Por Suely Quartzo
As novas informações divulgadas sobre as mortes ocorridas na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga, em vez de esclarecer os fatos, aprofundam uma inquietação já presente desde o início do caso: por que apenas técnicos de enfermagem estão sendo responsabilizados, enquanto médicos e gestores seguem em liberdade e fora do foco público?
A investigação da Polícia Civil avança, é verdade. Todas as mortes ocorridas durante plantões dos técnicos presos passarão a ser analisadas. Mas, mesmo com o inquérito ainda em curso, a condenação social já foi antecipada, com nomes, rostos e imagens dos técnicos amplamente expostos.
O mesmo não ocorreu com quem, por lei, responde pela UTI. A UTI tem responsáveis — e eles não são invisíveis Uma Unidade de Terapia Intensiva não funciona de forma autônoma nem informal.
A legislação brasileira exige: médico presente 24 horas por dia; médico responsável técnico; coordenação de enfermagem; protocolos rígidos de prescrição, controle e supervisão. Técnicos de enfermagem não são responsáveis legais pela UTI. Eles integram a equipe, executam tarefas e atuam sob supervisão. Ainda assim, foram os únicos presos até agora.
Os médicos responsáveis pela unidade, cujas senhas teriam sido utilizadas no sistema de prescrição, seguem em liberdade. Foram ouvidos, mas não expostos. Gestores e diretores técnicos também permanecem fora da linha de frente da responsabilização pública. Essa assimetria não pode ser ignorada. Comunicação seletiva: CRM avisado, COREN silenciado Outro ponto que causa estranhamento é a postura institucional do hospital.
Segundo informações divulgadas, o Hospital Anchieta comunicou o Conselho Regional de Medicina (CRM) sobre o caso, demonstrando preocupação com possíveis repercussões médicas. No entanto, não há notícia de comunicação formal ao Conselho Regional de Enfermagem (COREN), órgão responsável por fiscalizar, orientar e atuar sobre a prática da enfermagem.
Essa omissão não é um detalhe administrativo. Ela revela uma escolha. Se os técnicos são parte da equipe, se a enfermagem é diretamente envolvida nos fatos, por que o órgão fiscalizador da enfermagem não foi acionado com a mesma urgência? Contradições que pedem respostas.
A investigação aponta que técnicos teriam utilizado senhas médicas para prescrever medicamentos. A própria polícia reconhece que ainda apura se essas senhas eram: compartilhadas de forma rotineira; acessadas indevidamente; ou resultado de falhas graves no controle institucional. Se havia fragilidade no sistema de acesso, isso é falha de governança hospitalar, não ato isolado da base.
Além disso, relatos indicam que, após a aplicação das substâncias, eram realizadas manobras de reanimação.
A pergunta é inevitável: onde estava a liderança médica da UTI nesses momentos? Como procedimentos tão críticos poderiam ocorrer sem supervisão imediata? Essas perguntas seguem sem resposta pública. A narrativa pronta antes da apuração.
O inquérito foi aberto agora. Mesmo assim, os técnicos já foram apresentados à sociedade como culpados definitivos. Imagens foram exibidas, manchetes foram construídas, juízos morais foram consolidados. Não se trata de defender impunidade. Crimes, se comprovados, devem ser punidos com rigor. Mas justiça não se faz escolhendo culpados antes do fim da investigação, nem restringindo a responsabilidade a quem ocupa o degrau mais baixo da hierarquia.
Criminalização da base como estratégia de proteção do sistema
O caso reacende um debate antigo e incômodo na saúde brasileira: criminaliza-se a base para preservar o topo. Ao concentrar a culpa em técnicos, o sistema: protege gestores; preserva contratos; evita questionamentos estruturais; reduz riscos institucionais e financeiros. O problema é que essa estratégia não protege pacientes. Apenas mantém intacto o modelo que falhou. Qual verdade não pode ser vista?
A pergunta que ecoa, diante das atualizações do caso, é direta: qual verdade não pode ser vista quando apenas os técnicos são presos? Por quê médicos responsáveis pela UTI seguem em liberdade? Por quê gestores não são expostos? Por quê o CRM foi comunicado e o COREN não? Por quê a narrativa pública ignora a cadeia de comando?
Enquanto essas perguntas não forem respondidas, o caso do Hospital Anchieta deixará de ser apenas uma investigação criminal para se tornar um símbolo de algo maior: um sistema que pune quem executa, silencia quem decide e transforma tragédias em cortina de fumaça institucional.
Justiça verdadeira exige coragem para olhar para o topo — não apenas para a base.





