MUDANÇAS NA PCDF

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Diretora da Polícia Civil deve anunciar troca de cargos nos próximos dias Mais que uma mudança natural, esta é uma estratégia do governo para neutralizar grupos atrelados a adversários políticos

 

Lilian Tahan/Correio Braziliense

Sob nova direção, a Polícia Civil vai promover uma dança das cadeiras em seus postos-chave. Mesmo a contragosto de uma parte da corporação que não concorda com as mudanças, pois teme a perda de poder, a delegada Mailine Alvarenga, que tomou posse à frente da instituição na tarde da última segunda-feira, deve confirmar o rearranjo em cargos de chefia nos próximos dias. No organograma da diretora-geral, há situações de delegados que ocupavam funções estratégicas, mas serão reacomodados em setores menos visados, e exemplos de outros do rol da confiança dela que assumirão os espaços de destaque. As alterações são parte de uma estratégia de governabilidade de Agnelo Queiroz (PT). Com algumas substituições, ele pretende esvaziar o poder de grupos ligados a adversários políticos.

O primeiro sinal do governo petista sobre a intenção de promover alterações profundas na Polícia Civil foi a própria decisão de chamar Mailine para a direção-geral. Tão logo o nome da delegada foi confirmado, setores da polícia começaram a demonstrar resistência. Até a véspera de ela ser empossada pairavam especulações de que a eleita de Agnelo não ocuparia a função. Mailine não só assumiu como está prestes a confirmar substituições em quase todas as diretorias especializadas e chefias de delegacias.

O comando do Departamento de Atividades Especiais (Depate) está entre as trocas planejadas por Mailine. Atual diretor da unidade especializada, o delegado Maurílio Rocha será remanejado para a 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião). Sai portanto da liderança de uma área estratégica para assumir uma delegacia circunscricional. Laércio Rossetto, da 5ª DP (Setor Bancário Norte), é o nome cotado para assumir a vaga aberta por Maurílio. A nomeação de Rossetto, no entanto, ainda não foi confirmada oficialmente. Segundo na hierarquia da Polícia Civil até a posse de Mailine, o delegado Adval Cardoso, que era adjunto de Pedro Cardoso, também deixa o núcleo de decisões da corporação para chefiar a 10ª DP no Lago Sul.

Notoriedade
Delegada que ganhou notoriedade no ano passado por ter prendido os acusados de cometer o triplo homicídio da 113 Sul, Deborah Menezes foi redistribuída como a maioria dos colegas que estavam à frente de postos de destaque na polícia. Deixará a chefia da delegacia no SIA, de onde comandou a operação de prisão dos suspeitos de matar o casal Vilella, em Montalvânia — cidade localizada no Norte de Minas Gerais — para liderar os trabalhos na 20ª Delegacia de Polícia, que fica no Gama. “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”, resumiu a delegada sobre a decisão da nova diretora de remanejá-la. Assim como vários colegas, Deborah cumprirá a missão, o que não quer dizer que tenha apreciado a troca.

Deborah Menezes, sobre sua transferência para o Gama:  
Deborah Menezes, sobre sua transferência para o Gama: “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”

Contemporânea de Mailine Alvarenga, a titular da 10ª DP, Selma Carmona, deixa o posto no Lago Sul e assume o comando da delegacia no Núcleo Bandeirante (veja quadro). Apesar de ter sido deslocada do centro da cidade para uma um posto mais distante, Selma diz que encarou a decisão como uma oportunidade de “oxigenar” o trabalho. Ela avalia que a decisão não é fácil e confirma que há colegas insatisfeitos com as mudanças. “É natural que as trocas causem um monte de insatisfações. As pessoas se apegam aos cargos e à comodidade do trabalho que já desenvolviam em determinados lugares. Mas eu sou delegada e isso ninguém pode me tirar. Quanto ao fato de chefiar essa ou aquela delegacia, é uma decisão que compete a quem está na direção. Eu vou cumprir a minha missão com vontade de que a Mailine acerte”, disse Selma.

Pessoa da confiança da nova diretora, a delegada Rosana Gonçalves deixará a Delegacia de Repressão a Pequenas Infrações (DRPI) para se dedicar ao Departamento de Polícia Especializada (DPE), uma das áreas nobres da corporação. O delegado Raimundo Vanderly será promovido. Sai da 19ª DP, no P Norte, e vai para o Departamento de Polícia Circunscricional. Com 33 anos na corporação, um dos delegados mais antigos da Polícia Civil do DF, Onofre de Moraes, deixa a 15ª DP (Ceilândia) para chefiar a 3ª DP (Cruzeiro). “Pode até existir descontentamento, mas eu sou um soldado da administração. Onde me colocarem, eu trabalho”, avisou.

Colaboraram Mara Puljiz e Adriana Bernardes

Troca-troca
Confira algumas mudanças na estrutura da Polícia Civil. A única já publicada no Diário Oficial do DF é a nomeação de Mailine para a direção da corporação. As demais devem ser confirmadas nos próximos dias:

Mailine Alvarenga deixou a Delegacia de Capturas e Polícia Interestadual para assumir a direção-geral da corporação

Pedro Cardoso entregou o cargo para Mailine e pretende se aposentar da Polícia Civil. Deve assumir cargo de confiança em uma autarquia do DF

Adval Cardoso era diretor-geral-adjunto e vai assumir a 10ª DP (Lago Sul)

Maurílio Rocha deixa o Departamento de Atividades Especiais (Depate) para chefiar a 30ª DP (São Sebastião)

Rosana Gonçalves sai da Delegacia de Repressão a Pequenas Infrações (DRPI) e assume o Departamento de Polícia Especializada (DPE)

Laércio Rossetto deve sair da 5ª DP (Setor Bancário Norte) para assumir o Departamento de Atividades Especiais (Depate)

Raimundo Vanderly deixa a 19ª DP (P Norte) e assume o Departamento de Polícia Circunscricional

Cláudia Alcântara deixa a chefia da Assessoria Institucional para assumir a Corregedoria

Nélia Vieira sai da Corregedoria e assume a Academia de Polícia

Eneida Taquary deixa a Academia de Polícia e vai para a 4ª DP (Guará)

Jefferson Lisboa deixa a 4ª DP (Guará) e assume a 1ª DP (Asa Sul)

Deborah Menezes sai da 8ª DP (SIA) e assume a 20ª DP (Gama)

Onofre de Moraes deixa a 15ª DP (Ceilândia) e assume a 3ª DP (Cruzeiro)

Mônica Ferreira Loureiro sai da 2ª DP (Asa Norte) e vai para a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam)

Selma Carmona deixa a 10ª DP (Lago Sul) e assume a 11ª DP (Núcleo Bandeirante)

Fernando Fernandes sai da 24ª DP (Setor O) e assume a 15ª DP (Ceilândia Centro)

Alterações desagradam
As substituições na cúpula da Polícia Civil provocaram a mudança de humor em muitos integrantes da corporação. Uns porque perderam os cargos em áreas nobres e se sentiram desprestigiados e outros porque foram promovidos. Mais do que a mudança em si, o deputado distrital Wellington Luiz (PSC), que há 12 anos preside o Sindicato dos Policiais Civis do DF, atribui as reclamações de setores da polícia à forma como as trocas na corporação vêm sendo conduzidas.

Wellington explica que servidores da Polícia Civil e os próprios delegados foram atingidos pela medida do governador Agnelo Queiroz, que logo no primeiro dia de gestão assinou decreto demitindo 18,5 mil comissionados. “Quando há troca de administração, as mudanças são naturais e até esperadas. Mas o problema, e essa é uma crítica ao governo, foi o fato de ter feito tudo numa canetada só e com prazo curtíssimo para a reorganização do quadro. Isso gerou, sim, muitas críticas por parte dos servidores”, disse Wellington ao Correio.

Prevenida de que o problema poderia ocorrer, a própria Mailine tentou alertar Agnelo antes mesmo de ser empossada. Mandou um ofício para o governador no qual pedia para que a polícia fosse excluída do ato. Mas as demissões em massa foram mantidas, incluindo os cargos da corporação. A administração do PT não abriu mão da providência até porque tinha como objetivo uma rápida reconfiguração das forças na instituição que tem sido usada como um braço forte dos últimos governos.

O vice-presidente do Sinpol, Ciro de Freitas, confirma o descontentamento de parte dos colegas com as trocas. “Acredito que seja um sentimento de 25% dos servidores, a maioria ligada a grupos políticos de gestões anteriores. Algumas pessoas se sentiam donas de um departamento ou de uma determinada região e estão sentindo essas mudanças”, explicou. Presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do DF (Sindepo-DF), Benito Tiezzi achou previsível que a nova diretora não tenha 100% de aprovação e afirmou que a entidade não pretende interferir na escolha. “Mas esperamos que as nomeações sejam técnicas e não políticas.” (LT)

“Quanto ao fato de chefiar essa ou aquela delegacia, é uma decisão que compete a quem está na direção. Eu vou cumprir a minha missão com vontade de que a Mailine acerte”
Selma Carmona, delegada-chefe da 10ª DP

“Pode até existir descontentamento, mas eu sou um soldado da administração. Onde me colocarem, eu trabalho”
Onofre de Moraes, delegado-chefe da 15ª DP

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