PF prende delegados e doleiro em esquema de desvio e lavagem de R$ 300 mi

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FERNANDA ODILLA
FILIPE COUTINHO
DE BRASÍLIA

A Polícia Federal prendeu na manhã desta quinta-feira (19) dois delegados da Polícia Civil do Distrito Federal, um ex-policial e um doleiro suspeitos de participar de um esquema de lavagem de dinheiro e desvio de recursos de fundos de pensão que teria movimentado R$ 300 milhões em um ano e meio.

A polícia ainda procura dez pessoas alvos de mandado de prisão, segundo balanço parcial. A PF informou que 20 pessoas foram presas no Distrito Federal, Rio de Janeiro e Goiás.

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Desde o início da manhã desta quinta mais de 300 policiais cumprem um total de 102 mandados, sendo 5 de prisão preventiva, 22 de prisão temporária e 75 de busca, no Distrito Federal e em nove Estados.

Foram apreendidos documentos, computadores e carros de luxo, entre eles, um Porsche no Rio de Janeiro e uma Ferrari em Brasília, além de uma lancha avaliada em R$ 5 milhões.

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Pedro Ladeira/Folhapress

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OPERAÇÃO RESSUSCITADA

Entre os presos em Brasília estão o doleiro Fayed Traboulsy e o ex-policial civil Marcelo Toledo. Ambos são investigados desde 2008, numa operação chamada de Tucunaré (peixe grande) por lavagem e remessa ilegal de dinheiro para o exterior.

Investigadores disseram que a operação deflagrada nesta quinta pela PF é a “operação Tucunaré ressuscitada”. Em 2008, escutas flagraram Fayed pedindo ajuda a Toledo para que ele usasse os contatos no governo para descobrir se o doleiro era grampeado.

Toledo também foi gravado num dos vídeos da Caixa de Pandora, que apurou o mensalão do DEM no DF, perguntando sobre dinheiro do então vice-governador Paulo Octávio que seria dado a prefeitos. Fayed havia sido preso em março, numa operação da polícia do DF.

Os advogados de Toledo e Fayed estiveram na superintendência da PF nesta quinta e tentam soltar seus clientes. Ambos têm pedidos de prisão temporária e provisória. A defesa afirma ainda que as atividades dos dois são legais.

Além deles, também está na mira da polícia Carlos Eduardo Lemos, dono de empresa de consultoria financeira que, em maio, assumiu ser dono de mais de R$ 400 mil que dois homens levam na cueca ao serem detidos pela PF no aeroporto de Brasília. Ele também é suspeito de participar do esquema que, além de lavagem, envolve desvio e gestão fraudulenta de recursos de fundos de pensão de servidores de diferentes municípios.

Lemos também foi indiciado pela CPI dos Correios, no Congresso, que investigou o mensalão.

“São duas organizações distintas com membros em comum, por isso deflagramos uma única operação. Os líderes são os mesmos e ficam em Brasília”, explicou a delegada responsável pela operação, Andréa Pinho.

Segundo informações da PF, a operação batizada de Miquéias começou há um ano e meio para apurar o uso de contas bancárias de empresas de fachada ou fantasmas, abertas em nome de “laranjas” ou “testas-de-ferro”, para ocultar a verdadeira origem do dinheiro e também os beneficiários de saques que ultrapassaram os R$ 300 milhões.

Foram identificadas 30 empresas de fachada, 35 “laranjas”, sete sacadores contumazes e quatro eventuais.

DEPOIMENTO

Na manhã desta quinta, em depoimento à PF, a cabeleireira Ana Cristina de Oliveira, 25, moradora da periferia de Brasília, diz que foi usada pelo esquema sem saber. Por isso, ela aceitou logo de início colaborar com a investigação em troca de uma possível delação premiada.

Ela diz que conheceu Carlos Eduardo Rocha Marzola, o Pimenta, quando trabalhava numa loja de jogo do bicho em Brasília. Amigos, Pimenta pediu há seis anos para ela uma procuração para comprar um carro, já que a cabeleireira tinha nome limpo.

A procuração então, diz ela, serviu para que ele montasse a empresa MC Incorporação. Ana Cristina de Oliveira afirma ainda que não participou do esquema ou conhecia os envolvidos. Mas admite que sabia que a empresa estava em nome dela. Ela disse aos policiais que encontrou por acaso um cheque da empresa com o nome dela e que pediu que fosse retirado. Tempos depois ela afirma que checou os dados na Junta Comercial e não havia mais nada em seu nome.

Ao apurar o crime de lavagem de dinheiro com uso de empresas fantasmas e de fachada, a PF se deparou com outro esquema, de desvio e gestão fraudulenta de RPPS (Regime Próprio de Previdência Social) de servidores de diferentes Estados e municípios.

Segundo a polícia, integrantes do grupo aliciavam prefeitos e gestores de fundos de previdência por meio de lobistas para investir em “papeis podres” do próprio grupo, com rentabilidade baixa e alto risco de investimento.

“A aplicação era feita simplesmente porque o prefeito ou o gestor recebiam vantagem indevida. Quem realizasse investimento naquele fundo estaria fazendo um péssimo investimento”, disse a delegada, observando que a maioria dos fundos tinham investimentos apenas dos fundos de pensão de servidores abordados pela quadrilha.

Foram identificados desvios de R$ 50 milhões desses fundos previdenciários. “Pegamos só aponta do iceberg, o esquema é muito maior”, atesta a delegada.

Nessa investigação, foram verificadas irregularidades especificamente nos Regimes Próprios de Previdência Social das seguintes prefeituras: Manaus, Ponta Porã (MS), Murtinho (MS), Queimados (RJ), Formosa (GO), Caldas Novas (GO), Cristalina (GO), Águas Lindas (GO), Itaberaí (GO), Pires do Rio (GO), Montividiu (GO), Jaru (RO), Barreirinhas (MA), Bom Jesus da Selva (MA), Santa Luzia (MA).

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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