UM SEM NÚMERO DE PRETENDENTES

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Do Correio Braziliense deste domingo (14): Após o tsunami provocado pela Operação Caixa de Pandora, os políticos do Distrito Federal começam a ensaiar os primeiros passos para a corrida pela sucessão do governador afastado, preso e abatido eleitoralmente José Roberto Arruda (sem partido). Ainda de forma tímida, dirigentes de partidos iniciaram debates sobre composições e alianças, em um ritmo bem mais lento do que o registrado em outras campanhas. Mesmo assim, já há alguns avanços: mapeamento feito pelo Correio (veja quadro na página 26) mostra que pelo menos 13 pré-candidatos surgem como prováveis concorrentes ao Palácio do Buriti e constroem os discursos que pretendem apresentar ao eleitorado neste momento de crise institucional no Executivo e no Legislativo.

Há quem se apresente como herdeiro do espólio de Arruda, ou seja, colaborador das realizações dos três anos de governo que deram ao governador afastado altos índices de aprovação antes de ser fuzilado pelas denúncias de corrupção e pagamento de mesadas a secretários e deputados, escândalo que estourou em 27 de novembro. Há quem busque o caminho inverso e tente justamente se desvincular do atual governo; quem pregue mudanças radiciais nas prioridades atuais; quem pegue uma carona na chapa presidencial e quem pretenda crescer com a bandeira da moralização dos gastos públicos.

Na briga pelo espaço aberto com a derrocada de Arruda estão antigos aliados, como o deputado federal Alberto Fraga (DEM), a deputada distrital Eliana Pedrosa (DEM) e o presidente regional do PMDB, Tadeu Filippelli. Eles apostam na conquista de eleitores que não votam nos partidos da base do governo Luiz Inácio Lula da Silva, representada principalmente pelo PT, estavam satisfeitos com a administração de Arruda e não querem o retorno do ex-governador Joaquim Roriz (PSC).

Fraga é um dos que não escondem a vinculação com amigo e aliado. Foi o político que mais visitou Arruda na Superintendência da Polícia Federal (PF) e criticou publicamente a sua expulsão do partido. Chamou os correligionários de “covardes”, mas manteve uma boa relação com a cúpula do DEM. “Não tenho dúvida de que o partido vai me lançar candidato. A direção apenas pediu para dar uma segurada porque avalia que este ainda não é o melhor momento”, disse Fraga, que espera ser consagrado como presidente regional do DEM, com a intervenção decretada pela direção sob o comando do senador Marco Maciel (PE). Fraga, no entanto, terá de disputar internamente com a deputada distrital Eliana Pedrosa, que também está de olho na candidatura ao GDF e tem uma capacidade grande de articulação.

Com a força de comandar o maior partido do país, o deputado federal Tadeu Filippelli (PMDB) tem sido encorajado a se candidatar ao GDF, também com o discurso das grandes obras, uma vez que comandou a área durante oito anos do governo de Joaquim Roriz e indicou a direção da Novacap na gestão de Arruda. “Ainda não tomei decisão, mas tenho muita experiência administrativa. Fui administrador regional de três cidades, secretário de Obras, chefe da Agência de Infraestrutura, sem qualquer condenação por irregularidade”, afirma Filippelli.

O candidato da preferência do presidente Lula no DF é o ex-ministro do Esporte Agnelo Queiroz. Mas isso só aumenta a disposição do deputado federal Geraldo Magela em derrotar o oponente interno nas prévias marcadas para o próximo domingo. Diante da perspectiva real de retomar o Buriti, o PT vive uma guerra interna. Está dividido entre o grupo que quer manter Agnelo Queiroz para a candidatura majoritária e uma ala do partido a favor da realização de prévias que deem a oportunidade de o deputado federal Geraldo Magela disputar a indicação.

Em novembro do ano passado, os dois políticos chegaram ao acordo sobre a chapa que concorreria em 2010. Ela tinha Agnelo como opção para o GDF e Magela para o Senado. Mas esse acerto ruiu com o início da Operação Caixa de Pandora. Ao saber que Agnelo teve informações privilegiadas sobre o escândalo — quando aceitou convite do ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa para assistir aos vídeos antes que fossem entregues à Polícia Federal e ao Ministério Público —, Magela voltou a pleitear a indicação ao governo. A guerra interna no PT se acirrou ontem, quando foram divulgadas pela revista Época denúncias contra Agnelo. De acordo com a publicação, o petista teria comprado e reformado uma casa no Lago Sul, gastos que não seriam condizentes com suas finanças. Além disso, ele é acusado de ter invadido área pública para construir uma quadra de tênis. O deputado sustenta ter comprado o imóvel com recursos poupados por ele e pela mulher, mas o estrago político pode ser maior do que o esperado.

O ex-governador Joaquim Roriz, hoje no PSC, garante ser candidatíssimo ao quinto mandato. Na última sexta-feira, convidou o deputado federal Jofran Frejat (PR) para ser vice em sua chapa. A proposta foi aceita, mas a formalização depende do aval da direção do PR. Roriz quer vencer a eleição praticamente sem fazer campanha, apenas com a imagem já construída em seus governos. “Só vou para a rua quando a lei eleitoral permitir”, disse ao Correio. Ou seja, a partir de 6 de julho. “Uma coisa é certa: serei candidato, mas gostaria de saber quem vou enfrentar.”

Roriz mostrará ações de seu governo, mas tentará desvinculá-las da gestão Arruda. Ele diz que não teme ter a imagem vinculada às denúncias de Durval Barbosa, secretário de Relações Institucionais do governo Arruda e presidente da Codeplan na última administração Roriz. Sobre as acusações se voltarem contra ele, afirmou: “Tenho minha consciência tranquila. Se vamos fazer apuração, então voltemos ao Cristovam (Buarque). Vamos chegar ao Juscelino (Kubitschek)”.

Na semana passada, o PSDB, que nas últimas duas eleições no DF esteve a reboque de Roriz ou Arruda, tentou marcar o território da candidatura própria. A executiva e o diretório regionais decidiram lançar um nome para oferecer ao governador de São Paulo, José Serra — provável representante na disputa presidencial —, um palanque na capital da República sem qualquer contaminação de denúncias de corrupção. Os dois nomes colocados são o da ex-governadora Maria de Lourdes Abadia e o do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Maurício Corrêa. “Vamos conversar com os dois para saber qual a disposição que eles têm”, afirmou o presidente regional do PSDB, Gustavo Ribeiro.

Maurício Corrêa avalia que o Distrito Federal precisa encontrar um candidato com disposição de mudanças. Ele ainda não admite a candidatura, mas também não descarta. “Chega de aventureiros. É preciso acabar com a cultura do mal, do pedágio e da propina”, sustenta. Abadia vem se mantendo distante do debate eleitoral e tem dito a pessoas próximas que não possui disposição para uma candidatura ao GDF. A avaliação de tucanos é de que, ao entrar no páreo ao governo, denúncias relacionadas a Durval poderiam respingar em sua biografia.

Embora supostamente estivesse a serviço de Arruda, adversário eleitoral de Abadia, Durval Barbosa integrou o governo que a tucana herdou de Roriz em 2006. Ele era secretário de Relações Sindicais, cargo que lhe deu foro especial na Justiça quando já respondia a ações penais por supostas irregularidades nos contratos com empresas de informática. Abadia sempre desconfiou de que Durval agia em seu governo para beneficiar Arruda, mas não tinha poder para afastá-lo sob o risco de desagradar Roriz. Foi nesse período que Durval fez algumas gravações incluídas no inquérito da Caixa de Pandora, em que entregava dinheiro a deputados, como Leonardo Prudente (sem partido) e Eurides Brito (PMDB), ambos aliados de Arruda na campanha de 2006.

Na semana passada, o senador Cristovam Buarque (PDT) chegou a anunciar que poderia ser candidato ao GDF se fosse para enfrentar novamente Roriz. O ex-governador lançou um novo desafio: “Ele pode entrar na campanha, porque estarei lá”, afirmou Roriz ao Correio. Os dois tiveram um duelo na eleição de 1998, quando Roriz saiu vitorioso e tirou de Cristovam a chance de reeleição. Desde então, o pedetista nunca mais quis voltar ao Executivo. Dessa vez, no entanto, ele tem sido pressionado por eleitores quando vai às ruas. Como argumento para não entrar na disputa, defende que o Distrito Federal precisa de um nome novo. Esse nome seria o de José Antônio Reguffe (PDT).

Depois de três tentativas frustradas, Reguffe chegou em 2006 à sua primeira legislatura como deputado distrital com chances de uma ascensão meteórica. Pautado pelo discurso ético, passou os últimos três anos na Câmara praticamente isolado. Tinha como uma de suas bandeiras na Casa a diminuição do número de assessores e da verba indenizatória. Foi duramente criticado pelos colegas, que rejeitaram suas propostas. Com o escândalo da Caixa de Pandora, conseguiu uma projeção que colocou seu nome entre os prováveis candidatos dos partidos de esquerda.

Vislumbrando as chances reais de fazer o próximo governador, o PDT passou a ventilar a hipótese da candidatura solo de Reguffe. A ideia apoiada por Cristovam, no entanto, não é consenso na legenda. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que comanda o PT nacionalmente, quer ficar à vontade para apoiar o candidato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Distrito Federal. Se não houver consenso dentro do partido, Reguffe sairá para deputado federal. “Neste momento, não estou preocupado com a campanha. Estou muito mais concentrado na investigação desse megaesquema de corrupção”, desconversou o pré-candidato.

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