Moça de azul

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    Vestindo elegante robe de chambre vinho sobre pijama de flanela amarela, estampada com bolinhas vermelhas, o velhote tinha o olhar fixo na fechadura. Imaginava que, pela força do pensamento, faria girar aquela maçaneta redonda. O desgaste da peça era o testemunho do contato com mãos de gerações que a morte, as vaidades do mundo ou o regalo da vida tinham feito desaparecer.
    O velho seguia repetindo mentalmente o comando “gira, maçaneta!” como se recitasse um rosário de preces. Os olhos ardiam, lacrimejavam, mas não se desviavam do alvo. “Gira, gira…”, insistia o homem que, ora sim, ora não, podia jurar que a maçaneta se movera. Até que um ruído semelhante ao estalar de folha seca denunciou a presença de algo que entrara por baixo da porta.
    Era um envelope. Dentro havia um bilhete que o velhote leu e em seguida, apesar da idade, saiu em disparada. Os chinelos de bico fino (que dizia especiais para matar barata no canto) em nada dificultavam seu quase olímpico desempenho. Nem os chinelos, nem o robe de chambre – brinde que recebera da Casa da Elegância por ter sido o primeiro freguês do estabelecimento quando de sua inauguração, em 1933.
    Surpreendente! Era, no mínimo, o que se dizia sobre a agilidade daquele ancião que derrubava gente, saltava muros, muretas, automóveis… Perseguido por pequena multidão, acabou nas mãos de dois seguranças no terminal rodoviário da cidade. Curiosos por saber a verdadeira identidade daquele personagem incomum, todos tentavam obter respostas torturando-o com perguntas. Até que, diante de movimento rápido do detido, um dos seguranças meteu a mão no coldre. E ao invés de segurar o cabo da arma, encontrou em seu lugar um guarda-chuva colorido.
    Atônito, o segurança abria e fechava o guarda-chuva, enquanto seu parceiro acomodava o velhote em um carro de polícia cujos pneus estouraram, provocando a revoada de um bando de pombos. Imobilizados diante de tantas surpresas, os seguranças ainda viram o homem escapar por uma das janelas da viatura, o que invalidava todas as normas de segurança em uso para o transporte de presos.
    Teve início então uma extraordinária fuga do velhote pelas ruas da cidade. Bem mais numerosa, a multidão de curiosos o seguia, se deliciando e torcendo a favor daquele herói em figura esquálida, de chinelos de bico fino, pijama de flanela e robe de chambre. Houve quem afirmasse tratar-se de maratona extemporânea. Uma voz chegou a espalhar que “aquele sujeito que vai lá na frente é um angolano disfarçado, treinando para a São Silvestre”.
    Mas a surpresa maior aconteceu quando o homem, agitando os braços, começou a levantar vôo, elevando-se a cerca de meio metro do solo. Com as abas do robe de chambre funcionando como estabilizadores, o velhote ganhava altura, enquanto a multidão aplaudia, delirante. A voz que o definira como um atleta angolano passou a gritar “eu sabia, eu sabia!”.
    – Sabia? – estranhou uma mulher ofegante e ensopada em suor.
    – É mole, dona! Ele tá testando uma invenção secreta, coisa de americano ou de novela. Deve ser lance de patrocinador…
    Uma gordona, alta e carregada de sacolas, deixou-se cair de joelhos e, com voz embargada, clamava que aquilo “era o milagre do Geninho”.
    – É… milagre…. – outra voz fez coro.
    – Do Geninho? Que Geninho? – alguém perguntou.
    Largando as sacolas e erguendo os braços, a gordona indignou-se:
    – Ora, o Geninho da novela “As Colinas do Apocalipse”. Será que aqui ninguém segue, não?
    – O seu Geninho ta com alguma coisa na boca… – observou uma voz de criança.
    Era o bilhete, que até então ninguém vira. Lá embaixo a multidão aplaudia, assoviava e soltava gritos. O velhote não voara ainda cinqüenta metros, e de atleta angolano e herói de novela, já passara a candidato a deputado e a presidente da República, inventor, espião e primo do vendedor de água mineral, que trouxera com ele mais três assistentes para ajudar nas vendas.
    Todos perceberam quando algo apavorou o velho voador, que pareceu inseguro. Em queda mais rápida do que a do bilhete (que fazia piruetas no ar), despencava ao solo a dentadura do homem. Já se abrira um claro na multidão que, de mãos para o alto, avançava para apanhar o papel.
    Num extraordinário looping, o velhote tentou recuperar o bilhete, mas o vento o levou aos braços de uma moça vestida de azul. De beleza singela e olhar solitário, ela a tudo assistia silenciosamente, abraçada a livros e cadernos.
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    Recostado na poltrona, o velho relembrou com prazer o sonho que tivera em tarde de sesta prolongada. Dirigiu-se então à janela e viu surgir lá longe uma moça vestida de azul. Vinha pela calçada, trazendo nos braços livros e cadernos.
    E se ela pudesse estar por alguns momentos ali na varanda para ouvi-lo sobre sua aventura pelos ares? Afinal, era quase noite, e exceto pela saudação matinal do entregador de jornais, mais ninguém lhe dirigira palavra naquele dia.
    Ao passar em frente ao portão, a moça olhou o velho. Este a cumprimentou com um aceno de cabeça, e recebeu de volta um belíssimo e solidário sorriso.
    Sorriso que, em rosto tão feliz, não escondia uma inexplicável cumplicidade.
    Eduardo Lara Resende
    (Texto reeditado, publicado originalmente em Pretextos-elr em 18/03/2010)

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