CHICO LEITE O PT precisa de uma mudança de dentro para fora

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Suzano Almeida, Jornal de Brasília

Inclinado a disputa do Senado, no próximo ano, e enfatizando “essa é minha hora”, o deputado distrital Chico Leite (PT) não abre mão da realização de uma consulta aos seus pares na convenção do seu partido antes da eleição de 2014, para evitar a imposição de consensos. Crítico e fiscalizador da gestão Agnelo Queiroz, do qual ele faz parte, Leite conclui que o governo precisa ser revisto, incluindo-se aí a relação com sua base nas esferas local e federal, mas alimenta a esperança de que ainda há tempo para mudar a realidade que se abateu sobre o governo onde, para ele, o maior problema é a falta de gestão política. Em entrevista ao Jornal de Brasília, Chico Leite fala não só de seus sonhos políticos, mas também da reformulação do PT, que para ele precisa mudar de dentro para fora, rejeitando alianças de poder pelo poder e resgatando valores.

 

Qual a sua avaliação para o segundo semestre na Câmara Legislativa?

Eu prevejo um semestre difícil, seja pelos desafios colocados, porque a Casa Legislativa precisa responder às reivindicações das ruas, e nesse sentido é importante que se resgate tudo que há de pauta ética, ou sobre educação, saúde, transporte; seja também porque há quatro parlamentares que respondem a processo político-disciplinar, com acusações de quebra de decoro. Não fosse para tanto, ainda temos os prazos para todas as decisões político-eleitorais com encerramento no início de outubro.

E como o senhor vê o papel da Câmara nesse momento? Qual a sua visão em relação às manifestações que se aproximam dos poderes do DF?

Apesar da campanha contra à Câmara Legislativa, muito maior do que todas as movidas contra outras casas legislativas estaduais, nós fizemos uma grande parte desse dever de casa, como o fim do voto secreto, transparência das contas, fim do nepotismo, fim dos salários-extras, a aprovamos o passe livre, antes de todas as Casas do País. Em alguns aspectos, como a educação, os índices demonstram que estamos bem, mas, ainda temos o poço sem fundo da saúde.

Qual a avaliação que faz do governo Agnelo?

É interessante. O governo Agnelo é um governo que faz muito mais do que efetivamente se sabe. É um governo que tem pecados no plano de sua gestão pública. Iniciou com o resgate de uma série de valores, depois da Caixa de Pandora, em 2011, e com dois problemas sérios: A gestão da organização administrativa do planejamento orçamentário e da gestão política. Com a chegada dos secretários Berger (Swedwnberger Barbosa) e Luiz Paulo (Barreto) a gente nota que o governo começa a se organizar administrativamente e a investir, com todos os problemas.

Quais problemas?

Dos dez terminais rodoviários nós temos nove, por exemplo, presos por ações do Tribunal de Contas, e com isso só um foi construído. Só agora as creches terão suas construções iniciadas. Então, nós tivemos uma linha de organização administrativa, mas do ponto de vista da gestão política do governo.

O governo começou tarde?

Acho que um governo é fundamentalmente política e gestão. Ele se organiza na gestão da formação da chamada banca orçamentária, pelo planejamento das obras com uma execução planejada, roteirizada. Mas o governo empaca na gestão política.

Como estão as relações com a base?

Até hoje nós não sabemos quantos são os parlamentares que apoiam efetivamente o governo, não sabemos como anda nossa representação no plano federal, não sabemos como andam as relações institucionais do governo com o Ministério Público, Tribunal de Justiça e por ai vai. Isso eu chamo de gestão política. O que ocorre: o governo faz, faz, faz e a comunicação, que é um fio condutor até a população, não consegue mostrar. Essa é uma realidade nítida. Quando a gente faz um levantamento de investimentos observamos que todos os números são assim: na Saúde, se contratam quase 10 mil servidores, investem-se quatro vezes mais, mas isso não aparece.

Mas não é estranho isso acontecer num governo que tem como integrante principal um partido que era interlocutor de todos esses movimentos sociais? Qual o problema do governo em se comunicar? É possível, em pouco mais de um ano, reverter essa situação?

Sempre é possível rever, reposicionar e acertar. Eu acredito nisso. A falta de gestão política faz com que o governo faça por um setor, ou por uma categoria, e ela continue insatisfeita. Exemplo: que reajuste nós tivemos nos últimos 20 anos maior do que o concedido pelo governo aos trabalhadores da educação? No entanto, os trabalhadores da educação continuam resistindo e rejeitando o governo. Todas as pesquisas mostram isso.

Não seria por uma questão de prioridades do governo em detrimento de outras, como o caso do Estádio Nacional de Brasília que se tornou a jóia da coroa deste governo?

Sim. A mim, por exemplo, incomoda o fato de o estádio ter o custo que teve e de nós vivermos uma verdadeira ditadura da Fifa, embora assumida e contratada por um outro governo – o que é importante que se diga. Agora, há fatores positivos como a geração de emprego e renda e a propagação da indústria do turismo. O problema é que como as relações com as sociedades civil e organizada não são boas e não são organizadas, isso acaba não chegando ao beneficiário. Com tudo que se investiu na saúde, se contratou e se criou de programas novos, se continua falando mal do governo. Daí o problema de novo: gestão pública.

Quem faz a gestão pública?

Até hoje não se sabe e nos perguntamos, há mais de dois anos e meio. Eu não sei.

Esse problema de gestão política não está no inchaço da base?

Eu acho que há mais secretarias do que deveríamos ter. Acho que há órgãos fazendo a mesma coisa, por tanto, com sobreposição de tarefas. Acredito que mesmo os deputados Chico Vigilante e Arlete Sampaio, líderes do governo e do PT, não conseguiriam dizer com quantos deputados poderiam efetivamente contar em cada votação.

O senhor falou sobre as secretarias e empresas públicas, mas os órgãos de ponta no trato com a população, como as administrações regionais, estão fazendo o papel deles ou estão servindo como cabides de empregos?

Eu acho que é fundamental uma revisão da estrutura do Estado para que tenhamos a profissionalização da administração pública. Essa é uma tese do PT e nossa desde o início do mandato. O problema é que, não apenas nesse governo, mas como cultura política o DF, foi-se, ano após ano, aumentando o número de cargos comissionados, sempre como maneira de formar base política. Essa é uma cultura política nacional plantada desde o início das eleições aqui no Distrito Federal e que nosso governo precisa mudar.

O senhor tem sido crítico do governo, mesmo sendo do partido. Com isso seus objetivos políticos não ficariam sob risco?

O exercício do parlamento hoje é muito mais de fiscalização do que de propor projetos. O parlamento tem o olho da sociedade no Executivo. Por isso, eu não ajudo dando tapinhas nas costas, nem bajulando. Eu ajudo o governo e a sociedade sendo crítico e propondo. Fiscalizando, denunciando e tentando corrigir distorções.

Hoje o senhor se sente mais à vontade no PT?

O que as pessoas consideram ser um problema do PT, eu considero uma grande virtude:  o embate de ideias e a unidade na luta de causas. Eu entrei no PT por empatia ideológica e, ao longo desse tempo, como em toda família,  você vai notando desvios aqui e ali, equívocos aqui e ali. E vai lutando, denunciando. Acho que agora, nesse processo que estamos passando a caminho das eleições internas no PT, é o grande momento para nós fazermos essa crítica interna e termos coragem de resgatar os valores que originaram o PT, como a ética, a transparência e a defesa de serviços públicos. Os governos passam, o que não pode passar são as ideias e as causas.

Com o cenário que se desenha, o senhor quer disputar o Senado?

Sou pré-candidato ao Senado. Acho que meu partido precisa fazer convenção prévia e acho que os candidatos precisam se colocar logo. E estou me referindo ao PT e aos aliados. Candidatos que escondam essa condição, ou que esperem ser ungidos por Deus (e todos só serão eleitos se o povo e Deus quiser), ou que queiram ser unanimidade, não tendo adversários, não tendo críticas, esse tipo me desagrada muito, pois faz o discurso de acordo com a plateia. É preciso se colocar e eu tenho me colocado, inclusive como  candidato.

Essa é a hora do Chico Leite?

É a hora, claro!

Para que o governo mantenha o apoio da sua base ele terá que dar espaço para outros partidos.Isso inclusive terá impacto na sua disputa ao Senado. Acredita que deva haver um enxugamento da base?

Não se faz política sem aliança, mas ela deve ser apoiada em princípios, ela não pode estar calcada em leilões, em cargos, na mera relação de poder.

A eleição do Agnelo foi de consenso, num momento em que o DF estava vivendo um período muito ruim. Nas próximas eleições, ainda não há consenso na oposição e poderá haver um adversário forte muito possivelmente da própria base? Com ofazer alianças em uma quadro como esse?

Eu entendo que as alianças devem ser feitas em torno de um programa comum e para isso as agremiações devem fazer a indicação para ocupar esses cargos com pessoas que tenham qualificação. Isso quer dizer: Aliança programática governa-se assim. Se, ao contrário, o que se tenta fazer, como alguns dizem, é ganhar no WO, evitando adversários, eu acho que isso não é coerente com a história do PT.

O que o senhor pensa sobre o momento da Câmara Legislativa, onde parlamentares deverão enfrentar processos de cassação?

O meu raciocínio é o seguinte: Toda representação que contenha indícios deve ser levada a julgamento pelas instâncias da Câmara. Mesa Diretora, Corregedoria, Comissão de Ética e Plenário, cada um em sua fase. Para isso, não deve haver esse ou aquele caso especial. Casos especiais são contra o Estado de Direito, pois esse prevê a existência do ilícito tipificado e a prova deste.

Um  caso como o do deputado Benedito Domingos, que chegou a Comissão de Ética onde ficou acordado que ele só seria julgado após a decisão final da Justiça, não abre um precedente?

Uma coisa é processo da Câmara, outra coisa é o processo judicial. Mas em todas elas, deve-se julgar de acordo com a prova dos autos. Foi o que eu disse antes: a Câmara está sendo pautada pelo desejo das ruas. Mas uma coisa é o discurso abstrato, outra é o real, quando vem à pancada… Apesar disso, meu compromisso é com o direito e a prova dos autos.

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