TEMAS ERRADOS

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Deu em O Globo

Temas errados

 

Miriam Leitão

O debate da Band foi quente, como os jornalistas gostam, não necessariamente o eleitor. Como isso vira intenção de voto é ciência que ninguém domina. Há a ideia de que agressividade, como a que Dilma exibiu, perde votos. Pode ser lenda urbana. Os temas dominantes não deveriam ser os que foram. Privatização, por ser matéria vencida. Aborto é sério demais para leviandades.

Quem tratou bem o tema do aborto foi O GLOBO no domingo: 200 mulheres mortas por ano, 183 mil curetagens no SUS. É hipocrisia não reconhecer que é uma questão de saúde pública e que é preciso ter políticas públicas para evitar o pior: reduzir os abortos e os riscos para a mulher. Tudo é trágico nesse assunto. O ideal é evitar a gravidez indesejada. Mas nada é simples.

Na saída do debate da TV Globo, no primeiro turno, Marina me disse por que não tocou no tema:

– Eu tenho minhas convicções sobre o assunto e não quero impô-las. O que me espanta são as opiniões convenientes, mas esse é um Estado laico e o assunto só pode ser decidido pela sociedade. Não quero fazer guerra santa com isso.

As pessoas podem ser contra ou a favor, mas não se pode negar que a maneira arriscada de fazer aborto é o drama das mulheres pobres. Um ex-ministro da Saúde como José Serra não pode fechar os olhos: tem que ter uma solução e não uma visão moralista.

Quando Dilma falou em “descriminalizar” estava tendo a coragem de ser sincera. Depois passou a encobrir o que pensa. Cedeu a uma visão conservadora que impede que as autoridades de saúde do Brasil encontrem soluções que reduzam os casos e protejam a mulher.

Dilma passou a acusar Serra de, ao regulamentar a lei atual, ter feito algo errado. Deu uma volta de 180 graus no que pensa, por razões eleitorais.

No Brasil, mesmo em caso de feto com anencefalia uma mulher foi condenada pelo Supremo Tribunal Federal a carregar no corpo a dor de gerar um filho sem chance alguma. Os ministros não pensaram na mulher, sua vida e sua dor. Aborto é tema doloroso e complexo. Não serve para os palanques.

Dilma tentou de novo o truque de campanhas anteriores: demonizar a privatização. Ela foi boa e modernizou o Brasil. Em 1992, só 19% das casas tinham telefone; hoje, o fixo ou o celular estão em 84% dos domicílios. Para usar uma imagem que está sendo explorada na campanha do PT: antes da privatização, telefone era coisa de rico; depois, passou a ser um serviço que os pobres têm acesso.

O Brasil ficou mais eficiente quando as siderúrgicas deixaram de ser estatais. A Vale cresceu e passou a pagar mais impostos. A lei que quebrou o monopólio do petróleo permitiu que a Petrobras tivesse parceiros internacionais, crescesse, aumentasse suas reservas. Nunca foi proposta a privatização da Petrobras. O que o governo Fernando Henrique fez foi vender ações para os trabalhadores através do FGTS e isso foi bom para a empresa, o país e os trabalhadores.

A maneira confusa como foi feita a capitalização e o excesso de politização da Petrobras estão derrubando o valor da companhia. Ela já valeu US$ 310 bilhões e agora vale US$ 215 bi. Dilma quer usar politicamente um risco inexistente.

Faltou discutir programa, mas nenhum dos dois tem programa.

Leia a íntegra do artigo em Temas errados

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