DURVAL TURBINA O ROLO COMPRESSOR

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OPERAÇÃO CAIXA DE PANDORA – DISTRITO FEDERAL
Durval turbina o rolo compressor

Ana Maria Campos e Lilian Tahan, do Correio Braziliense

As denúncias do ex-secretário de Relações Institucionais do DF Durval Barbosa não têm fim. Ele já prestou mais de 20 depoimentos ao Ministério Público e à Polícia Federal, mas toda vez que diz algo sobre o suposto esquema de corrupção instalado na capital do país provoca suspeitas de novos envolvidos na suposta distribuição de propina em troca de apoio ao governo de José Roberto Arruda. Na última quinta-feira, o colaborador da Operação Caixa de Pandora apontou mais dois deputados que seriam beneficiários de vantagens: Dr. Charles (PTB) e Batista das Cooperativas (PRP). E ainda mirou o PT. Disse, sem apontar nomes, que o partido também “tem os seus pecados” na ex-administração de Arruda.

Durante duas horas e meia, Durval prestou depoimento na última quinta-feira à vice-presidente da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara Legislativa, Érika Kokay (PT), nas dependências da Polícia Federal (PF). Convidado pela comissão para falar como testemunha do processo por quebra de decoro parlamentar contra a deputada Eurides Brito (PMDB), Durval, ao responder a questionamentos da distrital petista, ampliou o foco. Disse que no suposto esquema de mensalão Dr. Charles tinha tratamento diferenciado em relação a outros deputados. Recebia entre R$ 80 mil e R$ 100 mil por mês para apoiar o governo. Batista também tinha relação especial, segundo Durval. Além do mensalão, o distrital do PRP tinha outros interesses e era “recebedor, beneficiário de muita coisa”.

Érika Kokay quis saber por que até o momento o envolvimento de Dr. Charles e Batista das Cooperativas não havia sido apontado no Inquérito nº 650, em curso no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Durval garantiu que novidades sobre essas acusações ainda virão à tona. O relatório final da Polícia Federal sobre as buscas e apreensões feitas durante a Operação Caixa de Pandora ainda não está concluído, tampouco a denúncia que a subprocuradora-geral da República Raquel Dodge, responsável pelo caso, deverá apresentar contra Arruda e vários deputados distritais. “Estão nas ações. Não se preocupe. Eu falei naquele dia (depoimento à CPI da Codeplan) que isso é um rolo compressor. Ele vem devagar, vem amassando tudo, vem destruindo tudo”, afirmou Durval.

Insinuações
Durante o depoimento, Durval lamentou ter apoiado Arruda, mas disse que Érika Kokay não poderia se vangloriar de não tê-lo apoiado e insinuou que integrantes do PT teriam mantido relações promíscuas com o governo Arruda. Durval disse ainda que Érika tem um “passado limpo”, mas outros petistas, não. O ex-presidente do PT-DF Chico Vigilante teria ficado sabendo na casa do jornalista Edson Sombra, amigo e companheiro de Durval nas denúncias da Operação Caixa de Pandora, sobre “os pecados” de petistas. E teria chorado. “Ele sabe. Ele confia em mim. Ele confia em mim. Ele confia no Sombra”, disse Durval.

Vigilante confirmou que tem ido à casa de Sombra, na Asa Norte, inclusive para almoçar, o que aconteceu, por exemplo, na última sexta-feira, quando comeram galinha cabidela. Mas nega que tenha se abalado ou tomado conhecimento de qualquer denúncia relacionada a seu partido. “Se tem uma coisa que não me comove é corrupção. Corrupto não é meu amigo e nem é protegido por mim. Se houver algum petista envolvido, serei o primeiro a pedir a sua expulsão”, sustentou Vigilante. “Vou pedir à direção do PT que exija de Durval os nomes de petistas envolvidos. Não se pode jogar uma suspeição assim sobre o partido. Quero saber quem são os pecadores”, acrescentou. Sombra não quis comentar o teor da conversa com Vigilante.

Respostas
Dr. Charles negou que tenha recebido qualquer quantia de Durval. Ele considerou as acusações do ex-secretário de Relações Insticuionais “hilárias”. Disse que na gestão Arruda mantinha uma conduta que desagradava o governo. “Votei contra várias matérias, assinei a favor da criação das CPIs e do BRB. Então, não faz o menor sentido falar que recebia dinheiro para colaborar com o governo”, alegou. Dr. Charles disse que vai processar Durval por calúnia e difamação “mesmo se ele tivesse falado que eu fiquei com oito centavos”.

Batista das Cooperativas afirmou ter em mãos um atestado expedido pelo ex-ministro Fernando Gonçalves, ex-relator do Inquérito nº 650 do STJ, de que ele não está sob investigação. Em nota, Batista afirmou que a Coordenadora da Corte Especial do STJ, Vânia Maria Soares Rocha, emitiu certificado onde, em pesquisa realizada no processo, foi encontrada apenas uma vez a palavra Batista e esta não se refere ao distrital. “Sinto-me isento de qualquer acusação que venha a sofrer por parte do senhor Durval Barbosa. Vejo com estranheza o crédito que a imprensa tem dado a este senhor”, afirmou Batista.

O tamanho da propina

Entre janeiro de 2003 e novembro de 2009, quando foi deflagrada a Operação Caixa de Pandora, Durval Barbosa admitiu ter recebido R$ 160 milhões em propinas para o esquema supostamente comandado pelo ex-governador José Roberto Arruda. Desse montante, R$ 60 milhões teriam sido desviados da Codeplan, de contratos com empresas de informática, durante o último mandato do ex-governador Joaquim Roriz, hoje no PSC. Já no governo Arruda, o valor teria chegado a R$ 100 milhões.

Com o depoimento prestado à deputada Érika Kokay, relatora do processo de possível quebra de decoro de Eurides, Durval confessou ter recebido o dinheiro pessoalmente. “Passou pela sua mão?”, questionou a petista. “Pela minha mão”, confirmou Durval. O ex-secretário de Relações Institucionais do GDF disse que pagava alguns integrantes do suposto esquema, como a deputada Eurides Brito, Fábio Simão (ex-chefe de gabinete de Arruda) e o distrital Benício Tavares, todos do PMDB, a pedido do ex-governador. Ele negou que o pagamento feito em 2006, em que Eurides aparece em vídeo colocando o dinheiro na bolsa, tenha sido feito por recomendação de Roriz, como sustenta a peemedebista.

Durval contou que prestava contas a Arruda e disse que ele tinha o controle de tudo. “O negócio era estruturado, devidamente organizado, descentralizado, mas integrado”, descreveu. “Era uma organização criminosa, que funcionava com chefia, com time, funcionava com tudo”, acrescentou. De acordo com Durval, no governo Arruda, Fábio Simão deixou de ser beneficiário de mesada, como supostamente ocorria no governo Roriz, e se tornou operador. A própria Eurides teria passado a receber por outra fonte, o ex-chefe da Casa Civil José Geraldo Maciel.

Durval voltou a denunciar pagamento de propina para aprovação do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (Pdot) e citou Eurides, relatora setorial do projeto, como uma das prováveis beneficiadas. Disse que empresários pagaram duas vezes. Uma vez para os distritais e outra para o governo. E explicou: “Ali tinha criação de algumas áreas, tinha a junção de alguns terrenos e mudanças de gabarito, tudo ao mesmo tempo, tinha uma loucura”. (AMC)

Mais denúncias

Leia trechos do depoimento que o ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa concedeu à deputada Érika Kokay, relatora do processo que analisa possível quebra de decoro de Eurides:

(…)
Durval – Apoiei o Arruda.
Érika – O valor mensal…
Durval – Infelizmente.
Érika – Pois é. Eu não apoiei, não. Felizmente. Esse valor mensal de trinta mil reais que a deputada Eurides Brito…
Durval – Mas não se vanglorie muito, que têm pecados fortes dentro de seu partido, tá.
Érika – Meu partido?
Durval – Não se vanglorie muito. Cuide de você, porque você eu conheço. Você eu sei que… Você tem sua vida limpa. Eu inclusive andei mandando uns recados pra você, mas têm muitos pecados dentro do seu partido. Inclusive nesse governo.
Érika – Nesse governo Arruda?
Durval – Positivo.
Érika – Mas quem é o pecador?
Durval – Em outra oportunidade, se eu tiver oportunidade. Não nessa.
Érika – Mas me fale um negócio. Olha que eu enfartei. Oh, esse…
Durval – Pergunte ao Chico. O Chico saiu lá do Sombra… chorando.
Érika – O Chico Vigilante?
Durval – Hum-hum.
Érika – Ela sabe dessa história.
Durval – Ele sabe. Ele confia em mim. Ele confia em mim. Ele confia no Sombra.
Érika – Ave Maria! Esse valor mensal de trinta mil reais que a deputada Eurides recebia é… período que já foi falado. Eu vou ler outro trecho aqui do inquérito…

(…)
Érika – Quais eram os deputados que recebiam? Benedito…
Durval – Aí eu não sei.
Érika – Aqueles que estão no inquérito.
Durval – É. Eu acho que…
Érika – Aqueles… São oito, dez.
Durval – São oito, mas eu acredito que mais, mais deputados recebiam, porque para dar uma quantia de seiscentos mil… se bem que o Dr. Charles recebia oitenta, cem mil. O Rôney também recebia uns oitenta. Não sei por que a diferença. Mas eles recebiam diferenciado.
Érika – Eles recebiam de quem?
Durval – E o Batista também recebia.
Érika – E por que não aparecem essas…
Durval – Aparece. Aparece. Apareceu…
Érika – Apareceu onde?
Durval – Tá nos inquéritos… é porque ainda tá sigiloso.
Érika – Mas já apareceu?
Durval – Já apareceu.
Érika – O Batista… e quem é o outro? O Charles…
Durval – O Batista, o Charles, o Rôney recebiam diferenciados.
Érika – Eles recebiam e o Rôney… Por que eles recebiam?
O senhor não sabe?
Durval – Não sei.
Érika – Eles recebiam de quem esses três?
Durval – Eu vi aparecer no Domingos, no Maciel, e
Fábio Simão, Omézio Pontes.

(…)
Durval – Pdot. Agora você vai dizer que, com aquela qualificação do Batista das Cooperativas, você acha que ele não estava dentro? Um camarada venal igual àquele?
Érika – Ele recebia dinheiro também, mensalmente?
Durval – Vai mais fundo.
Érika – Ahn?
Durval – Vai mais fundo.
Érika – No… Ele tem aparecido na questão das cooperativas, tal.
Durval – E como recebedor, beneficiário de muita coisa, tá?
Érika – Ave Maria!
Durval – Acho que ninguém fica sem…

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