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    O candidato

    ocandidato

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    (Imagem: Pinterest, do álbum de Ken Boostrom)

     

    – O amigo fique sabendo que hoje me sinto mais leve, como há tempos não acontecia.

    – Ah é? Posso saber o motivo desse ar assim tão satisfeito?

    – Poder até pode, mas sabe como é, né? O assunto nem é muito bom de se conversar assim, numa fila de banco…

    O outro deu um sorriso amarelo e calou-se. Para por um fim na conversa e dissimular a curiosidade, passou a ler as instruções de uso impressas na embalagem de um inseticida para plantas, que trazia numa sacola. “Vai ver, o assunto do levezinho aí é mulher”, pensou.

    – Mas o amigo fique à vontade, se não quiser conversar a respeito. Eu não lhe confessei o motivo de meu alívio, e penso que não seria justo deixar assim a coisa no ar…

    – Sim ? – o primeiro gemeu erguendo as sobrancelhas, mas sem desviar os olhos da embalagem de inseticida.

    – Pois então, o motivo é a política.

    O leitor das instruções de uso enfiou a embalagem de inseticida na sacola, arregalou os olhos e desligou-se do mundo para entregar-se à conversa.

    – Ah, é?

    – É. A soberana voz do povo falou mais alto e não elegeu a maioria dos candidatos que nos torturaram pela tevê, pelo rádio, pelos alto-falantes, pelo telefone fixo, pelo telefone celular, pela imundície das ruas, pelo discurso mentiroso, pela falta de projetos, pela falta de respeito…

    Só a sacola com o inseticida para plantas do petrificado leitor das instruções de uso, agitada pela brisa, fazia algum movimento. O levezinho então parou e tocou o braço do outro:

    – Tudo bem com o amigo? Algum problema?

    – Claro… claro… quer dizer, nenhum problema. Eu prestava atenção no que o senhor falava.

    – Pois é, é o que digo. E os nomes dos candidatos? Fiz questão de guardar o santinho daquele que, a meu ver, foi a derrota mais merecida, a que me lavou a alma.

    – Quem era ele? – perguntou o leitor das instruções.

    O levezinho remexia os bolsos, tirava montes de papel dobrado – receitas médicas, volantes de loteria, fichas de caixa, contas…

    – Ô, gente, cadê o danado? Tava aqui…

    O outro espichava o pescoço, enfiava os olhos pelos bolsos do levezinho, chegou a deixar no chão a sacola para desocupar as mãos que, inquietas, queriam ajudar na procura.

    – Ah, achei! Tá aqui o desgraçado! – e o levezinho sacou, de dentro de uma conta, o santinho que procurava. Orgulhoso, exibiu-o como um troféu de caça ao leitor das instruções.

    – Olha aí o campeão da chatice universal: Tadeu Tingole! Encheu o meu saco, encheu o saco de todo mundo na minha rua, no meu bairro…

    Aqui, o levezinho fez uma careta, ensaiou trejeitos e começou a cantar o jingle do candidato derrotado.

    – Todos juntos com o Tingole / que é bom, que não é mole… Bem feito, foi engolido!

    O leitor das instruções olhava o santinho do candidato e devolvia o olhar para o levezinho, que continuava a cantar o jingle do Tadeu Tingole.

    – Mas o senhor não desconfiou de nada não?

    – Se desconfiei? – perguntou, alegre, o levezinho. – Desconfiei de tudo desse sujeito aí, por isso fiz a maior campanha contra ele.

    Segurando a sacola com a embalagem do inseticida, o leitor das instruções tinha o rosto vermelho, as narinas anunciavam um fogaréu. Súbito, estendeu a mão direita, pegou a mão do levezinho, e antes que este desse pela coisa, apertou-a dizendo com ironia:

    – Muito prazer, eu sou o Tadeu Tingole. Desde já, considero-o dispensado de votar em mim no próximo pleito. Passar bem!

    Disse e retirou-se, pisando duro. A mulher que estava à frente do levezinho desabou em gargalhada.

    – Desde o começo eu achei a cara dele parecida com a do Tadeu Tingole…

    – Mas ele no santinho tem cabelos pretos e lisos, olhos claros e aparenta não mais que 35 anos. Esse cara que estava aqui é meio careca, cabelos grisalhos, olhos escuros e tem mais de 50 anos. Como é que eu ia adivinhar que era o Tingole?

    – O senhor não sabe não? Meu neto disse que é esse negócio de computador. Tem um programa que bota a gente novinha na fotografia…

    O levezinho não sabia o que dizer, mas a mulher continuava a falar.

    – O senhor não acha que seria muito melhor um programa que pusesse a gente novinha de verdade? – perguntou piscando o olho para o levezinho, que guardou o santinho do Tadeu Tingole no bolso e não quis mais saber de conversa.

     

     

    Fonte: Eduardo L. Resende

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    Deve ler

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