O AVESTRUZ E DURVAL

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O avestruz e Durval

Há aproximadamente 15 anos, conheci o então deputado federal Chico Vigilante (PT). Não apenas ele, mas também políticos como Agnelo Queiroz e militantes petistas como Laércio Alencar. Naquele período, eu havia colaborado com o Ministério Público do DF, mais diretamente com a promotora Alessandra Queiroga, com denúncias que estavam sob meu poder e que deflagraram operações que originaram, posteriormente, a CPI da Grilagem de Terras da CLDF. Recebi o apoio da imprensa, principalmente dos jornalistas Antônio Vital, Fábio Panunzzio e Iain Semple, do Correio Braziliense, e os dois últimos da Band, respectivamente.

Após o término da CPI, fui convidado a trabalhar na Câmara Legislativa com o deputado distrital João de Deus. Foi um momento que, naturalmente, me aproximei dos parlamentares que faziam oposição ao ex-governador Joaquim Roriz, um dos alvos das investigações. O então petista Cristovam Buarque havia assumido o governo do Distrito Federal. A proximidade e o respeito que passei a ter por Vigilante impulsionavam longas conversas, sempre que nos encontrávamos, acerca do meio político, principalmente do DF. Certa vez, ao falar de um dos parlamentares da base de Roriz e da oposição de Cristovam Buarque, Chico Vigilante afirmou: “O PMDB é um partido de bandidos”. No mesmo momento, alertei: “Não se iluda, deputado Chico Vigilante. O PT é um partido igual a qualquer outro. E pelo que sei você é um dos poucos petistas honestos que conheço. Um dia você vai reconhecer isso”.

Fiz essa declaração ao Chico por causa de dois fatos que haviam acontecido comigo. Após a aproximação com o PT, recebi de uma parlamentar da época a missão de ir à Secretaria de Administração do governo Cristovam. O objetivo era que eu conversasse diretamente com o então secretário da pasta e recebesse, pessoalmente, uma incumbência. Ao chegar lá, fui informado que o GDF tinha faturas atrasadas a acertar com empresas prestadoras de serviço e que poderia dar agilidade à liberação dos pagamentos para os empresários que pagassem porcentagem, em dinheiro, referente ao valor total da fatura.

Fiquei impressionado com a naturalidade com que o secretário tratou do assunto e resolvi visitar a empresa por ele indicada para verificar como funcionava o esquema. Ao conversar com o representante da referida empresa, confirmei o que suspeitava: as prestadoras de serviço tinham de pagar até 10% sobre o valor das faturas para que o governo pagasse a dívida atrasada. Isso em pleno governo do PT.

Na época, não cheguei a comentar com Vigilante. Só vim fazê-lo bem depois. Apenas comuniquei e alertei ao deputado João de Deus o que estava acontecendo. Nunca mais voltei ao gabinete do tal secretário, tampouco do empresário que prestava (e ainda presta) serviços ao governo e muito menos falei novamente com a referida parlamentar sobre este assunto. Ao ler este relato, a hoje ex-parlamentar deve lembrar muito bem do ocorrido. Foi a prova que tive que os esquemas de corrupção não são exclusividades de partidos, mas sim de grupos que estão dentro deles. E vale mencionar: não foi a única experiência desse tipo com integrantes do Partido dos Trabalhadores.

Logo após esse episódio, fui procurado novamente pela mesma parlamentar petista, que manifestou interesse em regularizar a situação da Academia de Tênis, tradicional clube da cidade que foi acusado de ter invadido áreas públicas. A idéia da deputada era a seguinte: ela apresentaria o projeto para legalizar a área e eu, como assessor do deputado João de Deus, convenceria o parlamentar a assumir a relatoria da matéria. Em troca, receberíamos uma quantia de R$ 100 mil, dividida igualmente entre nós dois. Por motivos óbvios, a investida da parlamentar não vingou. Tempos depois o tal projeto foi, de fato, apresentado na Câmara Legislativa, mas com um detalhe: o relator foi o então deputado distrital Adão Xavier, que mais tarde trocou o nome para Carlos Xavier. E a autoria do projeto foi da referida parlamentar à época.

Por não concordar com algumas práticas de integrantes do governo Cristovam, dentre elas as que eu acabo de relatar, e por fazer parte da equipe de João de Deus – deputado da base do governo PT -, preferi pedir minha exoneração da função de Diretor Legislativo da Casa a perder a amizade com o parlamentar que naquele período de grandes dificuldades que passei em função das minhas denúncias, foi o único que me ajudou com um emprego. Passei, então, a trabalhar exclusivamente na iniciativa privada. Mas não deixei de atuar nos bastidores da política local.

Tanto que, logo após a cassação do ex-senador Luiz Estevão, denunciei na Câmara Legislativa a venda de uma ata da reunião do Partido dos Trabalhadores por um irmão de um candidato a distrital do PT, hoje ainda deputado pelo mesmo partido, pela quantia de R$ 20 mil. A venda dessa ata de governistas para a oposição da época tinha dois objetivos específicos: prejudicar o projeto de reeleição de Cristovam Buarque e, com o dinheiro arrecadado, turbinar a campanha do irmão do tal negociador, que conseguiu à época ser eleito para a Câmara Legislativa. Vale esclarecer que esses negociadores faziam parte de um grupo contrário ao governo Cristovam, embora fossem do Partido dos Trabalhadores.

Cristovam Buarque realmente perdeu a reeleição em 1998. Roriz retornou ao Buriti e a minha amizade com Chico Vigilante, Agnelo e Laércio Alencar aumentou. O auge desse crescimento foi em 2006, quando Arlete Sampaio, do PT, disputava o Buriti com a então governadora Maria de Lourdes Abadia (PSDB) e José Roberto Arruda (ex-DEM), que venceu a eleição. Foi por meio de Chico Vigilante, por exemplo, que o conteúdo da conversa telefônica entre o doutor Eri Varela e o ex-governador e então candidato ao Senado, Joaquim Roriz, foi colocado no programa político do Partido dos Trabalhadores. No diálogo, Roriz foi enfático ao mencionar que Arruda, Paulo Octávio e Leonardo Prudente montaram uma “quadrilha para assaltar o Estado”. Visava-se com isso fazer com que a campanha chegasse ao segundo turno, o que consequentemente levaria todos a se unirem contra Arruda.

Esse não foi um fato isolado na minha relação com o Chico, nem com o PT. Lembro que coloquei à disposição do partido um depoimento feito ao Ministério Público pelo senhor Alberto, ex-funcionário do escritório político de Arruda, localizado na 502 Sul, para entrar no programa de Tv da campanha do PT ao Buriti. Neste depoimento, o senhor Alberto, que já havia feito a denúncia do esquema da Codeplan ao MP, contava como se fazia o caixa dois na 502 Sul para a campanha do então candidato Arruda. O programa não foi ao ar, segundo o próprio Chico, porque a candidata Arlete Sampaio teria afirmado que se tivesse que ganhar a eleição daquela forma, ela preferia não vencer. O tempo provou que ela estava errada. Tanto que hoje está aí o resultado das investigações de parte dos fatos que estavam contidos naquele depoimento: a Caixa de Pandora.

Ainda em 2006, tive – para minha surpresa -, no edifício Liberty Mall, um encontro com um parlamentar do PT que, junto com integrantes do PMDB e do PSDB, visava cooptar a então também candidata ao governo do DF, Maria de Fátima Passos (PSDC). O objetivo era pagar uma quantia em dinheiro à candidata para que ela utilizasse o tempo de televisão para atacar José Roberto Arruda. Só que o grupo do então democrata foi mais eficiente e acabou desarticulando a operação, pagando, segundo me foi relatado, R$ 200 mil para que Fátima Passos não atacasse Arruda durante a campanha, dinheiro este oriundo dos cofres da Codeplan. Isso tudo que estou relatando faz parte de uma história até então não contada. Muitos, talvez, tentem negar. Mas é a pura verdade.

Nos últimos quatro anos, a minha amizade que já havia com o hoje pré-candidato ao governo do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), cresceu consideravelmente. Não posso deixar de lembrar da época que ele era do PCdoB, e como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, acompanhou a mim e ao então deputado distrital João de Deus para, juntos, defendermos policiais e bombeiros militares que sofriam injustiças e arbitrariedades por parte dos superiores das corporações onde estavam lotados.

Não posso esquecer e estarei pronto a revelar os conteúdos das conversas e tratativas com o senhor Agnelo sobre a campanha deste ano que, embora não envolvam dinheiro, revelam que para chegar ao poder, eles fazem acordo até com o diabo, desde que o diabo seja vice. Isso ocorreu na época que o deputado federal Geraldo Magela queria se cacifar para ser lançado pré-candidato do PT ao governo do Distrito Federal.

Me mantive calado até este exato momento. Mas eu e Agnelo sabemos quais os motivos que o levaram a assistir os vídeos na sala do ex-secretário de Relações Institucionais e pivô da crise do GDF, Durval Barbosa, meu amigo pessoal. Agnelo não deve ter esquecido de nosso encontro na Torteria di Lorenza no Sudoeste, a mesma que foi palco do flagrante da prisão do ex-conselheiro do Metrô, Antonio Bento, que tentava me subornar.

Na presença de um colega de partido, o deputado Chico Leite, de mim e de uma jornalista, Agnelo tentou negar que teria visto os vídeos. É o mesmo Agnelo que, em outra conversa, admitiu receber apoio no passado para sua campanha ao Senado de um importante nome do governo Arruda. É o mesmo Agnelo, inclusive, que ao sair da sala de Durval Barbosa, à porta do elevador do 10º andar, levou consigo dois CDs com áudios que tratam da comercialização de lotes no Pró-DF, programa do GDF de incentivo ao desenvolvimento econômico, e que nada fez a respeito. Dias depois, o próprio Agnelo me devolveu todo o material.

Diversas vezes, por freqüentar a minha casa, falei ao Chico Vigilante para que o PT revisse sua posição e trocasse o nome do seu pré-candidato para as eleições de 2010. Mostrei para ele que já em meados do ano passado havia rumores da citação do ex-ministro dos Esportes na batizada à época Operação Kung-Fu. Só assim, com a mudança do nome de Agnelo para o de uma candidata como Arlete Sampaio, o PT conseguiria derrotar Joaquim Domingos Roriz. Esse mesmo Agnelo é o que no ano passado demonstrava nos bastidores a intenção de ter encontros com o senhor Joaquim Roriz, chegando até a pensar em propor ao mesmo que sua filha, Jaqueline Roriz (PMN), fosse escolhida vice na chapa do PT. Isso porque, naquela época, Arruda seria imbatível na reeleição. Cheguei a tratar sobre esse encontro com pessoas ligadas ao ex-governador Roriz e só não ocorreu porque houve vazamento e foi matéria do Correio Braziliense.

Por diversas vezes, nos últimos dias, eu e Chico Vigilante conversamos – e ele sabe bem disso – sobre algumas pessoas que, filiadas ao PT, hoje ostentam sinais exteriores de riqueza. Parlamentares petistas se encontravam às escondidas com o ex-governador José Roberto Arruda. Autoridades do PT, que embora criticassem a gestão do ex-democrata – tinham cargos indicados no governo. Por diversas vezes, Chico Vigilante dizia: “Você e Durval têm que revelar tudo. Temos que limpar o Distrito Federal dos bandidos que se valem da política para enriquecimento próprio”.

Me entristece muito ter que fazer este relato, tornando público o que a população do Distrito Federal desconhecia até então. Deixo de falar aqui dos episódios ocorridos da quinta-feira ao sábado que culminaram com a eleição indireta do novo governador Rogério Rosso (PMDB), uma vez que o PT não quis fazer o então candidato petista Antonio Ibanez o governador do Distrito Federal. Não fez porque não quis. Se quisesse, teria o feito. E o Chico sabe bem disso.

O PT cobra ética dos demais partidos, mas não se pronunciou até hoje sobre o nome do ex-deputado Chico Floresta (PT) ter aparecido numa lista do Arruda como suposto beneficiário do esquema de corrupção. O PT não cobrou explicações ao senhor Cabo Patrício por ter apresentado um projeto de lei que beneficiava empresas do ex-presidente da Câmara Legislativa e ex-deputado Leonardo Prudente (sem partido). O PT que não cobrou do senhor Benício Tavares (PMDB) os nomes dos 14 deputados que ele revelou na gravação realizada no gabinete de Durval Barbosa e que, segundo o próprio Benício, teriam se beneficiado do dinheiro dos empresários de transporte para aprovarem a famosa Lei do Passe Livre para pessoas com deficiência.

Ao saber na quinta-feira passada que iria me manifestar hoje com relação às declarações dadas por ele e pelo PT aos jornais, às Tvs e aos blogs, quando Durval Barbosa disse que há pecadores no PT, Chico Vigilante me ligou e eu afirmei a ele: “Chico, eu não minto”.  Eu não tenho o hábito de mentir. Quem escolheu a profissão de jornalismo, que lida com informações o tempo todo, passa longe das mentiras. Afirmei isso sobre os fatos relatados por Durval Barbosa à Érika Kokay (PT) que haviam ocorrido em minha casa, e com a ciência dele, como ex-presidente regional do PT, de saber tudo o que foi relatado até agora. E Chico respondeu: “Eu nunca desmenti um jornalista”.

Concordo com Chico Vigilante quando ele afirma à imprensa que seria impossível ele ter saído da minha casa chorando, uma vez que corrupção não o comove. Corrupção nunca comoveu ninguém. O que comove, caro Chico Vigilante, é a decepção que nos causa quando vemos que “companheiros” se igualam àqueles que tanto criticamos, e dela, da corrupção, fazem uso direta ou indiretamente, seja com dinheiro, com cargos no governo, com propina ou simplesmente com um projeto para beneficiar um adversário político. E isso, não podemos negar, nos fez chorar e sentir nojo de estarmos passando por momentos tão difíceis que nós e toda a população do DF testemunhamos.

Quero frisar que não poderia deixar ser taxado de mentiroso em troca de uma imagem já falida do Partido dos Trabalhadores. Além disso, não poderia abandonar uma pessoa que teve a coragem de se incriminar, de se separar dos seus próprios filhos, de se expor e revelar o maior escândalo de corrupção já descoberto no Brasil, que é Durval Barbosa. Não poderia fazer isso em troca de uma amizade com um político, mesmo sendo essa amizade verdadeira e até mesmo mais antiga.

Por esses fatos que expus acima, e com todos os detalhes que estarei pronto para esclarecer nos fóruns cabíveis, estou encaminhando a íntegra deste relato às autoridades competentes. Acredito que a verdade tem um preço. E a amizade também tem. Mas entre a amizade e a verdade, escolho a verdade. E nem que para isso eu seja retirado do hall de amigos de Chico Vigilante. Não tenho opção. Se esse é o preço da verdade, pagarei por ela. Seja política ou juridicamente.

Edson Sombra

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