OS CUBANOS ESTÃO CHEGANDO!

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PAULO TIMM

Fim da novela: foi assinado o Convênio com a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) para a contratação de 4 mil médicos cubanos.  Lei é lei. Cumpra-se! Embora, como dizia Bismark, se o povo soubesse como são feitas as salsichas e as leis! Enfim, a primeira leva, de 4.000 cubanos, chega logo , obedecendo o seguinte cronograma: 400, dia 26 de agosto; 2.000,  dia  4 de  outubro; e 1.600, final de novembro.

 Deverá ser cumprido um ritual de adaptação ainda incerto em universidades brasileiras. Se aprovados, eles irão para 701 municípios do interior selecionados pelo Programa Mais Médicos, 84% nas regiões Norte e Nordeste.

O Governo oferecerá aos cubanos as mesmas condições de trabalho que oferece aos brasileiros: salário de R$ 10.000,00, a cargo da União, e Auxílio-Moradia pelas prefeituras.

O valor total do acordo com a Opas é de R$ 511 milhões até fevereiro de 2014, mas os recursos serão passados ao Governo de Cuba, que fixará, então, o salário dos médicos. Ninguém sabe, na verdade quanto cada um receberá. Trata-se, rigorosamente, da famigerada “terceirização”, desta vez em escala internacional.

NÃO PODEM SER REJEITADOS

APENAS POR VIREM DO COMUNISMO

O fato inflamou os médicos e suas corporações. Incendiou os mais conservadores, que denunciam tanto a qualidade desses estrangeiros, como uma possível ação política de infiltração comunista no interior do Brasil.

Só por esta alegação, embora um pouco paranóica, o assunto merece reflexão. Não nos iludamos: o anti-comunismo, como fermento ideológico de ódios políticos, ainda subsiste. Embora talvez grande parte dos médicos que aqui aportarão já tenham até se desencantado com o sonho revolucionário, sobre eles recairá a peçonha fascista.

Para a imprensa conservadora, será um prato cheio: descobrir aqui e acolá, seja um espião, seja um lapso profissional, inevitável até no Eistein, seja um médico fanático por denunciar o regime castrista.

Tenho olhado este Programa com cautela. Leio os artigos do CEBES e depoimentos de vários profissionais da saúde, todos reticentes. Como velho comunista, embora com mais dúvidas do que certezas (até porque velho), fico na contramão de vários companheiros.

 

POR QUE SÓ AGORA DECIDIRAM

BUSCAR ESTA SOLUÇÃO CUBANA?

Sou contra não à vinda dos médicos cubanos, mas da maneira  apressada como tudo isto está sendo conduzido. Afinal, o governo petista já aí está há três mandatos. Só agora saiu correndo em busca de uma solução mágica?

Desconfio. Acho que a pressa não é só inimiga da perfeição. É inimiga, também, da virtude, que tem na prudência seu fulcro.

Há interesses eleitorais em jogo, embora a intenção seja até boa. Boa, primeiro, para as populações periféricas, que terão, pelo menos, el consuelo de um profissional da saúde.

Boa para o governo cubano, que embolsará parte significativa dos dólares recebidos, redistribuindo-os em bem-estar a uma população castigada pelo bloqueio comercial há décadas.

Boa para os médicos cubanos, que, assim, poderão conhecer novos ares e, eventualmente, por eles se encantarem, abrindo novos horizontes de vida.

Como não há médicos brasileiros dispostos a irem para os grotões indicados, nenhum médico brasileiro será prejudicado. Então, por que tanta grita? Como diria Ortega y Gasset: “Pelas circunstâncias…”

Ninguém reclamaria, por exemplo, se este acordo fosse feito com a ONG Médicos sem Fronteiras, ou com entidade equivalente, em levas menores, intercaladas no tempo, após avaliação de resultados.  E que se limitasse ao Norte/Nordeste, regiões reconhecidamente carentes.

Também não reclamariam se, prudentemente, o acordo previsse um tempo “razoável”, superior a três semanas, quiçá um ano,  de agiornamento dos médicos nos hospitais universitários, para que dominassem melhor a língua portuguesa, conhecessem a cultura e visitassem os lugares para os quais serão quase militarmente, “designados”.

Também se exigiria que os lugares recebessem, previamente, alguma atenção suplementar do SUS, a fim de que os pobres cubanos não se defrontem com a barbárie que são nossos hospitais de província: sem medicamentos, sem leitos, sem as mais mínimas condições para o adequado exercício profissional.

Ahhh! Mas tudo isso exige tempo. E tempo é o que o Governo não tem. Há eleições à vista!

MUITOS SÃO CONTRA SEM

SABER DIREITO A SITUAÇÃO

O maior problema, porém, não são os médicos cubanos. É a maneira como o assunto vem sendo abordado. Ou se é contra ou se é a favor, como se fosse possível essa redução, refém de paixões ou interesses.

Ou, o que dá na mesma: há os que enaltecem o sistema de saúde em Cuba, trazendo até depoimentos internacionais irretorquíveis sobre suas maravilhas, deduzindo daí que o Mais Médicos com os cubanos será um êxito.

E há os que , mesmo sem conhecê-lo, o condenam, dentre outras porque é produto de um regime que odeiam – e daí viram alarmistas com a vinda dos cubanos.  Convenhamos: o que tem a ver a vinda de médicos cubanos com o Sistema de Saúde de Cuba. Aliás, lá o “Sistema” funciona, porque é eminentemente preventivo. Vejam este texto:

Médicos de família, junto com enfermeiras e outros profissionais de saúde, são os responsáveis por dar atendimento primário e serviços preventivos para seu grupo de pacientes — cerca de mil pacientes por médico em áreas urbanas.

Todo o cuidado é organizado no plano local e os pacientes e seus profissionais de saúde geralmente vivem na mesma comunidade. Os dados médicos em fichas de papel são simples e escritos à mão, parecidos com os que eram usados nos Estados Unidos 50 anos atrás. Mas o sistema é surpreendentemente rico em informação e focado na saúde da população.

Todos os pacientes são categorizados de acordo com o nível de risco de saúde, de I a IV. Fumantes, por exemplo, estão na categoria de risco II, e pacientes com doença pulmonar crônica, mas estável, ficam na categoria III.

As clínicas comunitárias informam regularmente ao distrito sobre quantos pacientes tem em cada categoria de risco e sobre o número de pacientes com doenças como a hipertensão (bem controlada ou não), diabetes, asma, assim como sobre o status de imunização, data do último teste de Papanicolau e casos de gravidez/cuidado pré-natal.

(Edward W. Campion, M.D., and Stephen Morrissey, Ph.D.)

The New England Journal of Medicine, January 24, 2013, citado no Blog do Nassif

Aqui no Brasil, além da miséria das populações marginais (isso vai impressionar os cubanos, que pensam que eliminamos a pobreza), não há saneamento básico, principal vetor da saúde pública.

Além disso, o sistema do SUS está em crise, há falta de recursos, os prefeitos não dispõem de recursos – quando não os roubam! Pobres médicos cubanos!

Como toda potência imperial, só estamos pensando nos “ nossos pobres”. Nos esquecemos das míseras almas cubanas que vêm aí e que estarão por trás dos chalecos, jogadas em lugares incertos e desconhecidos,  provavelmente super-exploradas pelo próprio governo, sem família, sujeitas a inúmeros controles em seus movimentos.

Até por isso, mesmo sendo contra o que considero uma insanidade, “ jamais vista na História deste país” , recebo os cubanos de braços abertos. Bem-vindos à Terra dos Catataus! Sejam felizes!

 Fonte: blog do Riella

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