GIM USOU NOTAS DE FIRMAS QUE NÃO FUNCIONAM ONDE ESTÃO REGISTRADAS

0
12

Do Correio Braziliense: Gim usou notas de firmas que não funcionam onde estão registradas

 

Alana Rizzo

O senador Gim Argello (PTB-DF), suspeito de desviar recursos do Orçamento da União para institutos fantasmas, usou notas de empresas que não funcionam nos locais registrados e de proprietários que não confirmam ter prestado os serviços para o parlamentar para justificar gastos com a verba de gabinete. Grande parte dos recursos — de caráter indenizatório — foram pagos a prestadores de serviço ligados a área de eventos e marketing. Este ano, Gim só apresentou documentos referentes aos valores gastos até maio. Foram R$ 45 mil. No ano passado, R$ 149.360. As notas têm quantias semelhantes — R$ 6 mil e R$ 7 mil —, apesar de as empresas e os serviços serem diferentes.

José Cruz/Agência Senado
O senador Gim Argello, por meio de sua assessoria, negou quaisquer irregularidades
Cada senador tem direito a R$ 15 mil por mês para despesas com o mandato, incluindo divulgação de atividade parlamentar, contratação de consultoria, locomoção e hospedagem. O valor é cumulativo e, caso não seja usado integralmente, pode ser aproveitado no mês seguinte. O parlamentar renunciou ontem ao cargo de relator-geral do Orçamento de 2011 para “não atrapalhar” a aprovação da peça orçamentária do próximo ano, depois das denúncias (leia mais na página 4).

A Cinco Soluções, registrada em nome de Jeová Alves de Sousa Junior, recebeu R$ 6 mil em abril. A empresa fica num apartamento residencial no Gama Leste. O Correio visitou o local. Ninguém estava em casa. Segundo vizinhos, a moradora é uma senhora que “fica pouco em casa” e “está sempre sozinha”. A Cinco também foi usada para o pagamento de funcionários da pré-campanha da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), pela Lanza Comunicações, do jornalista e consultor Luiz Lanzetta.

A reportagem não localizou Jeová. O capital da empresa é de R$ 5 mil. Segundo registro da Junta Comercial do Distrito Federal, a Cinco faz “elaboração e desenvolvimento de projetos, eventos culturais, montagem de eventos, gravação de CD, produção fotográfica, revisão e tradução de texto”.

Em fevereiro e março, Gim pagou R$ 7 mil à VB Assessoria de Comunicação. Cada parcela no valor de R$ 3,5 mil. A empresa está registrada em um endereço no Bairro Arapoangas, em Planaltina. Na porta da casa, uma placa sugere “aulas de reforço em matemática”. Não há sinal de empresa do ramo de comunicação, assessoria e jornalismo. “Há muito tempo, uma pessoa me pediu, em nome de Valdir, para usar esse endereço. Não disse o que era. Na inocência, deixei. Nunca recebi nada. Só chega correspondência”, afirma Robson, morador do local há mais de uma década. Ele e a mulher afirmam desconhecer Valdir Borges dos Santos, proprietário da empresa. “Só sei que ele é do Plano (Piloto) e é uma pessoa influente.” A VB Assessoria foi fundada em 1992 com capital de R$ 15 mil. Valdir é dono de R$ 14.925 e a irmã dele, Shirlei Borges, dos outros R$ 75. Os dois não foram localizados.

Os recursos de gabinete podem ser usados para a contratação de consultorias, assessorias, pesquisas, trabalhos técnicos de apoio ao exercício do mandato parlamentar. Nessa rubrica, Gim Argello privilegiou um grupo de empresários. Aline de Oliveira Cardoso, Jefferson Augusto Mesquita e Hernane Oliveira Pinto têm empresas diferentes, com nomes variados. Todas no mesmo endereço, no Sudoeste. Ao todo, o grupo recebeu R$ 42 mil. As notas mantêm o valor padrão de R$ 6 mil.

Recuo
Procurado pelo Correio na segunda-feira, Jefferson, num primeiro instante, negou que tenha feito trabalhos para o senador. Depois de informado da existência das notas, confirmou a participação em projetos publicitários “há muito tempo”. A reportagem solicitou que ele apresentasse valores e notas. O empresário ficou de retornar as ligações, mas, até o fechamento desta edição, não houve resposta. Este ano, a Publish recebeu R$ 6 mil em fevereiro, março e maio. No ano passado, o mesmo valor foi pago durante quatro meses para as empresas do grupo.

O Senado também indeniza gastos com locomoção e combustível. Em 2009, Gim deu preferência para o Auto Posto Sorriso, em Águas Claras. O proprietário é Bruno Teixeira Albuquerque, condenado pelo Tribunal de Justiça do DF (TJDF) por grilagem de terras. O empresário foi acusado de liderar um esquema que usava uma cadeia de contratos de cessão de direito à posse de lotes para dar, segundo a Procuradoria-Geral do DF, uma aparência de legitimidade ao parcelamento.

As notas do posto também foram emitidas no valor de R$ 6 mil. “Nunca vi o senador aqui, mas pode acontecer de um assessor pedir nota num determinado valor e nós fazemos”, afirma Bruno, alegando que não tem registro dos valores emitidos.

A assessoria de imprensa do senador nega qualquer irregularidade e informou que desde maio não usa a verba indenizatória. Segundo o gabinete de Argello, a VB foi contratada para criar programas de televisão na web. Em seguida, esse mesmo projeto foi repassado para a Cinco Soluções.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui