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    No Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, conheça a sobrevivente que escondeu sua história por 80 anos

     

    Livro de Silvia Wolosker Levi, lançado às vésperas do Dia Nacional da Lembrança

    do Holocausto (16/4), revela a história inédita de sua mãe, Charlotte Goldsztajn Wolosker, que vive em São Paulo e que faz parte de um grupo cada vez mais reduzido de sobreviventes ainda vivos no país

     

    Ela sobreviveu ao Holocausto ainda criança, reconstruiu a vida no Brasil e passou décadas sem contar o que viveu, nem mesmo aos filhos e netos. Agora, aos 87 anos, Charlotte Goldsztajn Wolosker decidiu romper o silêncio: sua história chega ao público por meio do livro La Petite Charlotte, escrito por sua filha, Silvia Wolosker Levi, e lançado pela Editora Integrare às vésperas do Dia Nacional da Lembrança do Holocausto (16/4), em um contexto marcado pelo crescimento do antissemitismo no Brasil e no mundo.

     

    O lançamento da obra ocorre em um momento simbólico e, ao mesmo tempo, urgente. Segundo o Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, divulgado pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB) no fim de março, o país registrou 989 ocorrências formais no último ano – número inferior ao pico de mais de 1.700 casos registrados em 2024, mas ainda assim 149% acima dos níveis de 2022, quando houve 397 registros.
    O dado sustenta o diagnóstico do relatório de que o país vive um “novo normal”: o antissemitismo não retornou ao patamar anterior, mas se estabilizou em um nível estruturalmente mais elevado, com maior intensidade e disseminação, sobretudo no ambiente digital. O avanço dos casos ocorre na esteira do agravamento das tensões internacionais desde outubro de 2023, apontado no relatório como um marco recente para a intensificação desse tipo de ocorrência.

    A urgência de ouvir a voz de quem sobreviveu

    Diante do cenário atual, a história de Charlotte ganha ainda mais peso. Nascida em 1938, ela tinha quatro anos quando foi separada da família durante a ocupação nazista na França, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Sobreviveu escondida, sob identidade falsa, protegida por pessoas que arriscaram a própria vida para salvá-la. O pai foi enviado para campos de concentração, incluindo Auschwitz, e sobreviveu. A família só se reencontrou após o fim do conflito.

    Apesar da consciência sobre a força do testemunho de toda a brutalidade a qual foi exposta, Charlotte optou pelo silêncio por oito décadas. O tema nunca foi discutido em casa. As memórias permaneceram guardadas até que, incentivada por questionamentos de um neto, decidiu compartilhar sua trajetória. Os relatos então passaram a ser registrados pela filha Sílvia ao longo de um ano e meio de conversas intensas, marcadas por pausas, silêncios e reconstruções difíceis. O resultado é um testemunho íntimo que combina dor e delicadeza, transformando a experiência individual em memória coletiva.

    A urgência desse tipo de registro é geracional. Hoje, restam pouco mais de 200 sobreviventes do Holocausto vivendo no Brasil, segundo o Museu do Holocausto de Curitiba. Trata-se da última geração capaz de relatar, em primeira pessoa, os acontecimentos que marcaram o século 20. “Mais do que nunca, precisamos contar essas histórias, transmiti-las, ouvi-las – para que nunca sejam esquecidas. Para que despertem. Para que transformem. Para que construam um futuro em que a empatia vença o preconceito e a memória nos ensine a nunca repetir os erros do passado”, afirma Silvia, autora de La Petite Charlotte . “O livro é um chamado às futuras gerações para que guardem na memória o preço pago quando o ódio, a intolerância e a ignorância se abrigam e para que jamais reproduzam, em gesto ou palavra, as feridas do passado”, completa Charlotte.

    Os dados indicam que essa escuta é fundamental. De acordo com o relatório da CONIB, 87,3% dos brasileiros nunca participaram de qualquer atividade educativa sobre o Holocsto, e apenas pouco mais da metade consegue definir corretamente o genocídio nazista. Ao mesmo tempo, conteúdos antissemitas circulam de forma massiva nas redes sociais, com potencial de alcance estimado em 66 milhões de pessoas. O ambiente digital, aponta o estudo, tornou-se o principal vetor de propagação desse tipo de discurso.
    Da sobrevivência à reconstrução

    A trajetória de Charlotte também se insere em um movimento histórico mais amplo. Estima-se que cerca de 25 mil judeus migraram para o Brasil entre a ascensão do nazismo e o período pós-guerra – muitos deles, sobreviventes que reconstruíram as vidas no país e passaram a ser brasileiros de alma. Charlotte chegou ainda criança, sem falar o idioma, e aqui refez sua história ao lado da família, em um processo marcado por adaptação e recomeço.

    Em um contexto de desinformação e banalização do ódio, La Petite Charlotte dialoga diretamente com o presente. Ao decidir contar a trajetória após quase oito décadas de silêncio, Charlotte não apenas rompe uma barreira pessoal, mas transforma sua experiência em um testemunho que contribui para a formação de consciência histórica – enquanto ainda é possível ouvir essas histórias em primeira pessoa.

    Serviço:

    Livro: La Petite Charlotte
    tora: Silvia Wolosker Levi
    Editora: Integrare
    Número de páginas: 208
    Preço: R$ 76,90
    Onde encontrar

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