Nenhum candidato a distrital que usou habitação como bandeira se elegeu

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Fracasso inclui dois deputados que não conseguiram a reeleição. Especialistas apontam excesso de concorrentes e mudança de consciência do eleitorado como as principais causas

 

Helena Mader/Correio Braziliense

A distribuição de lotes e as promessas de moradia sempre deram o tom da política brasiliense, desde que a capital federal conquistou sua autonomia, em 1988. Dos anos 90 para cá, a regularização de parcelamentos ilegais, com a posterior entrega das escrituras, passou a ser outro tema com muito apelo entre os eleitores. Tanto que os candidatos ao GDF prometem regularizar os condomínios e até mesmo distribuir lotes. No entanto, nessas eleições a bandeira da habitação não garantiu o sucesso nas urnas, pelo menos entre os candidatos que tentaram a sorte na Câmara. Dos 10 políticos que disputaram uma vaga no Legislativo local usando a moradia como palanque, nenhum conseguiu se eleger.

A causa dessa derrota maciça dos candidatos da habitação divide especialistas. Para alguns, o fenômeno reflete uma mudança de consciência do eleitorado da capital federal, que estaria mais interessado em emprego, saúde e infraestrutura do que na entrega de terrenos sem urbanização. Mas também há quem aponte o fenômeno da divisão de votos devido ao excesso de candidatos. Os 10 políticos que participaram do pleito e usaram a bandeira da moradia para angariar eleitores teriam juntos mais de 54 mil votos. Unidos em uma coligação, conseguiriam eleger dois ou até três deputados distritais, que poderiam atuar na Câmara Legislativa em prol da causa.

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Nem mesmo parlamentares que estiveram na Casa nos últimos quatro anos defendendo o direito à moradia conseguiram se reeleger. Paulo Roriz, do DEM, foi secretário de Habitação do governo Arruda, esteve à frente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF (Codhab) e coordenou a política do GDF de distribuição de terrenos. Mas o trabalho dos últimos anos não foi suficiente para garantir a ele uma cadeira. Com 16.762 votos, foi o 13º mais votado, mas não conseguiu se eleger por conta do coeficiente eleitoral. Perdeu o posto para o colega de partido Raad Massouh, que teve 1.235 votos a mais. Paulo Roriz ficou apenas com a primeira suplência do DEM.

Outro político muito identificado com as promessas de moradia para os brasilienses que fracassou nas urnas foi Batista das Cooperativas (PRP). Eleito em 2006 para o primeiro mandato, chegou à Câmara Legislativa por conta de seu trabalho à frente da Coalizão pela Moradia Popular, entidade que reúne centenas de associações habitacionais. Na eleição passada, conseguiu eleger-se com 6.890 votos. Desta vez, foi o escolhido de 7.050 eleitores, mas não assegurou a vaga e terminou em 46º lugar — o DF tem 24 distritais.

Batista começou a chamar a atenção no mundo político por conta de suas articulações para a criação de novas áreas habitacionais. Trabalhou para a liberação de mais de 4 mil terrenos da União no Riacho Fundo II, onde as casas serão construídas por meio de cooperativas, e lutou pela liberação do Setor Catetinho, considerado uma área ambientalmente sensível por especialistas. Mas, no fim do mandato, sofreu acusações de usar servidores da Administração de Águas Claras em seus comitês eleitorais do Recanto das Emas — cidade onde começou a carreira política e que é conhecida como seu reduto eleitoral.

Procurado pelo Correio, Batista das Cooperativas não quis comentar seu desempenho nas urnas este ano, nem a derrota dos candidatos ligados à habitação. “Não vejo conveniência em falar disso, não”, afirmou. Este ano, Batista teve um concorrente direto: o recém-lançado no mundo político Léo Rezende, também oriundo da Coalizão pela Moradia Popular, que teve 2.332 votos. Coordenador do Movimento Nacional de Luta pela Moradia, ele atuou para fortalecer o papel das cooperativas habitacionais e para a liberação rápida dos terrenos do Riacho Fundo II — mesmo nicho político de Batista. A divisão de votos pode ser uma das explicações para a derrota de ambos.

Outro que buscou espaço na política com o apelo do cooperativismo e da luta pela moradia foi Marco Lima, ex-deputado distrital e ex-administrador do Lago Norte. Presidente da organização Instituto Geração Brasília, ele defende que pessoas nascidas em Brasília tenham preferência nas políticas habitacionais do GDF. Mas acabou alvo da acusação de cobrar indevidamente taxas para inscrever pessoas carentes no programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal.

Análise
O cientista político e professor da Universidade Católica de Brasília Emerson Masullo acredita que o mau desempenho desses candidatos é um sinal de renovação política. “Isso reflete os escândalos recentes e mostra que a população deseja mais do que lotes. O eleitor não se atrai mais só pela promessa de terreno e tijolo. Ele quer emprego, educação e saúde de qualidade”, diz Masullo.

O também cientista político Leonardo Barreto tem opinião diferente. Para ele, a derrota nas urnas dos candidatos ligados à habitação não é sinal de mudança de consciência dos eleitores. “Ainda existe muito o voto em troca de lotes. O que aconteceu desta vez, a meu ver, é que o excesso de candidatos fez com que os votos se dispersassem. Os políticos perceberam que a moradia é um nicho tão bom que houve um excesso de concorrentes.”

José Edmar, do PSDB, foi o candidato que mais colou sua imagem à política de distribuição de lotes. Prometeu criar 10 novas cidades no DF para abrigar milhares de pessoas à espera da casa própria. Mas o discurso, que tanto fez sucesso no passado da cidade, parece não ter mais tanta adesão. Edmar, que em 2003 ficou 29 dias preso por suspeita de grilagem, recebeu 6.292 votos. Já Pedro Barbudo (PTC), antigo assessor de José Edmar e condenado a 3,5 anos de prisão por ocupação irregular de terras, teve apenas 1.332 votos.

É proibida a realização de showmício para a promoção de candidatos, bem como a apresentação, remunerada ou não, de artistas com a finalidade de animar comício ou reunião eleitoral.

Condomínio atrai poucos eleitores

Além dos candidatos que usaram o filão da promessa de lotes para atrair o eleitor, também houve um grupo que adotou a bandeira da regularização dos condomínios. Quem chegou mais perto de uma vaga foi Dirsomar Chaves (PT), que há quase 11 anos preside a Associação dos Moradores de Vicente Pires. Sua atuação à frente da entidade e seu trabalho para legalizar os mais de 10 mil terrenos da região foram sua vitrine eleitoral. Com 11.928 votos, conseguiu apenas a segunda suplência do PT e pode assumir uma vaga caso pelo menos dois dos cinco eleitos pelo partido se licenciem temporariamente.

Presidente da União dos Condomínios Horizontais do DF (Única), Júnia Bittencourt, do DEM, teve um desempenho bem inferior ao de Dirsomar. Mas ela se diz satisfeita com os 2.943 votos que conquistou. “Infelizmente, ainda há um grande desinteresse dos moradores de condomínios. A população quer regularizar seus parcelamentos, mas não se engaja. Além disso, houve um número alto de candidatos com essa bandeira, o que dispersou os votos”, acredita.

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