FILIPPELLI E OS CIÚMES DO PT

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Vice já desperta ciúmes no Partido dos Trabalhadores

 

Ana Maria Campos/Correio Braziliense

O novo secretário, que comandou a pasta no governo Cristovam Buarque, quer  
O novo secretário, que comandou a pasta no governo Cristovam Buarque, quer “diálogo com as cidades do DF”

Os primeiros dias do novo governo indicaram que o vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB) não será um mero número dois do Palácio do Buriti. Com dupla personalidade política — integrante do Executivo e presidente regional do PMDB-DF — ele ganhou uma força que começa a incomodar petistas. Filippelli é o chefe da área com grande potencial de visibilidade, as obras, e lidera uma das principais frentes de ação da nova gestão, a operação de limpeza, corte de grama e recuperação de vias, aposta de marketing na largada da administração de Agnelo Queiroz (PT).

No fim de semana, o vice foi escalado a fim de tentar pacificar a base de apoio na Câmara Legislativa, que levou mais de oito horas para eleger a Mesa Diretora no primeiro dia do ano. Uma das missões do peemedebista foi acalmar Rôney Nemer (PMDB), que havia se aliado à deputada Eliana Pedrosa (DEM) contra um acordo fechado em torno da eleição de Patrício (PT) na Presidência. O vice-governador disse que estava ali como presidente do PMDB. No governo Agnelo, ele vai atuar nos bastidores como uma espécie de para-raios, ou seja, vai tentar debelar focos de crise na base. Filippelli ficou com essa missão graças ao trânsito que mantém com distritais de partidos que, no passado, apoiaram os governos Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, como PTB, PRTB e PSDB. Será dele o papel de comandar a relação direta com os interesses dos distritais. Leiam-se cargos, liberação de emendas e espaço político.

Nemer, por exemplo, não escolheu o administrador do Recanto das Emas, sua base eleitoral. Mas não saiu perdendo. Tem o compromisso do governo de participar da escolha de obras e de eventos culturais na cidade que administrou durante o governo Roriz. Filippelli é o avalista desse acordo, assim como os que mantêm Benício Tavares (PMDB), por exemplo. Nessa seara, Filippelli não age sozinho. O secretário de Governo, Paulo Tadeu, também vai atuar na coordenação política na Câmara Legislativa. Ele tem como trunfo a experiência nos acordos de bastidores com os distritais que adquiriu ao longo de três mandatos na Câmara Legislativa.

Infraestrutura
Toda a área de infraestrutura do governo ficará sob a gestão do vice, que escolheu duas pessoas próximas para as secretarias de Transportes e de Obras, José Walter Vasquez e Luiz Carlos Pitiman, respectivamente. Ele deverá indicar ainda o presidente da Companhia de Saneamento de Brasília (Caesb), da Companhia da Nova Capital (Novacap) e o diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem, que comandam orçamentos generosos para as obras de saneamento, infraestrutura urbana e recuperação de rodovias.

Antes mesmo de tomar posse, Filippelli fez uma reunião com Pitiman para organizar o mutirão de limpeza no Distrito Federal. A orientação foi a prioridade em resolver esses problemas, que têm provocado indignação, na porta de casa dos eleitores. Age com a experiência de quem foi o braço direito de Roriz. O ex-governador, em seu primeiro mandato, em 1988, também herdou uma situação crítica de limpeza e organização do Distrito Federal ao substituir José Aparecido de Oliveira no Governo do Distrito Federal. Na época, deu origem ao que chamou de Operação Primavera. Começava ali a tradição das flores nos canteiros e nos balões das vias, principalmente no Plano Piloto. Conquistou, assim, popularidade com pequenas melhorias.

O problema, segundo petistas, é que tanto espaço para Filippelli pode se voltar contra o poder de Agnelo. Aliados do novo governo afirmam que eles têm atuado em sintonia. Um aposta no sucesso do outro como estratégia de sobrevivência política depois de uma crise institucional que derrubou o governo Arruda. Convictos de que a cobrança da população será grande, Agnelo e Filippelli têm o mesmo objetivo por enquanto. A parceria, no entanto, pode ruir à medida que se aproximarem as próximas eleições.

Indicação
No auge das discussões sobre a composição da Mesa Diretora da Câmara Legislativa, distritais diziam que Eliana Pedrosa (DEM), apesar de estar no comando dos parlamentares que tentavam atrapalhar o acordo para a eleição de Patrício (PT) na Presidência, tinha sido atendida pelo governador Agnelo Queiroz. De acordo com distritais, Eliana é responsável pela indicação do administrador regional do Núcleo Bandeirante, Bruno Bierrenbach Bonetti.

Joaquim Roriz
Joaquim Roriz estreou no Governo do Distrito Federal em 19 de setembro de 1988, nomeado pelo então presidente, José Sarney. À época, ainda não havia autonomia política e Roriz se elegeu governador pela primeira vez em 1990, para um mandato de quatro anos, ao qual tomou posse em 15 de março de 1991.

[FOTO2]Hamilton assume a Cultura
» Felipe Moraes
Na tarde de ontem, em cerimônia realizada na Sala Martins Pena do Teatro Nacional Cláudio Santoro, Hamilton Pereira da Silva tomou posse do cargo de secretário de Cultura da gestão Agnelo Queiroz. Também conhecido como Pedro Tierra, seu pseudônimo de poeta, ele comandou a mesma pasta de 1997 a 1998, durante o governo de Cristovam Buarque. Foi ela quem criou o projeto Temporadas Populares, programação de espetáculos que contemplava todas as cidades do DF com ingressos a preços acessíveis. Hamilton entra na vaga até então ocupada por Carlos Alberto de Oliveira, que assumiu o posto em outubro, após a saída de José Silvestre Gorgulho. Segundo Oliveira, a transferência foi “a mais democrática que vi em 20 anos de participação no governo”. “O lugar dele (Hamilton) é aqui. Hoje é o dia do Hamilton”, completou. Após um demorado abraço, o novo secretário foi aplaudido de pé pelos presentes que lotaram a Martins Pena. Depois de assinar o termo de posse, ele apresentou as suas propostas para a revitalização das políticas culturais da capital.

O secretário empossado iniciou o seu discurso fazendo menção a Teodoro Freire, maranhense de São Luís que mantém viva a tradição folclórica do bumba meu boi em Sobradinho. Após agradecimentos a companheiros políticos e culturais, o poeta recitou o poema A máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade, antes de explicar as principais estratégias e propostas de sua gestão. Ele garantiu recuperar a verdadeira vocação da secretaria, que, segundo ele, foi esquecida nos dois últimos governos distritais. “Brasília foi humilhada pelo colapso das instituições com a corrupção generalizada. O papel do Estado se resumiu a alugar os espaços para entretenimento. E a cultura está longe de ser somente isso”, declarou. O secretário deixou clara a preocupação com o fomento da cultura nas regiões administrativas. “Não podemos iniciar sem um diálogo com as cidades do DF”, disse.

Hamilton prometeu estabelecer uma conversa democrática com partidos da base aliada de Agnelo, artistas, adversários, organizações não governamentais e representações estrangeiras. “Nós temos que recuperar uma dimensão de políticas públicas que represente a nossa estatura de capital”, disse. O novo administrador da Cultura do DF também quer fazer de Brasília a cidade “do debate de valores”. ‘Quero propor a recriação do hábito da reflexão sobre o que fazemos. O Brasil faz muito, mas reflete pouco sobre o que faz. Valores do cuidado, da solidariedade, da sustentabilidade. A eleição da Dilma e a acolhida do povo em 1º de janeiro expressam o desejo de aprofundar o processo lançado pelo presidente Lula, operário, estadista e o mais cabal produto brasileiro em cinco séculos de história.”

Hamilton Pereira finalizou o discurso citando um trecho do livro Grande Sertão Veredas, ficção de Guimarães Rosa: “Sol procura é a ponta dos aços. Bem-vindos à tempestade”. E a cerimônia, que contou com a declamação de poesia e apresentações musicais, terminou em festa. O grupo de cultura popular de Teodoro Freire apresentou a lenda do bumba meu boi enquanto Hamilton recebia os cumprimentos dos presentes.

OS ARTISTAS FALAM
Andrade Júnior,
ator
“É um perigo eu falar. Mas ainda estou um pouco lúcido. Esse que estava, não conhecia, mas todo mundo estava falando bem. Acho que política não combina com cultura. Educação, sim, combina. A fala do novo foi maravilhosa.”

Welder Rodrigues,
ator da companhia de teatro Os melhores do mundo
“A gestão anterior foi nula. Não tem o que comentar. Sou um pouco velho, 40 anos, e me lembro da gestão do Hamilton. Foi ótima. Agora, com mais conhecimento, mais contatos, espero que seja o dobro. Fazer temporadas nas cidades é um inferno. Não tem espaço. O essencial é descentralizar. Tenho esperança.”

Teodoro Freire,
mestre de bumba meu boi
”Ele agora vai só dirigir esse trabalho que ele já fez: um grande trabalho. Vai dar andamento das coisas que começou e ver se faz algo melhor, que tenha mais valorização pro povo. O povo é ingrato. O povo tarda pra ver coisa nossa pra ir ver coisa estrangeira. Esse boi, por exemplo, começou em 1952, em Sobradinho. Os jovens não queriam nos ver. Preferiam o rock de fora à cultura brasileira.”

Experiência
» Nascido no ano de 1948 em Porto Nacional, ex-município de Goiás, hoje Tocantins, Hamilton entrou jovem na política e frequentou o colégio até o ensino médio. “Entrei cedo na vida pública. A polícia chegou antes do vestibular”, disse na solenidade de ontem. Durante o regime militar, ele ficou preso de 1972 a 1977. Aos 28 anos, deixou o cárcere para participar ativamente de movimentos rurais em vários estados. Em 1983, foi nomeado secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Goiás. Dez anos depois, ficou responsável por assuntos de política agrária na Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT). Em 1996, um ano antes de chegar à Secretaria de Cultura do DF, integrou a diretoria da Fundação Perseu Abramo. Em junho de 2007, foi convidado pela então ministra Marina Silva para atuar como secretário de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

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