Talles Murilo Lopes*
Brasília assiste, entre atônita e indignada, ao espetáculo de horrores que se tornou a rotina das delegacias do DF. O que deveria ser um ambiente de cooperação pela justiça virou palco de confrontos violentos promovidos por figuras que ostentam a carteira da OAB como se fosse uma licença para delinquir. A pergunta que não quer calar nos corredores da PCDF e que a sociedade brasiliense exige resposta é: a Ordem virou refúgio para quem foi escorraçado da lei?
O contraste beira o ridículo. Para ser policial, juiz ou promotor, o cidadão é revirado do avesso; qualquer mancha no passado é barreira intransponível. Já na OAB, o critério de “inidoneidade moral” parece ter sido enterrado. Como explicar que um sujeito expulso da PMDF por crimes graves, ou um condenado por estupro — possa circular livremente em áreas restritas de delegacias sob o manto sagrado das “prerrogativas”?
A Fábrica de coitadismos
A desculpa esfarrapada da “ressocialização” e de que “as penas não são perpétuas” virou muleta para o corporativismo mais tacanho. Ninguém nega a segunda chance, mas dar o poder de representar a lei a quem a estuprou é um tapa na cara das vítimas e dos profissionais honestos. O que vemos em Samambaia e Planaltina não é o exercício da advocacia; é o crime organizado ou o desvio de caráter fantasiado de beca, testando os limites do Estado sob a complacência de uma Ordem que se cala para os seus, mas ruge contra quem trabalha.
OAB-DF: cúmplice ou vítima?
A agilidade da OAB em gritar “abuso de autoridade” contra policiais é inversamente proporcional à sua vontade de limpar o próprio quintal. Ao abrir as portas para egressos do sistema prisional e expulsos de instituições, como a PMDF, a Ordem não está sendo democrática; está sendo perigosa. Ela está armando, com imunidades, indivíduos que já provaram não ter o menor apreço pela ética.
O Exame de Ordem não basta
Não adianta saber a letra da lei se o indivíduo não tem dignidade para portar o título. Brasília é a capital da República e não pode aceitar que sua justiça seja operada por quem deveria estar, no mínimo, sob vigilância — e não em audiências. Se a OAB não tiver a coragem de instituir uma investigação social rigorosa e expulsar as maçãs podres, ela perderá o direito de falar em nome da cidadania.
O escudo das prerrogativas serve para proteger a liberdade, não para blindar bandidos travestidos de doutores. A conta da impunidade está chegando, e o boleto tem o timbre da Ordem.
*Talles Murilo Lopes, 38 anos, é escrivão da Polícia Civil do Distrito Federal e diretor executivo de Comunicação do Sinpol-DF. É especialista em ciências criminais pela PUC Minas. Tem experiência em inquéritos complexos e analisa a legislação de combate ao crime organizado com foco em prova técnica e inteligência patrimonial.





