ZULEIDO, FAMÍLIA SARNEY E O BISPO

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Agenda de Zuleido Veras registra doação de R$ 1 milhão para campanha de Roseana

A senadora virou ‘Dama’em certos registros da agenda

A imprensa teve acesso às anotações da agenda de Zuleido Veras – dono da construtora Gautama, acusado de fraudar licitações de obras públicas, apreendida pela Polícia Federal durante a Operação Navalha, desencadeada em maio de 2007. Os registros trazem mais indícios – todos consistentes – de que Zuleido Veras e a família Sarney mantinham estreitas ligações.
Esse relacionamento íntimo se expressou particularmente em períodos pré-eleitorais. Em 2006, por exemplo, ano em que Roseana Sarney perderia as eleições para Jackson Lago, ela teria recebido exatamente R$ 1 milhão, valor anotado na agenda de Zuleido no dia 14 de julho como total para ajuda de campanha política no Maranhão.
Restam poucas dúvidas de que toda essa dinheirama foi parar na campanha de Roseana. Em 16 de agosto de 2006, a agenda de Zuleido registra a entrega R$ 200 mil para a senadora, conforme noticiado pela revista Veja naquele ano. Em 16 de agosto, mais R$ 200 mil foram anotados em seu nome. E em 27 de setembro, Roseana – agora identificada como “Dama” – teria recebido mais R$ 600 mil.
‘Generosidade’ programada – A “generosidade” de Zuleido Veras para com o clã Sarney foi devidamente programada meses antes. Em 6 de maio, a agenda do empreiteiro registra de forma clara: “reunião com Roseana”. Depois, em 27 de maio, Zuleido anota na agenda: “ajuda campanha política para Roseana” e para um certo “S” no Amapá. Desde 1990, o senador José Sarney se elege pelo estado do Amapá. O Amapá era o estado do Brasil em que a Construtora Gautama tinha as suas maiores obras. Porém, jamais foi investigado na Operação Navalha. Já em 29 de junho, Zuleido registra na agenda, para não esquecer: “visita a Roseana”.
Roseana, José Sarney, Ernane Sarney e a mulher, Shirley: a PF e o Ministério Público sabem do envolvimento deles nos “negócios” de Zuleido Veras.
A ‘Dama’ da Gautama – Pode-se questionar se a tal “Dama” da Gautama seria mesmo Roseana Sarney, mas certos indícios de que se trata efetivamente da senadora são bem robustos.
Está anotado na agenda de Zuleido Veras, por exemplo, que o filho do empreiteiro, Rodolpho, se reuniu com Roseana Sarney em 14 de abril de 2006 para tratar de interesses da Gautama no Maranhão. Os temas eram os seguintes: “R$ 63.000,00 – Roseana”, “apoio à adutora” (Sistema Italuís); “licitação da BR-402”; “Ministério das Minas e Energia; “LT (linha de transmissão) da Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes” (no Amapá).
Três dias depois (17.04.06), a agenda registra uma reunião com uma certa “Dama” e os assuntos tratados em tal encontro são exatamente aqueles apontados em 14 de abril para serem conversados com Roseana Sarney.
A anotação “R$ 63.000,00” pode ser interpretada como o pagamento de mais uma propina para “empurrar” projetos da Gautama no Maranhão, no Amapá e junto ao Minsitério de Minas e Energia. Pelo que escreveu, Zuleido Veras acreditava que Roseana seria novamente governadora do Estado em janeiro de 2007 e, com isso, poderia destravar as obras de duplicação da adutora Italuis, embargadas pelo TCU, e, quem sabe, direcionar a licitação da BR-402 (que interliga Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses, e Parnaíba, no Piauí). A licitação, que tinha a Gautama como uma das concorrentes, foi realizada em março de 2007, já no governo Jackson Lago, mas a vencedora foi a construtora Sucesso, do grupo Claudino, a mesma que, no governo Roseana, construiu o primeiro trecho da BR-402.
“LT”, nas anotações de Zuleido, estaria se referindo à “linha de transmissão” da hidrelétrica “Coaracy Nunes”, de Macapá, obra federal de responsabilidade do Ministério das Minas e Energia, que tinha Silas Rondeau, afilhado político de José Sarney, como ministro. A Gautama, provavelmente, gostaria da “preferência” da Eletronorte, órgão do MME, para implantar a linha de transmissão.
‘Forcinha’ de José Sarney – As anotações constantes na agenda levam a crer que, em troca de sua presteza financeira, Zuleido Veras pediu a Roseana Sarney que patrocinasse os interesses da Gautama perante o governo federal. Isso fica claro pelo pedido – registrado na agenda no dia 17 de abril de 2007 – da edição de uma MP (Medida Provisória) para a obra do entorno do aeroporto de Macapá. Essa medida provisória foi publicada e aprovada posteriormente pelo Senado.
Sobre a obra do aeroporto de Macapá, cujos recursos, todos de origem federal, foram conseguidos por emenda do senador José Sarney, pesam inúmeras suspeitas. O mesmo pode se dizer da obra do entorno do aeroporto de Macapá, várias vezes referida na agenda de Zuleido Veras. O empreiteiro anota na agenda, em 27 de maio: “Medida Provisória Macapá – fazer carta”.
Italuis – Registra ainda a agenda, em 26 de julho: “projeto do governo Roseana” e “Italuis”. Foi no governo Roseana Sarney que a Gautama foi contratada, para fazer a obra da adutora de Italuis. Para gerir o contrato milionário celebrado com a Gautama, Roseana Sarney designou um engenheiro baiano de nome Tadeu Almeida de Oliveira Pinto, nomeado presidente da Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão (Caema). Este mesmo Tadeu, antes de ser presidente da Caema, havia sido funcionário da Gautama.
Depois de ser demitido da Caema pelo governador José Reinaldo Tavares, Tadeu voltou a trabalhar para Zuleido Veras, dessa vez na Ecosama, empresa de propriedade do dono da Gautama e que presta serviços de saneamento em Mauá (São Paulo).
O ‘irmão 10%’ de Sarney – Em 28 de julho de 2006, a agenda registra R$ 200 mil para a “Dama”. Ainda nesse dia, a agenda registra “AERO – 200” e “ERNANE – 20”, possivelmente indicando a origem dos recursos (obra do aeroporto de Macapá) e mais R$ 20.000,00 para Ernane César Sarney Costa, irmão mais novo de José Sarney.
Ao que parece, Ernane Sarney recebia 10% daquilo que era destinado a Roseana Sarney. Reportagem publicada no Jornal Pequeno mostra que a PF apreendeu, no decorrer da Operação Navalha, extratos bancários que comprovam depósitos da Gautama no valor total de R$ 10 mil na conta de Shirley Duarte Pinto de Araújo, mulher de Ernane Sarney e assessora de Roseana.
Como se vê, os indícios que comprometem Roseana e outros integrantes do clã Sarney, originados da agenda de Zuleido Veras, certamente são bem mais consistentes do que aqueles que levaram o Ministério Público Federal a denunciar vários dos réus na Operação Navalha. Porém, de forma estranha, ninguém da família Sarney foi indiciado. Resta saber quem os protege. Sarney usa a Justiça para tentar calar a imprensa sobre o assunto. É inaceitável! Enquanto sua família enriquece cada vez mais no Maranhão, o estado empobrece. E o bispo? Aguardem as próximas edições.

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