Drácon: Deputado Cristiano Araújo teria feito lobby com hospitais

0
12

Distrital teria articulado contratação de empresa em hospital beneficiado com emenda marcada por propina. Segundo depoimento a que o Correio teve acesso, sócio do São Francisco foi procurado pelo distrital para tratar de contratos

Helena Mader- Correio Braziliense

Além da suposta cobrança de propina apontada pelo Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), a Operação Drácon pode envolver outras vantagens para os acusados de participação no esquema. O Correio teve acesso ao depoimento de todos os empresários de hospitais beneficiados com as sobras orçamentárias da Câmara Legislativa. Um deles relatou aos promotores ter sido procurado pelo deputado distrital Cristiano Araújo (PSD), à época da liberação dos recursos, para tratar da contratação de empresas privadas de limpeza, conservação e segurança para o hospital — justamente a área de atuação das empresas da família do parlamentar. Um dos empresários disse “ser corriqueiro ouvir que, para receber pagamentos, deve-se pagar por fora”. A defesa do deputado Cristiano Araújo diz que não há irregularidades no encontro.

Saiba mais

  • Operação Drácon: distritais entram com recurso para adiar julgamento
    Operação Drácon: distritais entram com recurso para adiar julgamento
  • Entenda como será o julgamento da Operação Drácon na terça-feira
    Entenda como será o julgamento da Operação Drácon na terça-feira
  • Operação Drácon: nova denúncia recai sobre distrital Cristiano Araújo
    Operação Drácon: nova denúncia recai sobre distrital Cristiano Araújo
Sócio do Hospital São Francisco, em Ceilândia, Fumihiko Yuge contou ao MPDFT ter sido procurado pelo deputado Cristiano Araújo e o pai dele, Luiz Vicente Araújo (morto em março de 2016), “buscando informações sobre possíveis contratos privados de limpeza, conservação e segurança com o Hospital São Francisco”. O empresário não se recorda exatamente da data do encontro, mas disse que a reunião ocorreu “em 2015 ou no início de 2016” — época da liberação de recursos e do pagamento dos hospitais com as emendas investigadas. A conversa teria ocorrido em um café em Águas Claras. Além de Cristiano e do pai, eles estariam acompanhados de mais duas pessoas, que também eram pai e filho, “sendo o filho bastante moreno”, segundo relato do empresário. Depois do encontro, Luiz Vicente Araújo foi ao Hospital São Francisco em outra ocasião, de acordo com Yuge.
Precatórios
Ele também fez aos promotores um relato da relação comercial entre o hospital e o GDF e disse não ter tomado nenhuma providência em 2015 para cobrar a dívida de R$ 7 milhões da unidade com o governo, nem no âmbito administrativo, nem na esfera judicial. Em 2014, Yuge havia se reunido com o então secretário de Saúde, Rafael Barbosa, que, segundo ele, havia prometido resolver a situação. O empresário cogitou recorrer ao Judiciário para receber os valores devidos, mas, segundo ele, teria sido desestimulado por donos de outros hospitais a tomar essa decisão, porque a firma receberia o valor devido em precatórios.
Sérgio Bastos de Oliveira, diretor administrativo do Hospital São Francisco, disse, em depoimento ao MP, que a unidade tinha R$ 7 milhões a receber do governo, tanto pela contratação de leitos de UTI quanto pela realização de exames de ressonância magnética. O hospital recebeu R$ 2 milhões das sobras orçamentárias da Câmara Legislativa, investigadas na Operação Drácon. Sérgio disse que esteve na Secretaria de Saúde “umas dez vezes ou mais” em 2014 e teria feito, ainda, outras três visitas em 2015 para tentar cobrar o valor devido.
O diretor administrativo contou que o contrato do São Francisco com o GDF foi suspenso em abril de 2015 “porque o hospital corria sério risco de falir, já que o GDF não honrava suas obrigações”. Sérgio garantiu ter tomado conhecimento do repasse de R$ 2 milhões autorizado pela Câmara Legislativa, no fim de 2015, pelo Diário Oficial do Distrito Federal.
No depoimento, os promotores quiseram saber detalhes sobre a questão da contratação de empresas privadas de vigilância e limpeza, área de interesse do deputado Cristiano Araújo. Sérgio Bastos relatou que, em 2016, pegou três cotações de empresas do setor, mas disse não ter conhecimento sobre a visita de Cristiano e do pai dele ao hospital para tratar sobre o assunto.
Propina
Os empresários ouvidos no MPDFT negaram o pagamento ou a solicitação de propina para receber os valores devidos pelo governo. Muitos narraram a saga para tentar resolver o problema com a Secretaria de Saúde e descreveram “surpresa” com a liberação das sobras orçamentárias da Câmara Legislativa.
Núbia Welerson Vieira, superintendente do Instituto do Coração do Distrito Federal, prestou depoimento em 8 de novembro. Segundo a médica, a Secretaria de Saúde tinha, no fim de 2014, uma dívida de R$ 13,7 milhões com a entidade. Desse valor, o GDF quitou R$ 4,5 milhões em janeiro de 2016. Núbia contou que só soube do despacho por meio da leitura do Diário Oficial do DF e negou que algum deputado distrital tenha cobrado propina para que houvesse o pagamento milionário.
No mesmo dia, os promotores ouviram o empresário Nazir El Haje Neto, sócio do Hospital Home. Ele relatou que ofertou leitos de UTI à Secretaria de Saúde de março de 2010 a dezembro de 2014. Quando o contrato foi encerrado, o GDF tinha uma dívida de R$ 13,4 milhões com a unidade. Em dezembro de 2014, a Secretaria de Saúde pediu a emissão de uma nota fiscal no valor de R$ 7,5 milhões, mas, segundo o empresário, apesar da emissão, o hospital só recebeu R$ 5 milhões mais de um ano depois, em fevereiro de 2016. Segundo Nazir, nem ele nem nenhum outro representante do hospital teria sido procurado por algum distrital cobrando propina para a quitação da dívida. O empresário entregou ao MPDFT os documentos do contrato, uma planilha com os serviços prestados e uma lista com os nomes de 77 pacientes atendidos pelo Home.
Representantes do Ministério Público também ouviram Manuel Ronaldo de Oliveira Simeão, sócio do Hospital Santa Marta. Ele contou que prestou serviço ao GDF entre 2010 e o início de 2015 e que, até 2014, o governo devia R$ 21 milhões ao Santa Marta, dos quais R$ 15 milhões eram repasses previstos em contrato e R$ 6 milhões eram atendimentos realizados por meio de liminares judiciais. Manuel relatou aos promotores que “tentou de diversas formas receber a dívida” e que, para isso, procurou várias vezes a Secretaria de Saúde para cobrar o valor devido. O empresário negou ter sido procurado por algum parlamentar com a cobrança de vantagem indevida, mas relatou ter achado “estranho” o fato de o GDF ter pagado somente R$ 11 milhões, pouco mais da metade do valor total da dívida. Até a data do depoimento, o hospital não havia recebido a diferença devida.

Julgamento
 
Está marcado para terça-feira o julgamento da denúncia contra os cinco distritais acusados de receber propina para a liberação de emendas de R$ 30 milhões a empresas que ofereciam leitos em unidades de tratamento intensivo (UTIs).