PSOL: CHICO SANT’ANNA E SUA CANDIDATURA AO SENADO

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Candidato ao Senado pelo PSol explica sua estratégia para ganhar votos Ele diz que decidiu concorrer ao ficar indignado com a crise política

 

Deu no Correio Braziliense

Chico Sant’Anna fez uma aposta ousada quando decidiu tornar-se candidato. Aceitou proposta do partido pelo qual é filiado, o PSol, para concorrer ao Senado Federal. Já na primeira vez em que disputará um cargo eletivo, vai tentar uma vaga majoritária. A princípio, o jornalista concursado do mesmo órgão para o qual deseja ser parlamentar resistiu. A motivação de Chico Sant’Anna veio da indignação. “A Caixa de Pandora mexeu muito comigo”, disse o servidor público, que explica seus sentimentos: “Não basta ficar na esquina, no barzinho à noite falando mal dos outros. Você tem que fazer alguma coisa”.
Chico Sant%u2019Anna, o principal nome do PSol na corrida por uma das vagas do DF no Senado Federal: campanha com poucos recursos - (Adauto Cruz/CB/D.A Press )  
Chico Santana, o principal nome do PSol na corrida por uma das vagas do DF no Senado Federal: campanha com poucos recursos

Movido por um desejo de mudança, o candidato decidiu participar do debate de sucessão no Distrito Federal. A contribuição que ele espera dar ao processo é a apresentação de projetos que aproximem a bancada de deputados e senadores do DF da realidade dos moradores da capital da República que, segundo acredita, se sentem distantes dos parlamentares. Entre as ideias que propõe, o concorrente fala em ativar para transporte de passageiros o Trem Bandeirantes, que vem de São Paulo e chega a Brasília; criar a Autoescola na Escola, estabelecendo que o curso para retirar a carteira de motorista ocorra no terceiro ano do ensino médio, e reduzir o mandato de senador de oito para seis anos, acabando com a figura do suplente.

Hoje, a principal dificuldade do concorrente tem sido convencer os eleitores de que há alternativas na política. “É impressionante, mas muitas pessoas não acreditam em todos aqueles vídeos da Caixa de Pandora. Acham que foi uma montagem”, relata. Nome vinculado a um partido relativamente novo, com uma performance ainda tímida nas eleições e que optou por candidatura solo em 2010, Sant’Anna comunga da visão de sua legenda de que o poder não vale a qualquer custo. “É melhor sair sozinho do que ter coligações com segmentos políticos envolvidos com o mensalão, seja esse mensalão da Câmara Legislativa de Brasília ou o mensalão do PT na Câmara dos Deputados”, acredita. Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida ao Correio:

O PSol lançou candidatura solo com o objetivo de marcar posição alternativa tanto ao grupo de Roriz quanto ao de Agnelo. Qual a diferença entre o partido com o qual o senhor concorre ao Senado e os demais?
Em primeiro lugar, a gente passa pela forma como o PSol chega a essas eleições. Quem acompanhou os processos preliminares viu que ocorreram algumas tratativas com o Partido Verde da Marina Silva. Mas, a partir do momento em que o PV fechou com o Democratas no Rio de Janeiro, para o PSol foi um ponto final. A gente não vê a eleição como um instrumento para conquistar o poder a qualquer custo. É melhor sair sozinho do que ter coligações com segmentos políticos que estão envolvidos com o mensalão, seja esse mensalão da Câmara Legislativa de Brasília ou o mensalão do PT na Câmara dos Deputados.

Por que o PSol, que adota discurso moralizador tão apropriado em tempos de crise ética, não consegue convencer um número mais expressivo de eleitores ?
Um dos problemas é o perfil da informação que chega à população, tanto em termos de conteúdo quanto de abordagem. Nas nossas andanças, encontramos até quem duvide da veracidade dos vídeos que foram exibidos na Caixa de Pandora. Dizem que é uma montagem, uma mentira. Encontramos no Paranoá um cidadão que não acreditava por nada neste mundo que o pastor Brunelli fez aquela oração, porque ele vai na igreja do Brunelli e acha que aquilo não existe. Esse tipo de informação chega para o cidadão comum pelos veículos eletrônicos de forma muito sintética e, quanto aos veículos impressos, nem toda a população tem acesso a eles. Seja por questões econômicas, ou de formação escolar. Então, dependemos de um processo de educação, de transformação. Se você me perguntar o que o PSol tem encontrado lá fora hoje, vou dizer que é uma rejeição a todo esse quadro instalado de crise, a população quer a moralização. Mas há também uma rejeição muito grande à política. O que mais se encontra é gente dizendo que vai votar em branco, nulo, que não acredita no processo. Difícil é ver quem esteja procurando uma alternativa mais séria, honesta e responsável. Além disso, o próprio processo político, com a inexistência de condições iguais, seja no financiamento de campanha ou no tempo de televisão, também cria dificuldades. O ser humano tem certa dificuldade de rever seus valores e se defrontar com informações que agridem a sua formação. Esse não é um processo que do dia para noite se consiga mudar.

O PSol foi testado nas eleições passadas, mas é relativamente novo. Acha que o partido vai conseguir melhorar a performance nas eleições deste ano, conseguindo fazer pelo menos um representante na Câmara Legislativa?
Acreditamos que na Câmara Legislativa, através da ex-secretária de Saúde Maninha, temos grande chance de fazer um representante e, eventualmente, dependendo do desempenho da legenda, fazer até mais. Para o Senado, o quadro é bastante positivo porque, segundo pesquisas, estou em empate técnico com Alberto Fraga. Ele estava com sete pontos e eu com três, num levantamento cuja margem de erro é de quatro. Então, tudo é factível. Até a semana passada, Maria de Lourdes estava impugnada. As candidaturas majoritárias do PT sofrem problemas internos, há militantes que não aceitam a coligação com (Tadeu) Filippelli (do PMDB), outros questionam o fato de não ter sido aberta vaga para alguém filiado ao PT e há ainda aqueles que não aceitam nem Cristovam (Buarque), nem (Rodrigo) Rollemberg. Tanto é que o desempenho de Cristovam é bem superior ao que o de Rollemberg. Se houvesse uma unidade de campanha, eles estariam mais próximos. O grande desafio do PSol hoje é conquistar visibilidade. No dia em que a gente conseguir sentar e conversar com os nossos eleitores e explicar as nossas propostas, aí haverá uma grande diferença nas urnas.

Como fazer esse trabalho de convencimento com um tempo de TV tão pequeno?
No corpo a corpo e com muita sola de sapato. Estamos fazendo campanha com muita intensidade. Temos uma média de sete a oito reuniões residenciais por dia, com 60 a 80 pessoas. Domingo (retrasado) a gente chegou na hora do almoço na feira de Planaltina e sentou à mesa para conversar com o eleitor. A nossa capacidade de chegar às pessoas pode até ser menor que a de um programa de rádio ou de televisão, mas a qualidade de abordagem é muito melhor. Você consegue explicar para o cidadão que o voto nulo e branco não prejudica ninguém, pelo contrário, facilita a vida de quem está na frente. Consegue explicar as propostas, providência muito importante, até porque uma das grandes queixas da população do DF é a de que o parlamentar daqui com atuação na Câmara dos Deputados está muito afastado e as pessoas não lembram de seus feitos, de nenhum ato concreto que faça alguma diferença para elas.

E quais seriam os seus projetos concretos?
Um exemplo que é uma das minhas marcas de campanha é projeto Autoescola é na Escola. Essa é uma experiência da minha adolescência, época em que tirei a carteira no terceiro ano do ensino médio, fora do país. Foi um curso de um ano. Quando eu me formei, peguei o meu diploma e também a minha carteira de motorista. A qualidade da educação de quem passa por esse período de formação é outra. Além disso, é muito caro tirar uma carteira de motorista, que custa R$ 1 mil e, quando é profissional, chega a R$ 4 mil. O que temos encontrado de jovens dirigindo sem carteira porque não têm dinheiro é grande. A carteira de motorista, seja ela profissional ou não, é um facilitador para conseguir emprego. Outra coisa que é de competência da legislação federal e pode interessar diretamente a Brasília é o trem que sai diretamente de São Paulo e chega aqui na capital. O Bandeirantes existe desde a década de 1960 e trazia passageiros para cá. Com a privatização no governo de Fernando Henrique (Cardoso), a lei que regulamentou esse processo proibiu as empresas compradoras das linhas de transportar passageiros, não sei atendendo ao lobby de quem, se das companhias de ônibus, por exemplo. Mas o certo é que hoje temos população de mais ou menos um milhão de habitantes no Entorno Sul, onde passa essa linha, e que um comboio transportaria mais de mil passageiros sentados. Um transporte muito mais barato e que acabaria com engarrafamentos. Quando você chega com propostas concretas, as pessoas falam, “nossa, é mesmo, por que isso nunca foi feito?”.

Um das particularidades desta campanha, que tem sido objeto de reclamação dos políticos, é o fato de as candidaturas estarem sem dinheiro. Como vocês estão fazendo?
Sola de sapato e gogó. Só neste mês, fiquei afônico duas vezes. O dinheiro faz diferença, mas eu consegui arrecadar até agora
R$ 4 mil. Não é nada. Dez mil folhetos custam perto de R$ 1 mil e acabam num instante. Como é que a gente arrecada? Um amigo dando um dinheirinho, um jantar que a gente faz, uma rifa. A nossa campanha é franciscana, quando sai um carro para uma satélite são seis pessoas dentro para aproveitar a viagem. Às vezes é o senador quem dirige ou o próprio governador. Por isso as reuniões domiciliares, onde as pessoas são atraídas para um ponto e, em geral, estão curiosas para saber o que você tem a falar.

É a primeira vez que o senhor se candidata. Por que tentar o Senado em vez de começar a carreira política pela Câmara Legislativa?
Fui convidado pelo PSol para me candidatar ao Senado, mas a minha primeira reflexão me levou a pensar que não, que não teria bagagem para concorrer. Isso aí foi em meados do ano passado, antes de acontecer a crise da Pandora. E o escândalo me indignou muito, mexeu comigo e culminou com o falecimento do meu pai. Uma mistura de um sentimento de perda com o de indignação me fez pensar que não basta ficar na esquina, no barzinho à noite falando mal dos outros. Você tem que fazer alguma coisa. Embora eu tenha um perfil sindical, não sou hoje uma pessoa com base política geográfica, que tenha uma liderança numa das cidades do DF, não sou uma liderança monolítica de nenhuma corporação. Então, a candidatura do Senado me permite trazer essa minha bagagem para o debate público. Existe um afunilamento natural na possibilidade de debate dependendo do cargo ao que se pleiteia. Essa entrevista mesmo não sei se teria oportunidade se fosse um dos 830 candidatos a distrital. Como candidato ao Senado é possível trazer um pouco da experiência acadêmica que vivi, do mestrado na área de integração latinoamericana e do doutorado em comunicação legislativa na França. Dá para fazer um sopão de todas essas experiências e oferecer à população para ver se o sabor agrada.

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