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    Do Foro à Queda: quando a confissão política encontra o tempo histórico

    Por Allan dos Santos

    Por mais de três décadas, o Foro de São Paulo foi apresentado ao público como um espaço de debates entre partidos de esquerda latino-americanos. A controvérsia — sustentada de modo sistemático por Olavo de Carvalho — sempre foi menos sobre sua existência e mais sobre seu modo de operar: informal, transnacional e politicamente eficaz.

    O capítulo “Lula, réu confesso”, em O Foro de São Paulo, não acusa por documentos secretos nem por delações: acusa por discurso público. É esse o ponto decisivo do argumento.

    A fala que muda o estatuto do Foro

    Em 2 de julho de 2005, durante evento comemorativo dos 15 anos do Foro, Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso posteriormente reproduzido no acervo oficial da Presidência da República. Nele, Lula descreve a atuação do Foro na crise venezuelana do início dos anos 2000, destacando que:

    • a mediação ocorreu por iniciativa de “companheiros”,
    • não como ação de um Estado com outro,
    • valendo-se de relações políticas construídas no âmbito do Foro, inclusive em encontros em Havana.

    Esses elementos estão no discurso público, acessível por registro oficial. O que Olavo faz não é criar uma fala, mas narrar suas implicações políticas: se não foi ação de Estado, foi ação paralela; se não passou por parlamentos e ministérios, operou fora do controle institucional.

    É a partir daí que o Prof. Olavo demonstra que Foro não é apenas deliberativo, mas operacional.

    Venezuela como laboratório

    A Venezuela ocupa lugar central nessa leitura. A consolidação de Hugo Chávez após crises internas e o referendo de 2004 aparece, no discurso de Lula, como resultado de articulação política informal. Isso por si só já evidencia:

    1. a existência de uma instância supranacional de coordenação;
    2. a disposição de governos eleitos em agir fora dos canais estatais;
    3. a diluição prática da soberania em nome de lealdades ideológicas.

    Esse ponto é reforçado quando o discurso presidencial reconhece que a mediação não deveria “parecer interferência política” — formulação que confessa a camuflagem intencional dos revolucionários.

    O elo incômodo: partidos, Estados e organizações armadas

    Outro aspecto recorrente no livro é a convivência, no mesmo ecossistema político, de partidos legais, governos e organizações armadas. Grupos como as FARC e o MIR aparecem não como equivalentes morais aos partidos, mas como herdeiros históricos de uma mesma estratégia continental, iniciada na luta armada e adaptada ao jogo institucional.

    Não se trata de afirmar que o Foro “comanda” guerrilhas, mas de sustentar que não houve ruptura clara entre o ciclo revolucionário armado e o ciclo político-institucional — apenas mudança de método. O mesmo grupo assassino e armado que opera de um modo aqui, de outro modo acolá.

    O tempo histórico alcança o discurso

    Avançando para o presente, a prisão de Nicolás Maduro, no contexto das acusações de narcotráfico e terrorismo formuladas pelo Departamento de Justiça dos EUA desde 2020), reintroduz um elemento decisivo: a jurisdição internacional.

    Independentemente do desfecho processual, o fato político é que o regime venezuelano — eixo simbólico do bolivarianismo continental — passou a ser tratado não como adversário ideológico, mas como organização criminosa transnacional.

    Esse deslocamento é crucial. Se a Venezuela deixa de ser apenas “um governo autoritário” e passa a ser enquadrada como narcoditadura, todas as redes de apoio político informal entram sob nova luz.

    E Lula?

    É aqui que o argumento de Olavo ganha atualidade desconfortável.

    O próprio Lula, em discurso oficial, afirmou que:

    • decisões centrais de política regional foram tomadas fora da lógica estatal;
    • essas decisões foram mediadas por relações políticas informais;
    • o Foro foi instrumento dessa articulação.

    Nada disso é invenção retrospectiva. Está no registro público.

    Se investigações internacionais avançarem no sentido de caracterizar o regime venezuelano como estrutura criminosa organizada, a pergunta deixa de ser filosófica e passa a ser jurídica:

    Quem colaborou politicamente, fora dos canais institucionais, para sua sustentação?

    Não se trata de antecipar culpa, mas de reconhecer que a própria narrativa pública construída no passado passa a se converter em peça de contexto probatório no presente.

    A confissão não envelhece

    Olavo de Carvalho insistia que o maior erro de seus críticos foi tratar o Foro como irrelevante. O segundo erro foi ignorar que palavras oficiais têm consequências históricas.

    Quando um presidente afirma que agiu politicamente fora do Estado, em coordenação com agentes estrangeiros, e que isso produziu efeitos concretos em outro país, ele não está apenas discursando — está fixando um registro.

    O tempo de Lula confesso chegou. Resta saber se a direita brasileira continuará a falar de economia e amenidades quando é dominada pelo chefe do Foro de São Paulo, o órgão responsável pelo sustento e criação do Cartel de Los Soles de Maduro.

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    Deve ler

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