Uma fábrica de dossiês para escapar da Drácon

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As ações são para acusar rivais políticos e desviar o foco da apuração.

Correio Braziliense/Breno Fortes/CB/D.A Press –

Áudios obtidos pelo Correio mostram como distritais envolvidos na Operação Drácon, entre eles Celina Leão e Cristiano Araújo, se articularam para tentar reduzir os danos causados pela investigação. As ações são para acusar rivais políticos e desviar o foco da apuração.

 

A Operação Drácon lançou cinco distritais no centro de um dos maiores escândalos da história política do DF. Os acusados contrataram um batalhão de advogados para tentar se livrar da denúncia, mas também se articularam para acusar adversários e montar dossiês, criando uma cortina de fumaça para tirá-los do foco. Os parlamentares também se mobilizaram para arquivar os pedidos de cassação dos mandatos e, principalmente, para tentar reduzir os impactos na opinião pública. Áudios captados nos gabinetes de deputados, aos quais o Correio teve acesso com exclusividade, mostram detalhes e bastidores dessa atuação, nos 10 dias que se seguiram à deflagração da Drácon. Em busca de salvação, Celina Leão, ex-presidente da Câmara Legislativa, mirou adversários, como o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) e o distrital Chico Vigilante (PT).

 

Diálogos captados também indicam que a CPI da Saúde, criada para apurar denúncias no setor, seria um instrumento político para desviar a atenção das suspeitas de venda de uma emenda parlamentar para pagar dívidas com empresas prestadoras de serviço de UTI (leia Memória). A reportagem ouviu horas de conversas captadas em escutas ambientais, instaladas na Câmara, a pedido do Ministério Público DF, com autorização judicial. O material é periciado pelo Instituto de Criminalística da Polícia Civil, onde os diálogos serão degravados para municiar a Operação Drácon.

 

Afastada da Presidência da Casa por decisão judicial, Celina comandou uma estratégia de reação. Em vários trechos, ela e assessores se referem a questões relacionadas à família, às relações políticas e à equipe de Chico Vigilante, um dos mais críticos à atuação da deputada. Na fase das escutas, Celina também recebeu em seu gabinete Jefferson Rodrigues Filho, que invadiu e clonou o celular de Rollemberg para obter segredos do governador e favorecimentos.

 

Alvo da escuta ambiental e da denúncia da Drácon, o deputado Cristiano Araújo (PSD) também manteve várias conversas relacionadas à investigação sobre a suposta cobrança de propina para liberação de uma emenda destinada à área de saúde. A um interlocutor ele disse: “Vamos ser sinceros. Ninguém aqui é virgem”. A resposta foi: “Isso é fichinha, meu amigo”. Cristiano ainda fala em usar a CPI contra Rollemberg.

 

Em 23 de agosto, promotores de Justiça e policiais civis cumpriram mandados de busca e apreensão na Câmara, na primeira fase da operação. Dez dias depois, em 2 de setembro, voltaram ao Legislativo. A justificativa oficial para a segunda fase da Drácon foi a busca de provas sobre a destruição de arquivos relacionados à denúncia. Mas a principal meta dos policiais era retirar as escutas ambientais instaladas na etapa anterior. A polícia e o MP instalaram aparelhos nos gabinetes de Celina e dos distritais Cristiano Araújo e Júlio César. O Correio teve acesso às gravações realizadas nas salas dos dois primeiros.

 

Rival

 

Em várias conversas, Celina demonstra ódio a Vigilante, que fez denúncias a respeito da suposta retirada de computadores do gabinete da então presidente da Casa, dias antes da operação. Pouco depois da Drácon, a distrital se mobilizou em busca de dados e denúncias contra o colega. Ela convocou ao seu gabinete, por exemplo, uma antiga servidora de Chico, que havia sido demitida pelo petista e estaria disposta a fazer denúncias. Identificada como Giselle, a antiga funcionária de Vigilante ofereceu informações sobre o distrital para que Celina conseguisse “tirar o foco” do escândalo.

 

Ao chegar, a ex-servidora demonstrou preocupação em ser flagrada. “Tem como a gente desligar nossos celulares, para não estar gravando (sic)?”, questionou Giselle. A mulher alega ter sido demitida durante tratamento contra um câncer, e Celina revela interesse em explorar o caso. “O que ele fez com você não foi correto. Ele tá envolvido em todas as corrupções, transportes, saúde, ele defende esses bandidos todos”, alegou a parlamentar, na conversa. A mulher afirma que o petista teria cometido irregularidades na campanha eleitoral, na contratação de uma gráfica, mas diz que “são coisas que não têm como provar”. “Ele é um safado, um mentiroso contumaz”, acusou Celina.

 

Nessa conversa, a deputada é interrompida por um servidor, que traz um recado supostamente enviado pelo delegado Flamarion Vidal, chefe da 4ª DP (Guará). “Vim falar uma mensagem do Flamarion para você: ‘Fala para a Celina eu tô 100% com ela, se ela precisar eu fico do lado dela’”, teria dito o delegado, segundo o relato do servidor. Ainda segundo esse funcionário flagrado pelas escutas, Flamarion teria destacado Welber, um de seus homens de confiança, para acompanhar Celina em uma oitiva. O agente Welber Lins de Albuquerque trabalhou com Flamarion, mas, à época do diálogo, estava cedido pela Polícia Civil ao Ministério da Defesa. Foi requisitado uma semana antes da deflagração da Drácon para trabalhar com o ministro Raul Jungmann.

 

Ao Correio, Flamarion garantiu que apenas orientou Welber a agir em caso de uma eventual extorsão que o policial presenciasse, sem tomar conhecimento de nenhum fato relacionado. “Algema e leva para delegacia”, afirmou. Sobre o comentário do assessor de Celina, Flamarion disse: “Não falo sobre comentários alheios. Só posso dizer que somos conhecidos pela isenção no trabalho de apuração, doa a quem doer”.

 

Em outra conversa flagrada pelos aparelhos, Celina conversa com um homem identificado como Gilberto, ligado à Associação dos Profissionais de Segurança e Vigilância. A entidade seria rival do Sindicato dos Vigilantes, cujo comando é subordinado a Vigilante. Celina parece buscar mais denúncias contra o rival. O interlocutor conta que tem documentos sigilosos e apresentou denúncias ao Ministério Público do Trabalho contra o Sindicato dos Vigilantes. Também há uma gravação que mostra servidores de Celina interessados em buscar informações sobre o filho do petista. Um deles cita a importância de descobrir onde o rapaz mora, para “começar a incomodar” Chico.

 

Outro áudio mostra um diálogo entre Celina e o então secretário de Comunicação da Câmara Legislativa, André Duda. O assessor lembra que o presidente da Associação Brasiliense dos Construtores (Asbraco), Afonso Assad, testemunha da Drácon, confirmou uma reunião com deputados citados na operação. “Os meninos (outros distritais) estiveram lá, né? O próprio presidente da Asbraco disse que eles estiveram lá. Eles podem querer partir para cima de você?”, questiona Duda, que ouviu uma negativa da chefe. “Se você sai desse tiroteio salva, você salva eles. Se você afundar, eles afundam junto”, diz Duda.

 

Gargalhadas

 

Há gravações que mostram conversas entre servidores do gabinete de Celina Leão. Em um dos áudios, um funcionário faz menção a supostas denúncias contra Rollemberg. “Vem aí uma bomba contra o governador, para ele deixar de ser bandido”, diz o assessor. “O governador vai sair preso da CPI da Saúde. O mundo dá voltas, vem bomba por aí”. O assessor de Celina faz uma análise sobre a situação jurídica da chefe, que, para ele, era “tranquila”. “Hoje nosso problema é muito mais moral, do julgamento da população, do que jurídico. A merda grande é a opinião pública”, diz o assessor.

 

Em outro áudio, servidores de Celina identificados como Marcelo e Carneiro ironizam a notícia a respeito de um encontro entre Cristiano Araújo e o então diretor do Fundo de Saúde, Ricardo Cardoso. “Tratando de assuntos institucionais no Figueira Rubaiyat, em São Paulo, e não no gabinete dele?”, questionam, entre gargalhadas. Também há gravações em que servidores do gabinete de Celina Leão citam a existência de funcionários fantasmas. Há menção a uma assessora de Celina chamada Carla Daniela, que, supostamente, assinaria o atestado de presença de colegas. “Que cara de pau ficar assinando a folha de ponto de outra pessoa. Eu falei: ‘você vai ser chamada pela Polícia Federal’”.

 

O advogado de Celina, Eduardo Toledo, afirma que ainda não teve acesso ao conteúdo das escutas. A defesa apresentou um pedido de nulidade do processo, com o argumento de que elementos de medidas cautelares da Drácon não foram disponibilizados às partes. Sobre as conversas de Celina com rivais de Vigilante e com Jefferson, o homem que clonou o celular de Rollemberg, o defensor nega que Celina tenha buscado contato com adversários de seus rivais. “A Celina foi procurada por essas pessoas e registrou isso na segurança da Câmara Legislativa”, explica Eduardo.

 

Sobre a menção ao delegado Flamarion, o advogado rechaça veementemente qualquer possibilidade de interferência da cliente nas investigações. Ele lembra que, à época da operação, a Polícia Civil estava em guerra com Rollemberg, e a menção ocorreu nesse contexto político. “É importante lembrar que a Drácon foi conduzida pelo Ministério Público. Essa manifestação de apoio é natural dentro do contexto em que ocorreu a gravação”, argumenta Toledo. Flamarion, ex-delegado-chefe da Decap (Delegacia de Combate a Crimes contra a Administração Pública), é considerado oposição interna ao diretor-geral da Polícia Civil, Eric Seba.

 

Vamos ser sinceros: Ninguém aqui é virgem”

 

Para Cristiano, CPI da Saúde “seria útil para deixar claro que o suposto esquema não passa de grande armação”

 

Apontado pelo ex-secretário-geral da Câmara Legislativa Valério Neves como o responsável pela conquista do “negócio das UTIs”, o deputado Cristiano Araújo (PSD) confirma, nos áudios aos quais o Correio teve acesso, “que levou o assunto aos distritais”. Receoso com o andamento da Operação Drácon, o distrital dedicou horas dos dias subsequentes à deflagração das investigações aos debates sobre os possíveis desdobramentos do caso — cassação do mandato, condenação judicial, prejuízos à reeleição e, até mesmo, prisão de parlamentares em exercício.

 

O parlamentar garante aos interlocutores, sucessivas vezes, que não fechou o acordo sob investigação na Drácon, apenas admite que agiu como intermediador. “Eu não fiz o negócio. Eu levei o assunto, cara. Eu não pedi nada pra ninguém, tanto é que viajei. Agora, os bispos (Renato Andrade e Julio Cesar) vão ficar mentindo até a última hora”, conta. O parlamentar do PSD acrescenta: “Aí, fui falar: ‘Porra, fala se vocês foram ou não foram’; ‘Ah, a gente foi lá mesmo. Tivemos a conversa’”, completa. Segundo o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), Cristiano era o intermediário da propina com empresas da área de saúde. O montante acertado seria de 10% do valor liberado, cuja previsão era de R$ 30 milhões. Cristiano e os deputados Celina Leão (PPS), Raimundo Ribeiro (PPS), Bispo Renato (PR) e Júlio César (PRB) foram denunciados por corrupção passiva.

 

Nas conversas captadas pela escuta ambiental instalada em seu gabinete por policiais civis e membros do Ministério Público, com autorização judicial, Cristiano destaca a morosidade do sistema judiciário brasileiro e aponta que, na Câmara Legislativa, “ninguém é virgem”. O parlamentar sugere que, nas condições políticas da Casa, seria improvável o andamento do processo de cassação. De fato, as representações da Drácon acabaram sendo suspensas pelo então presidente do Legislativo local, Juarezão (PSB).

 

Cristiano Araújo revela, nos diálogos, que teve o apoio do ex-deputado Leonardo Prudente, condenado por improbidade administrativa na Operação Caixa de Pandora. Ele é pai de Rafael Prudente (PMDB), corregedor da Casa até o fim do ano passado. Em um encontro, segundo Cristiano, Leonardo recordou-se do momento em que teve o mandato ameaçado na Câmara, em 2010. À época, Cristiano teria garantido que “não iria fazer nada”. “A mesma conversa que você teve comigo… Eu não esqueci nada daquilo lá (…) Olha, não quero f… ninguém. Ele (Rafael) vai te defender à medida que não indisponha ele”, teria dito Leonardo Prudente.

 

Reeleição

 

Em dezenas de diálogos, Cristiano Araújo aponta as pendências na Justiça e mostra não se preocupar com uma condenação rápida, que minaria seus planos para a eleição de 2018. “Em todas as possibilidades que a gente analisa, mesmo que venha uma condenação, não contamina a minha eleição. A gente tem muita coisa a fazer, tem STJ, STF, TCU, é um processo confuso”, ressalta. Apesar das especulações, em uma das gravações, o distrital discute com assessores a possibilidade de pedido de prisão contra os parlamentares investigados. Nesse momento, lê o voto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso Mello sobre o tema.

 

Assim, o distrital sugere a necessidade de “sair do foco” para se poupar. “Nesse ambiente, com o governador puto, ele deve estar colocando a Polícia Civil toda de olho na gente”, diz. E acrescenta, aconselhando cautela ao interlocutor: “Se pisar fora…”.

 

Para deixar os holofotes, logo após a deflagração da Drácon, Cristiano afastou-se da CPI da Saúde, na qual ocupava a Vice-presidência. “Se a gente sai da CPI, sai do foco. Mas, por outro lado, não tem como atacar o governo e nem se defender lá dentro, né?!”, reflete. Após inúmeros debates, o deputado e os interlocutores classificam a permanência como “insustentável”. A exemplo de Cristiano, Bispo Renato Andrade (PR) também deixou a CPI.

 

Bispo Renato, inclusive, é considerado pelo parlamentar como um dos envolvidos em situação mais crítica. “O bispo é o mais enrolado. Tem o assessor dele. Gravação dele”, afirma, referindo-se a Alexandre Braga Cerqueira, suspeito de ocultar provas antes da deflagração da Drácon para obstruir as investigações. O ex-servidor foi flagrado pelo sistema de câmeras de segurança da Casa retirando caixas de documentos e equipamentos no mesmo andar onde funcionam os gabinetes da Mesa Diretora, em 20 de agosto. Com esse cenário, Cristiano avalia: “Nós não estamos nem 1/3 do que nego ‘tá’ enrolado”.

 

Enfrentamento

 

Ao Correio, Cristiano Araújo comentou os diálogos. Em primeiro lugar, defendeu que, ao dizer “que levou o assunto aos distritais”, referia-se não ao suposto esquema, mas, sim, à demanda de diversos setores, como construção civil, vigilância e saúde, os quais obtinham dezenas de débitos em aberto com o GDF e demandavam o recebimento dos valores.

 

Depois, o parlamentar disse não se recordar do diálogo com Leonardo Prudente. Sobre o uso da CPI da Saúde para atacar o governo e preservar-se, explicou que “àquela época, estava em uma linha de enfrentamento com o governo, pela solicitação de demandas da população”. E acrescentou: “A CPI seria útil para deixar claro que o suposto esquema não passa de grande armação”. (AMC, HM e AV)

 

Memória

 

Emendas, propina e denúncia

 

A Polícia Civil e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) deflagraram, em 23 de agosto do ano passado, a Operação Drácon. A ação, motivada pela entrega de áudios de deputados distritais gravados por Liliane Roriz (PTB), investiga um suposto esquema de uso de emenda parlamentar para o pagamento de unidades de terapia intensiva (UTIs) mediante cobrança de propina. O conchavo, conhecido como UTIgate, seria integrado pelos membros da Mesa Diretora afastados pela Justiça: Celina Leão (PPS), Raimundo Ribeiro (PPS), Bispo Renato Andrade (PR) e Julio Cesar (PRB); além de Cristiano Araújo (PSD).

 

Na primeira fase da operação, cumpriram-se mandados de busca e apreensão nos gabinetes e nas casas dos parlamentares envolvidos, com o intuito de buscar indícios que confirmassem a existência da articulação. Após as primeiras ações da Polícia Civil, o distrital Chico Vigilante (PT) afirmou que um servidor da Câmara Legislativa o informou sobre retiradas de provas da Casa. Assim, em 2 de setembro, pela segunda etapa da ação, a Polícia Civil voltou ao Legislativo local. Dessa vez, para apurar a possibilidade de destruição ou alteração de evidências referentes ao caso.