Conheça a Tática Noboa: Ou como Odebrecht enganou o MPF e a mídia

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A análise de dados armazenados em um iPhone de Marcelo Odebrecht, apreendido pela Polícia Federal (PF) na casa do executivo em 19 de junho, e feita pelo MPF, trouxe um equívoco da Procuradoria.

POR CLAUDIO TOGNOLLI/O GLOBO/REDAÇÃO –

Num grupo de anotações Marcelo pergunta se deve se expor e revela sua preocupação com a prisão: “tatica Noboa de eu me expor? Nosso risco eh a prisao”. Também chamou a atenção dos agentes federais uma citação, também sem data, que diz “trabalhar para para/anular (dissidentes PF)”. Os agentes escreveram, em seu relatório, que Marcelo teria a intenção de usar os “dissidentes” para de alguma forma atrapalhar o andamento das investigações. Não foi possível esclarecer a que se referia a tática “Novoa”. …

 

Os procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato acreditam que Marcelo Bahia Odebrecht, presidente da Odebrecht, tinha um plano para fugir do Brasil.

 

Segundo os investigadores, a expressão “tática Noboa”, que consta nas mensagens de celular do executivo, era uma “evidente referência” a Gustavo Noboa, ex-presidente do Equador que, em 2003, fugiu de seu país ao ser acusado de malversação de fundos na renegociação da dívida externa.

 

Entenderam errado.

 

Vou explicar o que era a tática Noboa.

 

Gustavo Noboa, ex-presidente do Equador, quando caiu nos grampos da justiça, bolou algo com sua assessoria: vazar o nome dele mesmo e de seus opositores, que também constavam duma lista de corrupção paga.

 

Assim, Noboa colocou toda a sua oposição contra a operação que o acusou.

 

O MPF leu errado o grampo em Marcelo Odebrecht.

 

Pessoas ligadas a Marcelo bolaram a tática Noboa em três etapas, nesta semana santa:

 

—Enganaram o Jornal Nacional, dando-lhes o “furo” de que haviam feito em massa delação premiada e acordo de leniência. Tudo mentira.

 

—Meteram no dia seguinte ao JN aquele anúncio mentiroso em todos os jornais do Brasil.

 

— Por fim vazaram o listão com o nomes dos políticos.

 

Só para te lembrar: nas buscas que realizou na Odebrecht durante a 23ª fase da Operação Lava Jato, no dia 22 de fevereiro, a Polícia Federal apreendeu uma lista do que seriam repasses de propina da empreiteira a políticos. A relação traz mais de 200 nomes e os valores recebidos, atingindo governo e oposição.

 

Estão presentes, por exemplo, os nomes do senador Aécio Neves (PSDB-MG), do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), dos senadores José Sarney (PMDB-AP), Romero Jucá (PMDB-RR) e Humberto Costa (PT-PE), do chefe de Gabinete da presidente Dilma Rousseff, Jaques Wagner, do PT, do ex-governador Eduardo Campos (PSB), morto em 2014, entre vários outros.

 

A Tática Noboa foi: botar toda a oposição no saco da Lava Jato para poder, agora, contar com todo o Legislativo oposicionista ao PT para que ajudem a ferrar a Lava Jato.

 

A Tática Noboa é: estamos todos no mesmo saco.

 

O MPF não entendeu isso ainda: Noboa nunca significou fugir do Brasil: mas tão somente vazar os nomes de todo mundo para que todos se unam contra a Lava Jato.

 

Observação do blog do Sombra:

Leia o que publicou O Globo em 21/07/2015

Anotações em celular de Marcelo Odebrecht apreendido pela PF mostram preocupação com Lava-Jato

Análise de dados armazenados em telefone dá sinais de que empreiteiro se relacionava com políticos e queria anular trabalho da polícia, citando ‘dissidentes’

 

POR TIAGO DANTAS 21/07/2015 8:13 / atualizado 21/07/2015 17:49

Os presidentes da Odebrecht, Marcelo Odebrecht (de casaco azul), e da Andrade Gutierrez, Otavio Azevedo (de casado bege), deixam o IML – Geraldo Bubniak / Agência O Globo

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SÃO PAULO – A análise de dados armazenados em um iPhone de Marcelo Odebrecht, apreendido pela Polícia Federal (PF) na casa do executivo em 19 de junho, mostra a preocupação do presidente da Odebrecht S.A. com as investigações da Operação Lava-Jato, dá sinais de como ele orientou seus subordinados a fazerem a defesa da construtora e expõe a relação do executivo com dezenas de políticos. As informações do relatório, concluído no último dia 18, foram utilizados pela PF como base para indiciar Marcelo e outras sete pessoas nesta segunda-feira. O relatório encaminhado ao MPF afirma que anotações feitas pelo empresário em seu celular mostram a influência que exercia com autoridades em “meio a interesses comerciais” do grupo. As anotações incluíam nomes de autoridades públicas, doações e “pagamentos diretos”.

O relatório diz ainda que Odebrecht tinha como espécie de “plano B” usar “dissidentes” da própria PF. “trabalhar para parar/anular”, dizia um dos itens avaliados pelos agentes: ” Chama atenção esta última alternativa, cuja intenção explícita de Marcelo Odebrecht, conforme suas próprias palavras, é parar/anular a Operação Lava-Jato, não cabendo aqui outra interpretação, uma vez que a operação está indicada pela sigla LJ como assunto das anotações”, afirma o relatório.

A referência à PF foi feita no bloco de notas do celular.

“Acoes B – Parar apuracao interna (nota midia dizendo que existem para preparar e direcionar).

– expor grandes – para apuracao interna

– desbloqueio OOG

– blindar Tau – trabalhar para parar/anular (dissidentes PF…)

Ações MRF

Toron vs cartel

OAB

Rio vs multis”

Em um tópico sem data com o título “Delação/fallback (RA)”, Marcelo Odebrecht lista argumentos que foram interpretados pela PF como uma possível defesa da empreiteira. Fallback é uma expressão em inglês para designar um “plano B”, uma escolha para quando a primeira opção não está disponível. Os investigadores deduziram que a sigla RA faz referência a Rogério Araújo, executivo da Odebrecht que também foi preso na Operação Lava-Jato.

Abaixo do título, ele escreve: “livrar todos e soh eu”; “era amigo e orientado por eles pagou-se Feira de cta que eles mandaram”. Segundo os agentes federais, a palavra “feira” é utilizada por Marcelo para se referir a pagamentos irregulares. “Cta” seria uma abreviação da palavra contas. Na sequência, o texto fala sobre caixa dois: “ODB pagava campanha a priori, mas eh certo que aceitava algumas indicações a título de bom relacionamento. Campanha incluindo caixa 2 se houver era soh com MO, que que não aceitava vinculacao. PRC soh se foi rebate de cx2” .

Presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, deixa a sede da PF em São Paulo – 19/05/2015PF indicia presidente da Andrade Gutierrez e mais oito por crimes investigados na Lava-Jato

PRC, na interpretação dos agentes federais, seria o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. Em depoimento à PF em setembro do ano passado, Paulo Roberto disse que recebeu R$ 31,5 milhões da Odebrecht em contas mantidas no exterior.

A palavra “swiss” aparece com frequência nas anotações do celular de Marcelo, numa referência à Suíça. Abaixo do tópico “fallback”, Marcelo escreveu: “Afinal o que tem contra RA e MF? Risco Swiss? E EUA?” Para os investigadores, as siglas se referem a uma dúvida sobre quais provas a PF tem contra Rogério Araújo e Márcio Faria, outro executivo da empreiteira que foi preso. A expressão “Risco Suíça” seria uma forma de mostrar preocupação com a movimentação de contas bancárias mantidas no exterior pelos executivos.

Na sequência, há uma frase considerada “enigmática” pelos agentes federais: “FP: – ela cai eu caio”. A PF cruzou a sigla com todos os nomes de mulheres que encontraram na agenda do dono da Odebrecht. Encontraram uma pessoa que teve sua identidade mantida em sigilo, mas não descobriram ainda o que a anotação quer dizer.

PROTEGER EXECUTIVOS

Ainda em relação a Rogério e Márcio, as anotações de Marcelo dizem para “não movimentar nada e reimbolsaremos tudo e asseguraremos a familia. Vamos segurar até o fim Higienizar apetrechos MF e RA. Vazar doação campanha. Nova nota minha midia?” Os agentes federais interpretaram a frase como “clara intenção de Marcelo em proteger” os executivos. Eles consideraram “higienizar” como uma menção a tirar informações de equipamentos dos dois funcionários da empresa.

Em outro grupo de anotações Marcelo pergunta se deve se expor e revela sua preocupação com a prisão: “tatica Noboa de eu me expor? Nosso risco eh a prisao”. Também chamou a atenção dos agentes federais uma citação, também sem data, que diz “trabalhar para para/anular (dissidentes PF)”. Os agentes escreveram, em seu relatório, que Marcelo teria a intenção de usar os “dissidentes” para de alguma forma atrapalhar o andamento das investigações. Não foi possível esclarecer a que se referia a tática “Noboa”.

As anotações fazem referência, também, a supostos pagamentos. Em um dos tópicos, de janeiro de 2013, antes, portanto, do início da Operação Lava-Jato, Marcelo escreveu “créditos – BMX: Vacareza e Zaratini: 3% (aprox 27M), sendo 3 deles mais 1 GM até outubro. Depois 21M p/GM e 2 para (V+Z).”, numa referência, afirma a PF, a Cândido Vaccareza e Carlos Zaratini, ambos deputados do PT. BMX foi identificado pela polícia como um empreendimento comercial na Marginal do Pinheiros. O relatório da PF não deixa claro se esses valores seriam alguma referência a pagamento de propina.

CITAÇÃO A POLÍTICOS

Em outras anotações, uma série de referências ao que a PF interpreta como sendo políticos:

“MF/RA: não movimentar nada e reimbolsaremos (sic) tudo e asseguraremos a família. Vamos segurar até o fim

Higienizar apetrechos MF e RA

Vazar doação campanha.

Nova nota minha mídia?

GA, FP,AM, MT, Lula? ECunha?”

Os agentes federais concluíram que as siglas citadas nessa anotação fariam referência a políticos: MT (Michel Temer, vice-presidente da República) e ECunha (Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados), GA (Geraldo Alckmin, governador de São Paulo), FP (Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais) e AM (Adriano Sá de Seixas Maia, diretor jurídico da Odebrecht Transport).

A assessoria de imprensa do governador Geraldo Alckmin informou que “a mensagem telefônica divulgada pela imprensa é ininteligível. Além disso, não há, nas siglas nela contidas, nenhuma comprovação ou sequer indício de tratar-se de alguém em especial, tampouco de algum assunto específico.” A assessoria de imprensa do Instituto Lula disse que não comentaria.

A assessoria do vice-presidente Michel Temer informou que no dia 21 de novembro de 2014 ele se encontrou com o empresário Marcelo Odebrecht para tratar de temas de interesse da empreiteira. A assessoria ressalta que os dois não trataram da Operação Lava-Jato, que na fase chamada como “Juízo Final” tinha realizado prisões de executivos de outras empreiteiras.

A PF fiz, ainda, que Marcelo afirmou, num dos documentos apreendidos, que as comissões internas de apuração da Petrobras estavam sendo conduzidas por “xiitas” com o único intuito de apontar culpados e afastar o risco de serem chamados de “coniventes ou incompetentes”.

Segundo a PF, Marcelo Odebrecht pretendeu adotar postura de confronto com as investigações, orientando ações. Num dos documentos, dá orientações claras. Para a PF, MF é Marcio Faria e RA é Rogério Araújo, dois dos executivos da empresa acusados de participar diretamente do cartel e fazer pagamentos de propina por meio de operadores, como Mário Góes e Bernardo Breiburghaus:

O delegado Eduardo Mauat disse que todos os executivos e envolvidos em investigações sobre a Odebrecht permaneceram em silêncio em seus depoimentos, exceto Marcelo Odebrecht. De acordo com o relatório, o empresário disse em depoimento continuar “confiando nos seus companheiros” – ou seja, nos executivos detidos – e que não via necessidade de ser preso, uma vez que sempre esteve à disposição da Justiça e já havia prestado depoimento em Brasília.

“Entendemos, que a partir dessa fala, no cotejo com os demais elementos carreados, Marcelo Odebrecht aderiu de forma inconteste as condutas imputadas aos demais investigados, considerando que delas detinha pleno conhecimento”, afirma Mauat no relatório.

Segundo a PF, foram também colhidas provas de transações financeiras em espécie feitas por Rogério Araújo, além de provas de que era ele quem comandava os depósitos ao operador Bernardo Freiburghaus, que em seguida depositava em contas de dois então diretores da Petrobras, Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró.

COMENTÁRIO SOBRE DILMA E FAMÍLIA

A anotação mais recente do celular de Marcelo é de 25 de maio e cita a presidente Dilma Rousseff. Ao responder a um diretor que perguntou se deveria oferecer à presidente uma visita às obras feitas pela Odebrecht no México durante a visita dela àquele país, Marcelo escreve que o convite deve ser feito por “educação”, embora seja improvável que Dilma aceite: “porque ela ja chega nos lugares querendo sair, e não gosta de fazer nada que já não seja obrigada.”

Marcelo mantinha, com a mulher e a filha, um grupo de Whatsapp chamado “os trapos”, em que a Lava-Jato também é citada. A filha lembra que haverá uma palestra em 4 de maio sobre Lava-Jato e Petrobras. A mãe responde com a hashtag “#nadaatemer”.

No relatório encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) nesta segunda-feira, o delegado Eduardo Mauat da Silva deu seus motivos para o indiciamento de Marcelo, ao escrever que “o material trazido aos autos aponta para o seu conhecimento e participação direta nas condutas atribuídas aos demais investigados, tendo buscado, segundo se depreende, obstaculizar as investigações”.

OUTRO LADO

Em nota enviada à imprensa, a Odebrecht informa que “o relatório da Polícia Federal traz novamente interpretações distorcidas, descontextualizadas e sem nenhuma lógica temporal de suas anotações pessoais. A mais grave é a tentativa de atribuir a Marcelo Odebrecht a responsabilidade pelos ilícitos gravíssimos que estão sendo apurados e envolveriam a cúpula da Polícia Federal do Paraná, como a questão da instalação de escutas em celas dentre outras.”

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse que não comentaria as possíveis referências a seu nome nas anotações do telefone do empreiteiro. Afirmou também nunca ter recebido ligação de alguém da empreiteira e negou ter tido qualquer contato com Marcelo Odebrecht.

 

 

 

Fonte: Blog do Sombra

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