FILIPPELLI E A ‘NOVA’ POLÍTICA

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Do Correio Braziliense – Filippelli acredita que aliança PT-PMDB se deu por uma nova política

Ricardo Taffner

'A população  não permite mais  erros políticos', diz Filipelli (Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press )
“A população não permite mais erros políticos”, diz Filipelli

Considerado um dos principais articuladores da ampla aliança que levou Agnelo Queiroz (PT) à vitória das eleições, o próximo vice-governador do Distrito Federal, Tadeu Filippelli (PMDB), precisa provar a cada dia aos colegas de chapa que será um companheiro fiel. Durante a campanha, o peemedebista foi chamado pelos adversários de traidor. Na comemoração do resultado das urnas, em 31 de outubro, foi a vez de os militantes da própria coligação o vaiarem. Mesmo assim, ele diz não guardar mágoa de nenhum dos críticos.

Aparentemente resignado, Filippelli acredita que as ofensas diminuirão quando seus detratores perceberem que não houve uma aproximação por interesse ou conveniência. Com o mesmo discurso dos líderes das demais legendas do grupo, o presidente do PMDB-DF prega a harmonia em prol de um projeto de mudança na história política do Distrito Federal. Uma história que poderia ter sido diferente caso não tivesse ocorrido a maior crise política da cidade, causada pelas investigações da Operação Caixa de Pandora.

Há um ano, o peemedebista conversava com diferentes grupos para definir com quem estaria em 2010. Além do Partido dos Trabalhadores, Filippelli manteve negociação com o DEM, do então governador, José Roberto Arruda. “Mas em todas as conversas, nunca ficou compromissado um projeto para 2010, e sim um exercício para o governo do DF”, garante. Ele buscou o novo caminho após brigar com a sua principal referência política, Joaquim Roriz (PSC), de quem se tornou adversário. “Se alguém mudou de lado, não fui eu”, diz.

Com a vitória imposta ao ex-aliado, ele ganhou mais destaque e relevância no cenário político. Se já era forte, garantiu-se como um dos principais nomes para a disputa de 2014 — fato que procura deixar de lado, no momento, a fim de evitar qualquer cisão no novo grupo e para se dedicar aos próximos quatro anos. Com quem Agnelo estará no futuro? “Isso, só a história poderá dizer”, responde.

Qual foi a sua sensação ao vencer Joaquim Roriz nas urnas?
Essa disputa não pode ser levada para o aspecto pessoal. O esforço para o entendimento entre PT, PMDB e outros partidos não foi uma ação entre amigos, uma busca de favores ou uma disputa com Roriz em função de divergência pessoal. Foi uma consciência que moveu todos os 11 partidos, de um compromisso com Brasília. Vencer essa eleição, diante da história que sempre dominou o Distrito Federal, marca um novo momento. O rompimento foi a forma de recomeçar a história política local. Foi uma grande batalha, com o sentimento de uma vitória muito importante para o DF.

Mas a disputa pessoal deve ter existido, uma vez que o senhor tem uma história ligada ao ex-governador interrompida recentemente, com a saída
dele do PMDB.
Se a gente voltar um pouco no tempo e pesquisar as notícias veiculadas, vai ver uma declaração minha e outra do Roriz. Ele disse: “Se eu perder no PMDB nacional, deixo o partido”. Eu dizia: “Se eu perder, permaneço”. Sempre tive a consciência de estar construindo alguma coisa, não de caráter pessoal, mas de compromisso partidário. Prevaleceram um novo pensamento e uma nova vertente dentro do PMDB. Foi isso que deu início a essa caminhada. Se isso foi encarado pela outra parte como uma disputa pessoal, não posso assegurar. Da minha parte, encarei como um desafio a ser vencido. Parte já foi vencida com a vitória inquestionável da eleição. Mas a votação que recebemos imputa uma responsabilidade muito grande. Vamos assumir um governo que vem de uma sequência de crises. A população não permite mais erros políticos.

O senhor foi muito criticado pela outra coligação. Houve traição?
Exerci o meu primeiro mandato pelo PMDB, assim como o segundo, o terceiro e o quarto mandatos. Minha quinta eleição também foi pelo PMDB. Se alguém mudou de lado, não fui eu. Estou no partido que nacionalmente está com o PT.

Ficou alguma mágoa?
De forma alguma. Tenho de reconhecer que o início da minha vida política foi com Roriz. Não podemos negar que construímos coisas boas para Brasília. Logicamente, em determinado momento, eu segui um caminho e ele seguiu o outro.

Esse caminho tem volta?
Isso, só a história poderá dizer. Neste momento, tenho convicção de que o melhor para Brasília é um Novo Caminho (nome da coligação liderada por Agnelo).

Qual foi a importância do PMDB na vitória de Agnelo?
A mesma importância dos demais partidos. Se olharmos as eleições anteriores, veremos que Brasília é uma cidade onde o PT sempre teve um belo patrimônio, mas a soma de todos os outros votos era maior do que os dos petistas. A partir dessa aliança, conseguimos ganhar a eleição.

Na sua avaliação, seria possível vencer sem o PMDB?
Seria muita arrogância minha dizer que não venceria, mas acho que o PMDB ajudou muito na construção da vitória.

Existiria a possibilidade de outra composição de chapas, caso não houvesse a Operação Caixa de Pandora? O senhor poderia estar do lado do ex-governador José Roberto Arruda?
Sempre existiu. Vários partidos que compõem a nossa coligação estiveram no governo Arruda durante os três anos. O PMDB esteve com o governo por 10 meses e 15 dias. O próprio ex-governador Roriz tinha posições simpáticas ao governador Arruda e participou inicialmente de uma forma muito próxima, com indicação de diretorias de empresas, etc. Quando houve a abertura de interlocução com o governo Arruda, fiz questão de dar conhecimento ao PT, com quem eu desenvolvia conversações. Mas em todas as conversas que tivemos com Arruda, nunca ficou compromissado um projeto para 2010 e, sim, um exercício para o Governo do DF.

O senhor ficou magoado com as vaias que recebeu na comemoração da vitória, a Esplanada?
De forma alguma. Ninguém acreditava nessa aliança, mas conseguimos construí-la e sair vitoriosos. Essa construção continua, porque devem ser formadas as bases de confiança. Tem um segmento mais radical dentro do PT que, com certeza, demorará mais um pouco a responder a isso. Vai passar quando entenderem que não existiu uma coligação de conveniência. A partir de janeiro, não haverá um governo em céu de brigadeiro. Pelo contrário, será uma grande pedreira. Vai exigir sacrifício de todos e nada poderá ser imposto por qualquer uma das vertentes que compõem o PT, ou pelos partidos.

Muitos apostam que essa coligação começará a ruir
com a divisão do governo.
Desde o início da formação desse projeto vislumbrado por mim e por Agnelo, digo que todas as articulações feitas não passam pelo loteamento do governo. Não se tem uma especulação sobre um nome casado com algum segmento. O que existe agora não é um loteamento, mas uma coalizão.

Qual é o espaço que o PMDB ostula no próximo governo?
Hoje, eu não tenho essa resposta pronta. Mas cada partido tem áreas valiosas em que pode ajudar.

O senhor vai ter outro cargo lém de vice-governador?
Ser vice é uma ciência própria. Conseguimos passar a campanha sem um conflito sequer entre o candidato a governador e o candidato a vice-governador. Claro que existiam motivos para os conflitos, mas o que predominou foi a consciência de que teria de haver uma harmonia. É a mesma coisa agora. Tenho que contribuir com o governo. Tenho um compromisso também, porque parte desses votos deve-se à minha presença na chapa e à vertente política que represento. Vai ser um exercício grande de ambos os lados para um entender a participação do outro. Minha vontade é de exercer o dia a dia da Vice-Governadoria e, a princípio, não penso em ocupar uma secretaria.

Na Câmara Legislativa, já começaram as conversas sobre o próximo ano. O presidente deve ser do PT, que tem a maior bancada?
A Câmara tem vários nomes com envergadura para a Presidência. Por outro lado, entender como não legítimo o pleito do PT em presidir é um grande equívoco. O PT tem a maior bancada, com cinco deputados, e é o partido do governador. Mas vai ter de haver uma articulação com todas as legendas, inclusive com a oposição. E não pode haver uma subordinação da Câmara em relação ao Executivo.

O senhor trabalhou para a eleição indireta do governador Rogério Rosso. Está arrependido?
Não é o fato de se arrepender. O atual governador foi eleito com a participação de quase todos os partidos. O esforço foi o melhor possível para dar uma resposta ao Brasil e às demais instituições, mostrar que Brasília poderia caminhar com pernas próprias e evitar a intervenção. Infelizmente, um compromisso que serviu como base para a grande união foi quebrado pelo desprezo a um dos itens da Carta de Brasília, que era o de não buscar a eleição. O governador-tampão não poderia se candidatar.

Como o senhor avalia  governo Rosso?
Não gostaria de me manifestar sobre esse momento de Brasília. Só acho que este é um dos mais angustiantes da história. Nem durante a crise política, tivemos uma situação da Saúde, da Segurança e do Transporte com tamanha gravidade. Além disso, há uma apreensão quanto ao futuro orçamentário.

O governador descumpriu a orientação partidária de não lançar nenhum nome, que não fosse o do senhor, para a disputa majoritária; e apoiou a adversária do partido nas eleições. O pior de tudo isso é ele achar que foram gestos lastreados por uma democracia. Entendo de forma diferente. Primeiro, ele tinha de respeitar o entendimento feito pelos partidos, que resultou na condução dele ao GDF. O segundo gesto democrático, apesar de todo o desejo pessoal dele, seria de respeitar o resultado de uma convenção. Ele foi derrotado por 80% do partido. Rosso poderia até discordar, mas, vencida a convenção, tinha de se enquadrar naquilo que foi decidido democraticamente.

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