PERDAS COMPREENSÍVEIS E PERDAS INTOLERÁVEIS

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PERDAS COMPREENSÍVEIS E PERDAS INTOLERÁVEIS

O advir é uma possibilidade (abstrata)  mas não uma fatalidade para todo ser humano: ele é criação histórica e criação cuja história podemos acompanhar,. Esse sujeito, a subjetividade humana, é caracterizado pela reflexividade (que não deve se confundir como simples “pensamento”) e pela vontade ou capacidade de ação deliberada, no sentido forte desse termo.

Cornelius Castoriadis, in A Encruzilhada do Labirinto 3 – Ed. Paz e Terra

As recentes tragédias nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, envolvendo dezenas de vítimas, enlutam, não apenas as famílias atingidas, mas o país inteiro. As cenas dos deslizamentos  e  das inundações são chocantes. A imagem  graciosa de uma jovem deixando ao violão sua última mensagem de vida, o saber-se que uma  mãe perdeu toda a família, os pais suas duas lindas meninas, comovem os que, de longe, aproximam-se desses fatos pelos sentimentos.  E ficamos a matutar: Seriam estas mortes  o tributo que pagamos pelo só fato de estarmos vivos, no rumo do fatalismo budista: “ A causa de morte é estarmos vivos…”  Seriam , ainda, parte daquelas inevitáveis perdas de que nos fala a Psicóloga americana Judith Viorst em seu famoso livro “AS PERDAS NECESSÁRIAS”? Ou são perdas simplesmente inaceitáveis.

Perder, estamos sempre perdendo ao longo da vida, no entendimento da autora citada. Começamos por perder o útero materno quando viemos à luz, com o trauma da perda do cordão umbilical que nos nutria e do colo que nos acalentava. Depois perdemos o afago dos seios da mãe amada. Perdemos todo o seu território mas ganhamos a geografia da casa. Depois a geografia da rua, depois a geografia do bairro, da vila, do morro. E , assim, vamos compensando tudo aquilo que perdemos com a aquisição de ganhos que nos entregam à geografia do  mundo. O vasto planeta com suas belezas, com suas oportunidades, com sua poesia reabrindo-se, para nós, como um imenso regaço que nos dá, mas exige. Freud dizia que o único verdadeiro amor é o amor materno, que só dá e nada exige. Quando o perdemos, passamos a conhecer a Lei da Vida, que é o conhecimento da necessidade como critério de sobrevivência. A liberdade como limite. O limite como preço.  Somos eternos perdedores que tentam ludibriar a frustração das perdas pela fabricação de ilusões que nos mantêm num instável equilíbrio existencial. Vai-se a inocência, vai-se a juventude, vai-se, com o tempo, ultrapassando esses marcadores das perdas nas nossas vidas, até que um dia nos vemos diante da grande e última perda: a perda da vida. A morte arrebatando-nos para o desconhecido. A  última grande e já inútil dor.

Mas… E  essas mortes prematuras? O que elas significam?

Para os que se foram, apenas um destino trágico. Para os entes mais próximos, que ficam, uma dor incalculável que transcende, em muito , o conceito das perdas necessárias de Judith Viorst As necessárias perdas ao longo da vida, também dolorosas, carregam consigo a possibilidade da superação desta dor pela benefício da entrada num outro patamar da vida. Mas o luto das famílias atingidas por essas tragédias não tem correlato. É simplesmente dor, profunda e inexplicável dor que será carregada por todas as suas vidas como um fardo imenso.

Para nós, mais distantes da tragédia, mas tocados por ela, porém, estas mortes  são sinais. Aqui operam como marcadores para a sociedade, avisando-a de que, em conjunto , acaba de pagar um preço de advertência para o seu futuro. Elas repetem o triste episódio do litoral de Santa Catarina,  pouco tempo atrás. E de outros deslizamentos e enchentes de outros verões igualmente chuvosos. E estão a testemunhar o descuido do processo de crescimento e urbanização no Brasil com o meio ambiente. O afã de modernizar e de criar oportunidades de emprego e moradia nas cidades, de interligar as grandes cidades com a urgência de mandatos, de produzir para engordar as cifras do PIB de forma a fazer da economia brasileira uma das maiores do mundo nos cega. Estamos tomados pela vertigem da economia.

A verdade é que destruímos, durante cinco séculos,  a Serra do Mar, com todos os seus encantos e virtualidades ambientais e ela, sem capacidade de reclamar, agora se vinga sobre vítimas inocentes.

Os próprios engenheiros especializados em construção de estradas nos dão conta de que não foram respeitadas as encostas nos traçados das principais vias que cortam a Serra do Mar. Só muito recentemente é que se está incorporando em novos projetos a tecnologia sustentável. Nas cidades, onde aliás, se concentra grande parte da população brasileira – só no Macro Eixo Rio-São Paulo mais de 40 milhões de habitantes – a ocupação não respeita  os cuidados da referência geotécnica. Na verdade, só as grandes cidades dispões de meios técnicos capazes de elaborar ou administrar Cartas Georeferenciadas capazes de evitar a ocupação desordenada, mas, ainda assim, não dispõem dos meios de controle do uso do solo para impedir a ocupação de áreas públicas, de áreas de risco, e até mesmo de áreas de preservação ambiental. Rio de Janeiro e São Paulo são campeãs da irregularidade da ocupação urbana. E mesmo quando dispõem dos meios técnicos e dos meios de controle sobre a ocupação, como no caso de Brasília, o interesse político faz com que o próprio Governo acabe legalizando imensas áreas de ocupação irregular como fez com a criação da Cidade Estrutural, ao lado do Parque Nacional. Uma aberração…

Na recente tragédia dos Estados do Rio e São Paulo é curioso verificar que em nenhum momento apareceu a autoridade federal responsável pela supervisão das cidades. É como se não existisse um Ministério das Cidades – ou quem sabe não existe mesmo, foi extinto por algum ato despercebido ? E, curioso, o Brasil é um país com tradição no planejamento de cidades desde o início do Século XX e com um acervo considerável  de estudos l sobre Redes Urbanas, Regiões Metropolitanas e Cidades, aí despontando o velho IBGE com sua larga tradição em geografia humana e regional. Lembro-me, ainda, do primeiro Ministro das Cidades do Governo Lula, o Ex-Governador Olivio Dutra, que, como Zumbi pontificava na mídia falando do “novo” Ministério sem se dar conta dessa longa tradição de estudos urbanos e que teve, mesmo nos governos militares, um avanço considerável com a criação do BNH, das Regiões Metropolitanas, dos Programas Regionais,  a Empresa Brasileira de Transportes Urbanos e o Conselho Nacional de Politica Urbana. Alguém , aliás, deve ter avisado o Presidente Lula  de que o General Figueiredo havia construído mais casas populares nos seus seis anos de Governo do que ele próprio em igual tempo, pois o Presidente apressou-se, há duas semanas , no seu sétimo ano de governo, a avisar que ultrapassara o mencionado General Presidente. Diante de tanto caos nas cidades, por que não se pensar em recuperar essa tradição, aliando-a a novos instrumentos de gestão urbana propiciados pelo georeferenciamento digital para dar um salto na questão do planejamento urbano? Por que não se pensar em dar ao Ministério das Cidades algo mais do que um orçamento para distribuição de bondades, fazendo-o o centro de pensamento do futuro das cidades brasileiras, em articulação com as exigências da descarbonização da atmosfera?

A tragédia de Angra e das cidades históricas paulistas inundadas não deve ficar apenas na elegia que se desdobra em lamento. Deve ser repudiada por todos como algo “inevitável”, fruto do acaso ou da natureza. Essas tragédias não são “necessárias” a ninguém.São intoleráveis, sob qualquer ponto de vista. Elas podem e devem ser evitadas pelo controle do risco que a modernização impõe e esse controle depende não só de governos, mas da consciência da sociedade sobre os males da ocupação desordenada e da necessidade de se criarem mecanismos cada vez mais fortes e sofisticados de planejamento urbano. A tecnologia está aí disponível, com seus incríveis avanços que permitem visualizações on line de todo o processo de ocupação do país. Os mecanismos de gestão democrática também estão. Falta à sociedade mobilizar-se para que isto se junte em favor de um mundo com maior segurança civil para todos nós. E que se crie um advir como possibilidade mediada pela inteligência e não apenas como fatalidade.

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PAULO TIMM – Economista, Pós Graduado ESCOLATINA , UChile – Ex Presidente do Conselho Regional de Economia DF , Ex Secretário Meio Ambiente do DF, Professor da Unb.

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