CORRUPÇÃO – MOTORISTA REVELA QUE PETISTA COMANDOU ESQUEMA QUE DESVIAVA DINHEIRO DO MINISTÉRIO DO ESPORTE

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O maior esquema de corrupção dentro do Ministério do Esporte na época em que o ministro era Agnelo Queiroz, hoje candidato do PT ao Governo do Distrito Federal, foi revelado por uma testemunha a policiais da Delegacia Especial de Repressão ao Crime Organizado (Deco) da Polícia Civil do DF, que investiga o caso.  As revelações bombásticas da testemunha foram exibidas na noite desta terça-feira (27) no programa de televisão da candidata Weslian Roriz (PSC) e repetidas no horário eleitoral da tarde desta quarta-feira (28).

O denunciante do esquema é o motorista Geraldo Nascimento de Andrade. Em depoimento à polícia, que foi acompanhado por um promotor da Justiça Federal, e depois em gravação ao programa do PSC, Andrade garante que Agnelo foi o mentor intelectual do desvio de pelo menos R$ 3 milhões do Ministério do Esporte.

Os recursos eram desviados por instituições dirigidas por pessoas ligadas a Agnelo e filiadas ao PCdoB, partido ao qual o então ministro era filiado. O dinheiro desviado, segundo a testemunha, era depois dividido entre os participantes do esquema. Geraldo Andrade garante ter participado de um dos encontros de partilha da verba desviada. Nesse encontro, Agnelo teria recebido R$ 256 mil em dinheiro vivo. “Eu mesmo contei o dinheiro”, revelou Andrade, num depoimento rico em detalhes.

O envolvimento do motorista no esquema foi descoberto pela “Operação Shaolin”, deflagrada pela Polícia Civil do DF para apurar denúncias de desvio de recursos do Programa Segundo Tempo praticados por ONGs e instituições que tinham convênios com o Ministério do Esporte. As investigações começaram em 2007. Em 2009 foi aberto o inquérito policial 028/2009 e no início de 2010, a Deco prendeu um grupo de pessoas supostamente envolvidas no esquema.

 No dia 3 de abril de 2010, Geraldo Andrade prestou o depoimento aos delegados Guilherme Henrique Nogueira e Giancarlos Zuliani Jr, ambos da Delegacia Especial de Repressão ao Crime Organizado (Deco). O depoimento foi acompanhado pelo promotor Nelson Faraco de Freitas, titular da 2ª Promotoria de Justiça de Fundações e Entidades de Interesse Social. 

REVISTAS DENUNCIARAM AGNELO

O caso foi denunciado primeiramente pela revista “Veja”, na edição do dia 23 de abril de 2008. Na reportagem “A fraude documentada”, a revista revela depoimento bombástico de outro personagem envolvido no esquema, Michael Vieira da Silva. No programa do último dia 22 de Weslian Roriz, Michael aparece revelando o esquema.

Mesmo depois da denúncia da “Veja”, o caso ficou abafado na mídia até 28 de maio de 2010, quando a revista “Época” publicou reportagem informando que uma testemunha confessou à polícia que viu Agnelo receber dinheiro do esquema de corrupção. A testemunha era o motorista Geraldo Nascimento de Andrade.

A identidade da testemunha fora preservada porque, até então, Andrade ainda não estava incluso no Programa de Proteção a Testemunhas do Ministério da Justiça. Só depois que passou a ser protegido pelo programa é que o motorista concordou mostrar o rosto e aparecer no horário eleitoral de Weslian Roriz. Na gravação, Andrade repete as mesmas revelações que ele fez aos policiais da “Operação Shaolin”, mas com um aviso: “Se acontecer alguma coisa comigo, foi o Agnelo”.

  

AS EMPRESAS ENVOLVIDAS

  

            No depoimento à Polícia Civil e na gravação ao programa da Coligação Esperança Renovada, Geraldo Andrade mostra que conhecia muito bem o funcionamento do esquema montado para desviar recursos do Ministério do Esporte. Segundo a testemunha, ele entrou para o esquema em 2005, quando conheceu o empresário Miguel Santos de Souza, que inicialmente lhe propôs emprego de motorista. Meses depois, Miguel lhe ofereceu uma proposta mais tentadora: abrir uma empresa para prestar serviços ao Ministério do Esporte.

            Geraldo Andrade conta que ficou sócio da empresa JG. Em seguida, Miguel Souza faria parceria com os irmãos Luiz Carlos e Antônio Carlos Coleho de Medeiros, administradores da ONG Novo Horizonte. Os irmãos já tinham ligação com o policial militar João Dias Ferreira, suplente de deputado distrital pelo PCdoB (então partido de Agnelo), dono da Associação João Dias de Kung-Fu e dirigente da Federação Brasiliense de Kung-Fu.

‘           Integrava o grupo outro “ongueiro”: Tony Matos, administrador da Gomes de Matos. O que essas instituições tinham em comum? Todas “possuíam convênios com o Ministério do Esporte relacionado ao Programa Segundo Tempo”, conforme declaração da testemunha.

Ainda fariam parte do esquema mais cinco empresas: Infinita, HP, Linha Direta, Transnutre e HS. Essas empresas tinham como sócios os três principais envolvidos no esquema (Miguel Santos de Souza, João Dias Ferreira e Tony Matos) ou parentes direto deles.   

COMO FUNCIONAVA O ESQUEMA

Geraldo Andrade contou que o Ministério do Esporte, na gestão de Agnelo, mantinha convênio com as ONGs Novo Horizonte e as instituições de Kung-Fu. Por meio dessas instituições, empresas eram contratadas para prestar serviços ao Programa Segundo Tempo. As licitações, segundo Andrade, eram forjadas. Eram anunciados discretos editais publicados em pequenos anúncios no caderno de classificados dos jornais “Correio Braziliense” e “Tribuna do Brasil”, além do “Jornal de Licitações”. Esses editais depois entrariam na prestação de contas das instituições conveniadas.

As empresas eram contratadas para promover atividades esportivas para crianças carentes de Sobradinho II. Nunca prestavam o serviço, mas mesmo assim recebiam o dinheiro. Para isso, emitiam notas frias. Depois, o dinheiro arrecadado era distribuído entre os participantes do esquema, inclusive o então ministro Agnelo Queiroz, que ainda teria recebido dinheiro mesmo depois de sair do ministério.

A revista “Época” também denunciou como a fraude acontecia.  “De acordo com a apuração da polícia, empresas de fachada cobravam 17%do valor das notas para emitir papéis frios, sacar os recursos depositados pelas associações em suas contas e devolver o dinheiro para as ONGs de João Dias”, revelou a revista, acrescentando “os investigadores afirmam que Dias desviou recursos para a compra de uma casa avaliada em R$ 850 mil para construir duas academias de ginástica e financiar sua campanha para deputado distrital em 2006”.

A ENTREGA DE R$ 256 MIL A AGNELO

No depoimento e na gravação do programa de TV, Geraldo Andrade fez mais uma revelação grave. Ele contou detalhes da entrega de R$ 256 mil a Agnelo Queiroz. O dinheiro foi entregue por outro integrante do esquema, Eduardo Pereira Toimaz. No texto abaixo, extraído do “Termo de Declaração” assinado por Geraldo Andrade, confira a íntegra dos detalhes da transação.

“Geraldo e Eduardo se deslocaram da 711 norte do plano piloto para Sobradinho em um Fiat Palio de cor verde de placa JGD 7919; que chegaram a Sobradinho por volta das 20h30min do dia 8.8.2007; que o declarante estacionou o citado veículo próximo a um restaurante que vende carne de sol, em frente a concessionária da Honda; que passados alguns minutos em Honda Civic  de cor preta estacionou do lado do Fiat/Palio do declarante; que o Honda Civic estacionou quase emparelhado com o Palio, de modo que a janela do declarante ficou a aproximadamente um metro de distancia da janela do passageiro do Honda Civic; que ato contínuo, Eduardo desceu do Fiat Palio e foi conversar com o passageiro do Honda Civic; que o passageiro do Honda Civic perguntou para Eduardo “quanto ele mandou para mim”; que Eduardo disse “duzentos e cinqüenta e alguma coisa”; que o passageiro do Honda Civic disse para Eduardo “mas esse não era o combinado”; que Eduardo respondeu “vê com ele depois”; que então Eduardo pediu para o declarante lhe passasse a mochila onde se encontrava os duzentos e cinqüenta mil reais; que o declarante abriu a mochila e entregou para Eduardo; que Eduardo pegou tal mochila e repassou para o passageiro do Civic Honda; que o passageiro do Civic Honda despejou o dinheiro no chão do veículo e devolveu a mochila para Eduardo; que o passageiro do Honda Civic pegou um maço de cinco mil reais, tirando um mil reais do mesmo; que tal pessoa entregou quinhentos reais para o declarante e para Eduardo, a título de gorgeja; que tudo isso ocorreu enquanto os carros estavam emparelhados no citado estacionamento; que de imediato o declarante não identificou o passageiro do Honda Civic de cor preta; que passado alguns segundos da entrega do dinheiro, enquanto os veículos estavam emparelhados e Eduardo já havia voltado para dentro do Fiat Palio, Eduardo perguntou ao declarante “você sabe quem é esse cara aí?”, sendo que o próprio cara respondeu “é o Agnelo”; que nesse momento o declarante olhou para o lado e confirmou visualmente que a pessoa que recebeu o dinheiro seria Agnelo Queiroz; que isso tudo ocorreu enquanto os veículos estavam emparelhados e Agnelo conferia o dinheiro recebido; que o local onde ocorreu a mencionada entrega possuía boa iluminação, razão pela qual o declarante pode afirmar com convicção que Agnelo Queiroz foi a pessoa que recebeu a mochila contendo duzentos e cinqüenta e seis mil reais.” 

Apesar de toda investigação, Agnelo, durante toda a campanha para o governo do distrito Federal, se apresentou como candidato “ficha limpa”. 

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