Em meio a um mercado de trabalho ainda marcado por alta informalidade, desemprego intermitente e transições frequentes entre ocupação e inatividade, o avanço das plataformas digitais tem produzido um efeito pouco intuitivo.
Embora a renda de motoristas e entregadores oscile mês a mês conforme a demanda, os dados mais recentes do IBGE indicam que, ao longo do tempo, esses trabalhadores experimentam menor volatilidade de renda do que uma parcela relevante dos demais ocupados. Em vez de alternar entre salário fixo e períodos sem qualquer remuneração, mantêm uma fonte recorrente de geração de receita, ainda que variável.
O próprio IBGE divulgou, em novembro, um estudo especial sobre o trabalho mediado por plataformas digitais, considerando aplicativos de transporte, entrega e intermediação de serviços diversos. A estimativa é que o contingente de trabalhadores cuja principal fonte de renda vem desses aplicativos cresceu 25% entre 2022 e 2024, alcançando 1,7 milhão de pessoas. Trata-se de aproximadamente 2% da força de trabalho do setor privado, entre empregados, empregadores e autônomos. No mesmo intervalo, essa força total avançou apenas 3%. A expansão do trabalho por aplicativos, portanto, supera com folga o ritmo médio do mercado.
O universo envolve plataformas como Uber, 99, iFood, Loggi e Lalamove. Nesses ambientes, a renda depende de fatores como dinâmica urbana, horário e volume de corridas ou entregas. Ainda assim, quando observada ao longo de vários trimestres, a trajetória desses trabalhadores revela flutuações menos abruptas do que a de grupos que transitam entre emprego formal, ocupações informais esporádicas e desemprego aberto.
A diferença central não está na ausência de variação, mas na continuidade da possibilidade de trabalho. O acesso permanente à plataforma reduz o risco de ruptura total da renda. Em vez de enfrentar ciclos de entrada e saída do mercado, o trabalhador permanece economicamente ativo, ajustando carga horária e intensidade conforme a necessidade. A estabilidade, nesse caso, não deriva de vínculo contratual tradicional, mas da escala da economia digital e da demanda quase contínua por serviços.
Levantamento do GigU ajuda a dimensionar o potencial financeiro da atividade. Em São Paulo, um motorista que atua 60 horas semanais registra lucro médio de R$ 4.252,24 após custos. No Rio de Janeiro, a média é de R$ 3.304,93 para 54 horas semanais; em Belo Horizonte, R$ 3.554,58 na mesma carga horária. Os valores variam conforme intensidade e localidade, mas indicam uma faixa de rendimento capaz de sustentar planejamento e alguma previsibilidade.
Isso não elimina os debates sobre proteção social ou qualidade de vida. Mas os números do IBGE mostram que o trabalho por aplicativos deixou de ser marginal para se tornar estrutural. Ao crescer muito acima da média do mercado e oferecer uma fonte contínua de renda, ainda que variável, esse modelo amplia a resiliência individual. Em um ambiente econômico instável, a possibilidade de permanecer ativo, sem longos períodos de inatividade, pode representar, paradoxalmente, uma forma concreta de estabilidade. “É uma jornada de trabalho exigente, mas a autonomia e a rentabilidade, que superam algumas ocupações tradicionais, acabam sendo grandes atrativos”, afirma Luiz Gustavo Neves, co-fundador e CEO da fintech.





