SUPERLATIVOS

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Por Eduardo Lara Resende
Não nos basta apenas ser mais velozes, mas queremos cada vez mais tudo o que nos coloque ao menos um pouco acima em relação ao nosso vizinho. É urgência-urgentíssima ter, como condição indispensável para ser. Ainda que poucos consigam alcançar um nível de ‘perfeição’ que, ilusoriamente, nos coloca frente a frente com a felicidade suprema, seguimos fazendo o possível para atender aos apelos da máquina que promete nos fazer rápidos, maiores e melhores.
O camelô que vende abacaxis informa na placa que seu produto “é doce no superlativo absoluto sintético” (há quem assegure ter visto gente rodeando a carrocinha do homem, à procura do local onde estariam os abacaxis mais saborosos). Na vitrine da loja de eletroeletrônicos, a chamada era para a “hiper-extra-mega-big-grande-giga liquidação”.
Já não nos satisfazemos com pessoas normais, produtos e serviços de qualidade ou iniciativas humanamente compreensíveis. A vaga é para auxiliar administrativo da microempresa, mas a capacitação exigida é quase a de um executivo. Só a remuneração é vergonhosa, aviltante. Alguém dirá que são as regras do mercado, que o mundo é assim mesmo. Não, não é. Nós é que o fazemos assim.
O “excepcional”, o “fantástico” e o “extraordinário” são dispostos diante de nós o tempo todo. O modelo do carro novo é o melhor que há em desempenho, economia, conforto e beleza. O lançamento imobiliário é destaque por qualidades jamais oferecidas. O supermercado é hiper, o computador e o celular ficam lentos e ultrapassados em pouco mais de trinta dias. Estamos já cansados do equilíbrio e da mediania. Bom senso é termo que cheira a velharia, tem jeitão de passado.
Bem poderíamos repensar essa mania de grandeza que nos seduz, ao mesmo tempo em que dirige nossos passos à monumental solidão que nos espera – nós, os bons, os velozes e os melhores. De nada valerá tanto superlativo se a maioria mal sobrevive, encolhida e silenciosa diante de necessidades nunca atendidas.
Hiper, mega, extra, big, grande e giga deveria ser o esforço dos bons, velozes e melhores – sobretudo lideranças – para que uma incontável multidão levasse uma vida normal.

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