Denúncia de propina no GDF tem novos personagens

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Correio tem acesso a diálogos em que Marli Rodrigues, do SindSaúde, conversa com dois servidores do GDF sobre consultoria para livrar sindicato de cobranças do governo, feitas em carta assinada por ex-gerente da Secretaria de Planejamento

Isa Stacciarini/Correio Braziliense

Antonio Cunha/CB/D.A Press
A suposta extorsão denunciada pela presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Brasília (SindSaúde-DF), Marli Rodrigues, que seria vítima do crime, envolve servidores de carreira e comissionados do GDF. O Correio teve acesso à degravação de um encontro realizado no fim do ano passado entre a sindicalista e dois funcionários públicos. A conversa revela novos personagens que estariam envolvidos no escândalo da Saúde.

Na ocasião, Marli se reúne com o ouvidor do gabinete da Vice-governadoria, Valdecir Marques de Medeiros, e o então técnico em políticas públicas e gestão governamental da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag) Edvaldo Simplício da Silva. Valdecir é funcionário do SindSaúde licenciado para o cargo comissionado na Vice-governadoria. Foi na residência dele, em Águas Claras, que ocorreu a polêmica gravação entre Renato Santana (PSD) e a sindicalista. Edvaldo, hoje, está cedido à Câmara Legislativa do Distrito Federal (veja Quem é quem).

O encontro ocorreu após o SindSaúde receber uma carta convocatória assinada por Christian Michael Popov, então gerente de Cessões, Requisições e Ressarcimentos da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal (Seplag). O documento exigia novas certidões em um prazo de 30 dias, baseado no Decreto nº 28.195/2007, para que a entidade não perdesse o repasse das consignações descontadas em folha de pagamento dos servidores. No entanto, o SindSaúde apresentava pendências em decorrência de dívidas trabalhistas e buscava ajuda para regularizar a situação. Caso não conseguisse os documentos exigidos no prazo estipulado, poderia sofrer processo de descredenciamento.
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Para apoiar Marli, Valdecir entrou em contato com Edvaldo, que teria proposto o negócio de consultoria. O custo para o SindSaúde seria de R$ 214 mil. Marli falou em R$ 200 mil e contou como pagaria o trabalho: R$ 50 mil no ato e R$ 150 mil em 10 prestações. Com o acordo, os servidores tentariam segurar o processo na Seplag para que o sindicato não fosse descredenciado. Em um dos trechos, Marli menciona o nome de um homem chamado Cláudio, que fecharia o contrato de consultoria com Edvaldo. “Nós estamos com problemas das certidões, recebemos a carta do Popov, e é uma pessoa que vai nos ajudar fazendo um contrato com a gente de consultoria”, diz Marli.

Em um certo momento, ela explica a relação de Valdecir e Edvaldo. “E aí, ele (Popov) resolveu metralhar a gente. E a gente não tem essas certidões. (…) Mas nós não queremos perder esse código. Foi onde o Valdecir ligou para o senhor Edvaldo, que se propôs a ajudar nesse sentido”, conta.

Em novembro, Marli fez uma denúncia normal à Casa Civil sobre suposta extorsão praticada por funcionários do Executivo. O chefe da pasta, Sérgio Sampaio, marcou uma reunião para que a sindicalista apresentasse os fatos ao diretor-geral da Polícia Civil, Eric Seba. Em 2 de maio, uma reunião na Seplag contou com a presença do delegado Seba, quando foram apresentadas a ele denúncias sobre possíveis práticas ilegais por parte de servidores lotados no órgão. A chefe da pasta, Leany Lemos, apresentou documentos e pediu que fossem adotadas providências para a investigação e apuração dos fatos. A Delegacia de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Decap) instaurou inquérito e apura a veracidade dos áudios e dos fatos.
Respostas
Por telefone, Valdecir alegou que está sendo envolvido no caso por causa da amizade histórica que tem com Marli. Disse não ter conhecimento de como o assunto é tratado nas investigações e alegou estar tranquilo. “Sou funcionário do sindicato, mas estou licenciado. Como ia entrar no processo de extorsão contra o próprio sindicato? Estive na reunião com o rapaz (Edvaldo) porque Marli perguntou se eu conhecia alguém para resolver os problemas de pagamento de multa. Apresentei uma pessoa que podia trabalhar com consultoria, mas não tenho nada a ver com esse assunto”, defendeu. Sobre a gravação entre o vice-governador e a sindicalista, na casa dele, Valdecir alegou que tudo ocorreu sem o conhecimento dele. “Foi feito na minha casa sem minha anuência. Eu também fui gravado e sou vítima nesse processo. Minha família foi gravada dentro da minha casa.”

O advogado de Edvaldo, Francisco Roni, esclareceu que o cliente foi procurado para fazer o serviço de consultoria para resolver a questão de débitos tributários do SindSaúde. “Ele não procurou Marli, nem muito menos a chantageou. Essas exigências partiram do próprio governo. O valor de R$ 214 mil seria em créditos tributários, que somavam as dívidas dela. O Edvaldo foi procurado para resolver uma documentação que estava irregular. Nada partiu dele, que não tem poder de exigir nenhum tipo de certidão do sindicato”, alegou.

Em nota, o vice-governador disse desconhecer o assunto que envolve o ouvidor. “Porém, se tiver algo que desabone a conduta do servidor Valdecir, ele será exonerado imediatamente.” O Correio falou, na tarde de ontem, com o advogado que representa Popov em um processo judicial no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). Ele disse que entraria em contato com o cliente para a resposta, mas Popov não retornou até as 20h30. Também à tarde, a reportagem ligou para Marli. Um homem atendeu, disse que ela estava descansando e pediu para retornar mais tarde. À noite, ela não atendeu aos dois telefonemas do jornal.

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