Na volta do feriado, o samba-enredo na CLDF será a Operação Drácon

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Passada a eleição das comissões permanentes da Câmara Legislativa e o fim do feriado de carnaval, os deputados distritais voltam ao trabalho com um clima não tão agradável. Isso porque gravações subsequentes àOperação Drácon expuseram as tentativas dos distritais de se desvincularem das acusações de desvios de emendas da saúde — em determinados casos, fazendo ataques a colegas. O assunto volta a preocupar os denunciados, já que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) deve retomar a análise do caso e pode tornar cinco deputados em réus.

Os desembargadores do Conselho Especial do TJDFT terão a apuração da Polícia Civil, do Ministério Público do DF e 700 horas de gravações feitas nos gabinetes dos deputados investigados. Os equipamentos foram colocados na Casa no dia em que a ação foi deflagrada e retirados 10 dias depois. As investigações apuram a participação de Celina Leão, Raimundo Ribeiro, ambos do PPS, Júlio César (PRB), Renato Andrade (PR) e Cristiano Araújo (PSD) na liberação de R$ 30 milhões em emendas em troca de pagamento de propina.

As gravações mostram que Celina Leão, ex-presidente da Casa, recebeu no gabinete dela Jefferson Rodrigues Filho, acusado de clonar o celular do governador Rodrigo Rollemberg (PSB) e se passar pelo chefe do Executivo local, conforme áudios revelados pelo Metrópoles.A visita dele, acusado de estelionato, ocorreu dias depois da deflagração da Drácon. Uma conversa entre os dois pelo celular mostra as datas. A primeira mensagem seria em 24 de agosto, dia seguinte à operação, quando Celina foi procurada por Jefferson. A resposta, porém, só foi dada dois dias depois. Em seguida, os dois se encontraram no gabinete da distrital.

REPRODUÇÃOReprodução

Conversa entre Jefferson Rodrigues e a deputada Celina Leão

Além de Jefferson, Celina recebeu uma ex-funcionária de Chico Vigilante (PT). Seria uma tentativa de reunir provas contra o petista, que denunciou aretirada de computadores e documentos da Casa um dia antes da Drácon.

Do gabinete de Cristiano Araújo (PSD), a Justiça tem conversas em que ele fala sobre a importância de estar na CPI da Saúde para, eventualmente, pressionar o governo. Apesar disso, ele e Júlio César pediram afastamento da comissão logo depois de a operação ser deflagrada.

Cassação
A situação dos deputados envolvidos na Drácon pode se agravar. Umapetição on-line pede o afastamento imediato deles. No texto, os autores do documento dizem que “os deputados envolvidos não estão preocupados com a população do Distrito Federal e sim com seus interesses próprios e escusos”. Até o fim da tarde de quarta-feira (1º/3), o documento digital contava com 250 assinaturas.

O corregedor da Casa, Juarezão (PSB), no entanto, evita falar sobre possíveis processos contra os colegas. Por meio da assessoria de imprensa, Juarezão informou que “não teve acesso ao conteúdo dos áudios e, portanto, não emitirá juízo de valor a respeito deles”. O presidente da CLDF, Joe Valle (PDT), também manteve o discurso moderado. “A Câmara vai esperar um posicionamento do TJDFT para tomar as medidas cabíveis”, afirmou.

O outro lado
A deputada Celina Leão afirma que não foi atrás de Jefferson, mas o recebeu por ele ter ido ao gabinete. “Tenho a obrigação de receber a população que me procura. Antes de recebê-lo, fui à PF e gravei a conversa, onde estavam dois policiais. A denúncia foi encaminhada à Polícia Federal e ao Ministério Público do DF para que fossem tomadas as medidas cabíveis”, afirmou.

A ex-presidente falou que a mesma situação se deu com a ex-funcionária de Chico Vigilante, que também a teria procurado. O petista, por sua vez, demonstrou irritação ao saber de uma possível tentativa de se conseguir provas contra ele. “A retirada dos computadores da Câmara está sendo investigada. Não entendo o motivo de irritação. Desafio a deputada a entrar com um processo de cassação do meu mandato”, atacou Vigilante.

Em nota, a assessoria de imprensa de Cristiano Araújo lamentou a divulgação de gravações de “conversas mantidas em ambiente privado”. Também negou envolvimento no esquema de desvio de emendas. “Fica cada vez mais claro que as investigações não encontraram nada que comprometa o parlamentar, e que o vazamento de declarações fora de contexto têm o propósito de tentar criar um clima de condenação. O que é grave, lamentável e inaceitável.”

A assessoria de Renato Andrade (PR) afirmou que não comenta conversa de terceiros. “Desde o início da investigação, o deputado se colocou à disposição da Justiça. O parlamentar reafirma sua inocência no caso.” Raimundo Ribeiro e Júlio César não se pronunciaram sobre o caso.

Colaborou Suzano Almeida

Fonte: Metropoles