Marina Silva adia decisão sobre futuro político para amanhã

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RANIER BRAGON E MÁRCIO FALCÃO, Folha

Um dia depois de ver a sua Rede Sustentabilidade ser barrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e após duas longas reuniões a portas fechadas com aliados e apoiadores, a ex-senadora Marina Silva disse na tarde desta sexta-feira (4) que ainda não definiu se vai se filiar a um partido político para disputar as eleições de 2014. Marina disse que está refletindo sobre seu futuro.

“É que ainda estou num processo de decisão. Exatamente porque é sério que ainda tenho uma longa noite e um dia”, disse. Para se candidatar no ano que vem, Marina tem até sábado para se filiar um partido.

Ao lado de dirigentes da Rede e com tom de candidata, Marina não revelou com quais partidos negocia sua filiação. Ela afirmou que, se decidir continuar na corrida eleitoral, será por uma aliança programática. A ex-senadora recebeu convite de oito legendas, entre elas PPS, PTB, PDT.

Questionada sobre o que pode influenciar na sua escolha, Marina disse apenas que está pensando no que é melhor para o país. Sem citar o nominalmente PSDB e PT, ela disse ainda que outro motivo seria a chance de derrotar a tradicional polarização nas urnas.

“Vai pesar na minha decisão a disposição dos que estão preocupados com a ideia de que a gente tem que quebrar a polarização ‘oposição por oposição’, ‘situação por situação’. Devemos pensar no país. [É preciso] configurar uma agenda de investimentos estratégicos, em infraestrutura, saúde, educação. Estas são as questões que estão pesando aqui no processo decisório”, completou.

Ela disse, no entanto, que não acreditar ser a única a acabar com essa polarização. A ex-senadora, apesar de defender uma nova política e rechaçar a linha dos atuais partidos, não há contradição em uma eventual aliança.

“As pessoas são todas muito respeitosas e estão respeitando muito esse meu momento. Não tem nenhuma abordagem agressiva e os que tem abordagem de aproximação estão fazendo de forma respeitosa e reconhecendo que somos um partido . Não estão conversando com uma pessoa, mas com uma força política”, disse.

Ela disse, no entanto, que não acreditar ser a única a acabar com essa polarização. Marina voltou a responsabilizar os cartórios pela rejeição do registro da Rede, sustentando que houve uma ação deliberadamente contra a criação da sigla. Ela destacou que foram apresentadas mais do que as 492 mil exigidas por lei.

“Lamentavelmente, uma ação dos cartórios, você pode investigar, onde 53% das 910 mil fichas que coletamos e que foram enviadas para os cartórios tiveram atrasos entre suas validações, houve decisão na planície de cassar o direito da rede de ser um partido”.

A ex-senadora reforçou que a discussão é programática. “Não é um projeto de poder pelo poder, é uma visão de mundo. É isso que a Rede Sustentabilidade quer fazer. Sabemos que a verdade não está com nenhum de nós, está entre nós”, declarou

Editoria de Arte/Folhapress

CONVITES

Um dia após a Justiça Eleitoral barrar a criação da Rede Sustentabilidade, o presidente nacional do PPS, deputado federal Roberto Freire (PPS), utilizou o Twitter nesta sexta-feira (4) para convidar a ex-senadora Marina Silva para se filiar ao partido e disputar a presidência da República em 2014.

“Solidário reafirmo convite do @pps23 para que junto com a Rede se integre conosco para ser candidata e disputar 2014!”, escreveu Freire em seu microblog.

deputado estadual Campos Machado, secretário-geral do PTB, também ofereceu nesta sexta-feira (4) espaço para que a ex-senadora se filie à sigla e dispute a Presidência pelo partido nas eleições do ano que vem.

“Ela é a Getúlio Vargas de saia. O programa do PTB –com a questão das leis trabalhistas, nacionalismo, Petrobras– está em total conformidade com o que ela vem pregando”, diz.

Para formar a Rede, Marina tem adotado o discurso de renovação da política e de crítica a estruturas partidárias existentes. A busca por fontes de energia alternativas ao petróleo também faz parte do programa da Rede.

Apesar disso, ele diz não ver incoerência. “Novo mesmo, só se ela formasse o partido, mas o PTB é a opção para ela continuar a pregação dela dentro da sua linha programática.”

Campos disse ter contatado aliados da ex-senadora e afirma aguardar resposta. “Estamos querendo deixar uma outra opção para ela, mas sem constrangê-la.”

ELEIÇÕES 2014

De acordo com a última pesquisa do Datafolha, que é do início de agosto, Marina tinha 26% das intenções de voto para a presidência, melhor pontuação de um candidato de oposição a Dilma Rousseff, que somava 35%.

Eventual saída da ex-senadora da corrida presidencial tende a aumentar as chances de reeleição de Dilma Rousseff em 1º turno (isso ocorre quando o candidato alcança mais da metade dos votos válidos).

Após se reunir com o senador Aécio Neves na última segunda-feira (30), o ex-governador José Serra, segundo colocado na disputa ao Planalto em 2010, anunciou a desistência de sair do PSDBpara concorrer à Presidência por outro partido.

Sem Serra e Marina, os principais adversários hoje de Dilma são o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Somados, Aécio (13%) e Campos (8%) não reúnem atualmente força suficiente, segundo o Datafolha, para levar a eleição para um segundo turno.

A criação da Rede contou também com o apoio de alguns congressistas que pretendiam se filiar à sigla. O deputado Walter Feldman (SP) se desfiliou na quarta (2) do PSDB e afirma que não será candidato em 2014. Alfredo Sirkis (PV-RJ) teme que o PV não lhe dê a legenda para disputar a reeleição para a Câmara. Domingos Dutra (PT-MA) deve ir para o Solidariedade ou para o PSB.

A insuficiência na comprovação do apoio popular faz com que a Rede seja o único a fracassar entre os três que pleiteavam registro recentemente. Tendo começado a coleta de apoio bem antes do que a Rede, o Pros (Partido Republicano da Ordem Social) e o Solidariedade, do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, tiveram seus pedidos aprovados na semana passada pelo TSE apesar de haver suspeita de fraudes nas assinaturas entregues ao tribunal.

As duas legendas movimentaram o “mercado” de troca-troca de políticos entre as legendas, que deve atingir cerca de 60 mudanças só na Câmara dos Deputados até sábado.

VOTAÇÃO NO TSE

O Tribunal Superior Eleitoral negou o registro da Rede Sustentabilidade por 6 votos a 1, após concluir que seus organizadores não alcançaram o respaldo popular exigido pela legislação, de pelo menos 492 mil eleitores –faltaram quase 50 mil assinaturas.

“Não temos o registro, mas temos a ética”, disse Marina a aliados que a abraçaram após o fim da sessão, que ela acompanhou no plenário do TSE.

A ex-senadora chegou ao TSE de braços dados com a socióloga Maria Alice Setubal, uma das herdeiras do banco Itaú, e ao lado de articuladores da Rede e de seis congressistas que pretendiam se filiar à nova legenda.

As esperanças da Rede começaram a ruir logo no início da sessão, com o voto da relatora do processo, Laurita Vaz, que considerou “inconcebível no ordenamento jurídico” o pedido da Rede para que o TSE aceitasse quase 100 mil assinaturas rejeitadas sem justificativa pelos cartórios eleitorais nos Estados.

Editoria de Arte/Folhapress

Os argumentos da Rede contra os cartórios foram rebatidos por vários ministros. “Ou nos submetemos à lei ou teremos o caos. Voto lamentando, mas não tenho como juíza, outra opção que não seja seguir a lei”, disse a presidente do TSE, Cármen Lúcia.

Também votaram contra a Rede os ministros Marco Aurélio Mello, Henrique Neves e João Otávio Noronha. Único a apoiar o pedido do partido, o ministro Gilmar Mendes acusou os cartórios de abuso e disse ter havido uma orquestração contra Marina.

Mendes lembrou projeto do Congresso, defendido nos bastidores pelo Planalto e pelo PT, que visava sufocar a criação de novos partidos. “É a lei mais casuística que se fez nesses últimos anos, é de se corar frade de pedra”, disse o ministro, que chegou a suspender a sua tramitação.

“Não vamos dizer agora: Ah, senadora Marina, não deixe de trabalhar, porque como sempre há Carnaval, há eleição’”, acrescentou, ironizando a atitude de outros ministros que sugeriram a Marina que continue buscando as assinaturas que faltaram para organizar sua legenda.

O julgamento de ontem ocorreu exatos três anos depois da eleição presidencial de 2010, quando Marina teve 19,6 milhões de votos e saiu das urnas como a terceira maior força política nacional.

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