter o máximo de transparência”, pondera. Ele defende “um trabalho conjunto”.

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