Deu na Folha: Parentes de presos comuns reclamam dos ‘privilégios’ de políticos na Papuda

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FLÁVIA FOREQUE
DE BRASÍLIA

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Nos dias de visita, algumas centenas de mulheres começam a se aglomerar, a partir das 4h da manhã, no “curral”, nome dado à grade em que elas se apoiam para, em fila, receber a senha para visitar os presos do Complexo Penitenciário da Papuda.

Essa é a primeira etapa para o ingresso no local, onde estão os presos do processo do mensalão –como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-tesoureiro nacional do PT Delúbio Soares.

Ainda será necessário passar pela revista, scanner corporal e “banquinho”, dispositivo que apita caso identifique qualquer aparelho eletrônico levado pelo visitante.

“A gente é tratado como bandido também”, reclama Maria Aparecida Nunes, 44 anos. Há dois anos ela visita o sobrinho, preso por tentativa de homicídio.

A empregada doméstica D.N., 38, reconhece que alguns episódios contribuem para o rigor adotado. “Aqui já teve mulher de 78 anos com droga dentro da bengala. Por conta de uma, todas pagam.”

Toda semana ela visita o marido, mas tem preferência no acesso ao presídio: o companheiro é “xepeiro”, lava a marmita servida aos presos, apelidada de xepa (restos de comida). Mas, assim como as outras mulheres, precisa cumprir todos os pré-requisitos para ter acesso aos pátios onde acontece a visita.

Sergio Lima/Folhapress
Os senadores Humberto Costa, Jorge Viana, Paulo Paim, Wellington Dias, José Pimentel e Eduardo Suplicy indo vistar presos
Os senadores Humberto Costa, Jorge Viana, Paulo Paim, Wellington Dias, José Pimentel e Eduardo Suplicy indo vistar presos

ROUPAS BRANCAS

Todo o vestuário deve ser de cor branca. Nos pés, “sandálias de dedo com solado fino, de cor clara, sem miçangas, pingentes ou fivela metálica”, como detalha a regra de acesso às prisões do DF.

Ao todo, 10.294 presos cumprem pena ali. O local herdou o apelido da proprietária da fazenda onde hoje está o complexo. Por ter desenvolvido uma doença que a deixou com “papo” –possivelmente bócio– recebeu a alcunha de “Papuda”.

A visita ali acontece às quartas e quintas-feiras, das 9h às 15h. É durante esse período que as esposas podem ter 30 minutos de encontro íntimo com o parceiro, no “parlatório”, nome dado à sucessão de quartos disponíveis para quem é casado ou comprove ter relação estável.

A estrutura não agrada: pela rigidez da cama, o móvel ganhou o apelido de “quebra-cabeça”. Como os namorados não têm acesso ao espaço, foi preciso improvisar. Sob a vigilância de um detento, alguns banheiros do pátio são transformados em “parlaboi”, onde os casais conseguem ter a privacidade que desejam.

Foi no presídio que Érica Silva, 36, engravidou do terceiro filho. Na última quinta, ela aguardava sua vez na fila para contar a novidade ao marido, preso por tráfico.

“A família gostou, mas eu chorei tanto… Tudo vai diminuir, não vou poder trabalhar com química e cuido dele e dos meninos com meu salário de cabeleireira.”

Muitas mulheres não se conformam com o que consideram tratamento privilegiado dado aos visitantes dos condenados no mensalão. E reclamam da romaria de políticos que foi visitar a cúpula petista. As visitas, nestes casos, não se limitaram aos dias estabelecidos e não seguiram as limitações impostas aos visitantes “comuns” do Complexo da Papuda.

Fonte: Folha

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