LULA ATACA IMPRENSA E OPOSIÇÃO AO VER GOVERNO ENVOLVIDO EM DENÚNCIAS

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ELEIÇÕES 2010
Por que tanta raiva?

Popular e padrinho da candidata favorita, Lula ataca imprensa e oposição ao ver governo envolvido em denúncias

Carolina Benevides – O Globo

A pouco mais de três meses de passar a faixa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria, pelo menos, dois grandes motivos para comemorar: altíssima popularidade e o favoritismo de sua candidata, Dilma Rousseff (PT), que tem chance de vencer no primeiro turno graças a isso, o que nem ele conseguiu.

Mesmo assim, Lula tem adotado um discurso raivoso nos palanques, com ataques à oposição e à imprensa diante das denúncias de tráfico de influência e corrupção no governo.

Cientista político e professor da USP, José Álvaro Moisés diz que o comportamento de Lula “é estranho”: — Por que o presidente está raivoso, mesmo tendo tanto sucesso? Acredito que Lula não está familiarizado com a crítica e a contestação que existem numa democracia, que fazem parte de um mundo plural. Lula se diz ao lado da democracia, mas não consegue conviver com esses aspectos.

Para Moisés, o comportamento do presidente também reflete o “receio de que o que a imprensa tem revelado possa afetar o resultado eleitoral”.

— No caso da Erenice (Guerra, exministra da Casa Civil), Lula a desqualificou dizendo que ela jogou fora a chance de ser uma grande funcionária pública. Mas o que houve no governo para permitir que ela perdesse essa chance? E a responsabilidade de Lula? Em diversos comícios recentemente, Lula atacou a imprensa — “Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública”— e o DEM — “precisamos extirpar da política brasileira”—, e disse ainda que “os veículos de comunicação têm que ter controle”.

Na sexta-feira, diante da queda da vantagem de Dilma sobre seus adversários nas pesquisas, o presidente já moderou o tom, dizendo que “a imprensa é muito importante para a democracia”.

De acordo com Marly Silva da Motta, historiadora e pesquisadora do CPDoc da Fundação Getulio Vargas (FGV), é raro um governante chegar ao fim de dois mandatos sendo tão popular. Ao conseguir esse feito, segundo ela, Lula pode ter começado a achar que pode falar e também fazer qualquer coisa: — Por conta da alta popularidade, acredito que ache que é hora de acertar as contas com algumas correntes políticas e com a imprensa, que historicamente sempre deu espaço a ele. Se a disputa eleitoral estivesse acirrada, não sei se o presidente ia atirar para todos os lados. O que vejo é Lula fazendo acerto de contas, elegendo até políticos para derrotar como os senadores Agripino Maia (DEM) e Arthur Virgílio (PSDB).

Segundo Marly, ao ter como certa a vitória de Dilma na eleição, Lula perdeu o equilíbrio: — Com a margem que Dilma tem, Lula passou a ficar pouco atento ao seu comportamento. Claro que pode desejar que o DEM desapareça, mas não é bom politicamente falar isso num palanque.

Para o cientista político Murillo de Aragão, o destempero de Lula é resultado do processo eleitoral.

— Lula deve se achar injustiçado, e provavelmente acredita que a imprensa destaca aspectos negativos para tentar levar a eleição para o segundo turno. No episódio da ministra Erenice, ele teve uma reação que servia ao interesse eleitoral da acusação. Bastava ter dito que o caso era sério e que ia investigar.

Sobre a declaração de que o DEM precisa ser extirpado, Aragão diz que Lula, “mesmo agindo como cabo eleitoral, deveria ter pensando antes de falar”: — Devia ter ponderado, especialmente porque já sabia que às vésperas da eleição não poderia se retratar.

Cientista político, Fábio Wanderley Reis diz que o destempero de Lula faz parte do processo eleitoral: — Há certo exagero, mas, na reta final da campanha, é complicado separar a função de chefe de Estado da de líder partidário que quer eleger sua candidata.

Melhor seria que o tom fosse outro.

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