GDF quer acabar com o Teatro Goldoni/Casa D’Itália

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    O Governo do Distrito Federal (GDF) quer acabar com a trajetória de um dos teatros mais tradicionais e ativos de Brasília: o Goldoni, instalado na Casa D’Itália, na EQS 208/209, Eixo L, defronte à estação do metrô na 108 Sul. Ignorando os benefícios que a atividade teatral propicia à comunidade, o GDF colocou à venda, na calada da noite, o terreno da Casa d’Italia, que, como centro cultural em atividade há 20 anos, não pode fazer caixa para quitar quantia incompatível com a arrecadação. Assim, o GDF tenta matar, com uma canetada, o esforço coletivo feito durante tantos anos para manter um espaço cultural acessível aos grupos locais.

    O GDF ignorou o pedido de prorrogação da concessão de uso, mostrando-se insensível à Cultura. Mais do que isso, está tentando mudar a destinação do terreno: na Norma de Construção, Uso e Gabarito do terreno onde se localiza o NGB 018/1997 da área construída é obrigatório que 40% sejam ocupados por atividades culturais; na licitação, descreve como proibida a ocupação por atividade cultural.

    “Por isso, viemos pedir a todos que ajudem a preservar o Teatro Goldoni das investidas de faturamento do GDF em cima de atividades tão pouco favorecidas economicamente, mas que são de grande importância para a formação de cidadania”, afirma o diretor do Núcleo de Arte e Cultura (NAC), Marbo Giannaccini.

    Ajude a salvar o Teatro Goldoni
     – A classe artística de Brasília tem encontro marcado, quarta-feira 24, às 14 horas, para dar um abraço em apoio à Casa d’Italia, para mostrar ao governo que o espaço para a cultura tem é que ser ampliado. “Não aceitamos a amputação de mais um teatro da cidade”, ressalta a cenógrafa e figurinista Maria Carmen de Souza. “Basta de transações por baixo dos panos!”

    Levantamento dá conta de que existem muitos teatros inativos por falta de manutenção e outros a serem construídos nas regiões administrativas, abandonados pelo poder público. “Enquanto isso, nossas crianças crescem sem o acesso aos bens culturais a que têm direito”, enfatiza Maria Carmen.

    Existem em Brasília duas instituições de terceiro grau que colocam na cidade cerca de 30 atores por ano: a Universidade de Brasília (UnB) e a Faculdade Dulcina de Moraes. E outras escolas estão sendo criadas. “A prática, ao sair das escolas, condição para que esses atores desenvolvam suas potencialidades, se torna rara e insipiente, porque a cidade não tem mercado para absorvê-los, pois não existe estratégia de divulgação para o teatro brasiliense e é insuficiente o estímulo para que o público seja frequentador assíduo dos teatros. Tampouco os incentivos econômicos são suficientes para que esses jovens formem seus próprios grupos e se tornem empreendedores culturais”, observa Maria Carmen.

    O Teatro Goldoni
     – Trata-se de um pequeno teatro experimental com cerca de 100 lugares, feito com critérios da mobilidade cênica e rigor técnico, que permite a organização e a troca da relação palco/plateia de maneira rápida e econômica. Foi construído nesse formato para reduzir custos de apresentação dos espetáculos e tornar viáveis as montagens teatrais dos grupos recém saídos das escolas. Foi criado em 1998 para provocar o encorajamento de formação de grupos locais que pudessem contar com a apresentação de espetáculos durante temporada mais longa do que as habitualmente apresentadas, fator de relevância na formação e treinamento do ator.

    Em relação ao público, o teatro procurou atender a uma demanda reprimida de “teatro de bairro”, pois apenas estavam funcionando satisfatoriamente, nessa ocasião, as duas salas do Teatro Nacional Claudio Santoro, de proporções gigantescas para o abrigo de grupo de teatro recém formados. Assim, o Goldoni mobilizou atores, público e empresários. A proposta foi bastante desafiadora, teve boa repercussão, apoio da mídia, e a grande procura por esse tipo de sala sugeriu que fosse criada uma segunda sala – a Sala Adolfo Celi, anexa ao Goldoni, ação facilitada pelo programa de doação de equipamentos de iluminação da Funarte.

    “Hoje, há muitas outras salas de pequeno porte na cidade. Mas ainda assim o novo público precisa ser atraído e formado para garantir todas as fases da cadeia produtiva”, diz Maria Carmen.

    Com o aumento do número de espetáculos produzidos na região uma nova necessidade se fez presente: a formação de técnicos para dar suporte aos espetáculos; assim, foi criado o Estúdio de Tecnologia Cênica (Estec), um programa de formação de técnicos de cena, priorizando a qualificação de jovens oriundos do ensino médio sem formação profissional e em situação de risco social. Todos os cursos do Estec são gratuitos.

    O teatro investiu também na criação do espaço, na operação dos espetáculos e nas facilidades e redução de custos da encenação. Foi contemplado pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura.

    Contudo, os produtores locais encontram dificuldades para captar recursos necessários às montagens, recorrendo quase sempre ao Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do GDF, “pois não temos ainda na cidade leis de incentivos locais nem patrocinadores em número proporcional aos habitantes e, portanto, os grupos que estavam minimamente estruturados migraram para os grandes centros de produção cultural atrás da sobrevivência como grupo”, analisa Maria Carmen.

    Para aproveitar a excelente localização servida pelo metrô e várias linhas de ônibus, o Teatro Goldoni iniciou uma terceira fase, para que não se rompa nenhum elo dessa cadeia criativa e produtiva: cuidar da prática de jovens atores ainda em formação de todas as regiões administrativas e facilitar o acesso ao repertório de peças e autores teatrais a um público não habituado ao teatro. Atualmente, o Goldoni apresenta o Ciclo de Leituras Dramáticas Audacioso Nelson, de peças de Nelson Rodrigues, todas as terças-feiras, desde setembro até este mês, com entradas gratuitas.

    Em 2007 o jornal Correio Braziliense consultou seus leitores para saber qual era na época o melhor espaço cênico de Brasília. A escolha recaiu no Teatro Goldoni. Motivo explicado pelos leitores: o calor humano dos técnicos e atendentes, a surpresa de sempre encontrar um novo espetáculo com nova disposição palco/plateia, como se fosse um novo teatro.

    Ciclo de Leituras Dramáticas/Exagerei no Rímel – O NAC vem cumprindo agenda especial em homenagem a Nelson Rodrigues, no ano do centenário do seu nascimento. Desde 11 de setembro, realiza o Ciclo de Leituras Dramáticas Audacioso Nelson, com sete peças do grande dramaturgo brasileiro. O ciclo se completa na próxima terças-feira, 23 de outubro, às 19h30. Também em homenagem a Nelson Rodrigues, o NAC apresenta a peça Exagerei no Rímel, de Zeno Wilde e dirigida por Adalto Serra, no Teatro Goldoni, na Casa d’Italia, de 8 a 25 de novembro.

    Exagerei no Rímel ficará em cartaz durante todo o mês de novembro, de quinta-feira a sábado, às 21 horas; e domingos, às 20 horas, com entrada franca. A estreia, dia 8, será somente para convidados. Durante a temporada, serão distribuídas senhas na bilheteria do Teatro Goldoni, que dispõe de apenas 100 lugares, duas horas antes do espetáculo começar.

    “Exagerei no Rímel é uma tragicomédia, de humor mordaz”, define o produtor do espetáculo, Luiz Antônio. A peça é dividida em três episódios com intervalos musicais e interpretada por dois atores, Ricardo Cesar e Cassius Desconsi, nos papeis de seis adolescentes. Na primeira cena, Na Mais Tenra Idade, Lúcia e Alaíde, nome das duas irmãs de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, conversam durante um velório, caixões lado a lado, mortas que foram por brigadeiros envenenados, vingança pelo modo como as moças espezinhavam a prima, tratada com animosidade por “redonda”.

    Em Por Força do Hábito, as irmãs dividem a mesa de refeição em um convento. Entre o pão e o perdão, uma delas revela como põe fim aos coroinhas. E em A Cauda Santa, as irmãs velam o corpo da mãe, que cometeu suicídio. Falam de culpas, menstruação, beijos durante o banho e flagradas pela mãe, e de aberração pela cauda, que uma delas carrega de nascença.

    Conhecido por abordar temas ligados à marginalidade, o dramaturgo Zeno Wilde (1947-1998) é comparado por críticos a Nelson Rodrigues, “porém carregando mais no humor e tratando os temas com sutilidade”, observa Luiz Antônio. Para não deixar dúvidas quanto à inspiração, Zeno Wilde batiza suas personagens com nomes criados por Nelson Rodrigues.

    O diretor Adalto Serra propôs para a montagem uma abordagem sutil do absurdo das situações nas quais o autor da peça, Zeno Wide, brinca com o tema da morte e a atração pelo proibido, ambientado num cenário inusitado, daí que o Teatro Goldoni foi transformado “num aconchegante cabaré” pela cenógrafa e figurinista Maria Carmen, que incorporou mesas à plateia, e até vinho será servido, como num bar, e, naturalmente, pago. Para completar o clima, o pianista Lucian Lorens e a atriz e cantora Sandra Regina, com preparação vocal de Mara Neubarth, se encarregam do fundo musical, com referência romântico-brega, além da iluminação de Dalton Camargos, que completa a sensação de intimidade.

    Sobre o Núcleo de Arte e Cultura (NAC)
     – Trata-se de uma associação civil sem fins lucrativos, de utilidade pública, voltada para o desenvolvimento e a difusão da cultura brasileira em geral e das artes cênicas em  especial. Fundado em 1992, dedica-se a projetos de teatro, dança e artes visuais, promovendo espetáculos, exposições, mostras institucionais, seminários, debates, publicações e intercâmbios. O núcleo é sediado em Brasília, iniciou suas atividades criando um pequeno teatro/galeria, na W3 Sul, o Espaço G 51, nome que correspondia ao seu endereço, na Quadra 705, e finalmente se instalou na Casa d´Italia, onde criou o Teatro Goldoni, equipado com aparelhos de iluminação, som, cenotécnica modulada e bilheteria informatizada; a Sala Adolfo Celi, para espetáculos experimentais, oficinas e ensaios; a Galeria Lina Bo Bardi; o Cineclube Gianni Amico; e um amplo espaço para coquetéis e recepções. Ao todo, o NAC já produziu mais de 20 espetáculos de teatro.

     

    Fonte: Blog do Honorato

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