Mesmo com adesão ao pré-natal, infecções, uso de drogas e abandono de tratamento afetam diretamente o peso do bebê
A vulnerabilidade social, a interrupção de tratamentos e o uso de substâncias psicoativas estão entre as principais causas do baixo peso de recém-nascidos, aponta pesquisa de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB). Apesar dos bons índices de cobertura de pré-natal e condições sanitárias nas moradias, 9,35% dos recém-nascidos da pesquisa apresentaram baixo peso ao nascer, índice acima da média nacional – indicando a necessidade de assistência mais humanizada e multiprofissional às gestantes.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 20 milhões de bebês nascem anualmente abaixo do peso ideal, o que representa um em cada sete nascimentos no mundo. “O baixo peso ao nascer (BPN) é uma condição crítica e está relacionado ao aumento da mortalidade neonatal, além de complicações a longo prazo como hipertensão e problemas de desenvolvimento”, explica a estudante de Medicina do CEUB responsável pela pesquisa, Ádria Nascimento.
O estudo englobou amostra qualitativa com 81 puérperas e 87 recém-nascidos de um hospital da rede pública do Distrito Federal, dos quais seis evoluíram para óbito. O levantamento foi realizado com base em prontuários eletrônicos, e entrevistas com as mães e cartão da gestante, avaliando variáveis como idade, cor/raça, escolaridade, situação conjugal, ocupação, renda, condições de moradia, local e número de consultas de pré-natal, além de antecedentes obstétricos.
Entre os fatores identificados como determinantes para o baixo peso na região, na amostra investigada, estão a questão social das gestantes, especialmente aquelas residentes em áreas periféricas do DF, como Estrutural e Sol Nascente, e o uso de substâncias como álcool, fumo e outras drogas ilícitas (36,15%). A amostra aponta ainda que o pré-natal foi realizado por 93,83% das participantes, com 65,43% delas realizando ao menos seis consultas, a maioria na rede pública.
Apesar dos bons índices de cobertura pré-natal, boas condições sanitárias das moradias e bons índices de escolaridade (> 9 anos), o estudo aponta a influência das principais intercorrências relatadas pelas gestantes, como infecções (39,51%), principalmente do trato urinário, seguidas por casos de hipertensão (17,28%). “Um dado preocupante foi a interrupção espontânea do tratamento medicamentoso por 30,86% das mulheres, mesmo com prescrição para 92,59% delas durante o acompanhamento.” Ressaltando que a suspensão do medicamento antes do prazo indicado pode comprometer severamente o tratamento, trazendo riscos à saúde da mãe e do bebê.
Aspectos psicossociais e implicações para a saúde pública
Fabiana Xavier Cartaxo Salgado, orientadora da pesquisa e professora de Medicina do CEUB, ressalta que os resultados apontam para uma necessidade urgente de intervenção nos aspectos psicossociais das gestantes. “Os achados demonstram que variáveis aparentemente favoráveis, como boa escolaridade, situação conjugal estável, bons resultados de condições sanitárias nas moradias e os bons índices do acompanhamento pré-natal, (considerando o número de consultas mínimas recomendadas), não foram suficientes para reduzir o índice de baixo peso. Portanto, é preciso uma abordagem mais integral e individualizada”, afirma.
A pesquisa recomenda a implementação de políticas públicas mais robustas, com ações educativas, acompanhamento mais próximo das gestantes em situação de vulnerabilidade e qualificação periódica das equipes de saúde. “Essas medidas são essenciais para assegurar uma assistência humanizada, integral e efetiva, reduzindo os riscos associados ao baixo peso e prematuridade neonatal”, acrescenta a docente do CEUB. “O acompanhamento mais estreito dos grupos mais vulneráveis, com a promoção do letramento em saúde, poderia identificar e intervir nas fragilidades identificadas no estudo, resultando em uma assistência pré, intra e pós-natal multiprofissional, humanizada e qualificada”, completa Adria.