A delação premiada de Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, faz menção a três políticos do Distrito Federal: o senador Cristovam Buarque (PPS), o deputado federal Rogério Rosso (PSD) e o ex-senador Gim Argello (ex-PTB) — este último, condenado e preso no âmbito da Operação Lava Jato. Nos apelidos que a empreiteira atribuía a uma série de políticos, Cristovam seria o “Reitor” e Gim o “Campari”. Rosso não tinha alcunha.
Desse grupo, apenas Gim aparece como beneficiário de doações, segundo a delação de Cláudio Melo. O ex-senador, citado pelo delator 20 vezes ao longo do documento, teria se beneficiado de R$ 2,8 milhões em repasses.
Cristovam e Rosso não são citados como destinatários de recursos. No entanto, Melo revelou que o deputado federal está na lista de 31 “agentes políticos” com os quais manteve “contatos mais frequentes”. Gim Argello também está nesse grupo, ao lado do presidente da República, Michel Temer, e do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Em outra lista, composta por 23 políticos com os quais o delator mantinha relações “mais episódicas”, está Cristovam.
Na delação de 82 páginas entregue ao Ministério Público Federal (MPF), Melo revela que a proximidade com os políticos era necessária devido ao cargo de vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht. “Para desenvolver a nova função que havia assumido, procurei montar uma boa equipe e pôr em prática o desenvolvimento de uma agenda de acompanhamento legislativo qualificado”, justificou o delator.
Eleições de 2010
Além da menção a Cristovam Buarque na lista de “contatos mais episódicos”, o nome do ex-governador do DF aparece na seção “explicação sobre outros pagamentos identificados em planilhas relativa às eleições de 2010” (veja a íntegra do documento abaixo). Naquele ano, Cristovam concorreu e foi eleito para o Senado.
Cláudio Melo Filho afirma que “há algumas informações constantes nas planilhas da empresa (Odebrecht) que relacionam, de alguma forma, meu nome a pagamentos que supostamente foram realizados a pessoas identificadas por diferentes codinomes”. Embora o delator reforce que “não reconhece” e que não participou “de eventuais tratativas nem de qualquer fase da formalização dos pagamentos”, ele comenta os apelidos.
O “Reitor”
Ao ser questionado sobre o codinome “Reitor”, Melo diz: “Consta em campo específico a pessoa de RF no DF, que acredito ser Ricardo Ferraz. Me foi dito que essa indicação refere-se a Cristovam Buarque, por ter sido reitor da Universidade de Brasília (UnB)”.
Ricardo Ferraz foi diretor de Contrato da Odebrecht Infraestrutura. Em planilhas apreendidas pela força-tarefa da Operação Lava Jato, ele aparece como responsável pela solicitação de pagamentos em espécie de R$ 1 milhão para alguém de apelido “Padeiro”; e de R$ 400 mil para outra pessoa identificada como “Comprido”. Esses pagamentos teriam ocorrido em 2014.
Segundo o deputado distrital Chico Vigilante (PT), Ferraz chegou a causar um mal-estar no PT em 1994, na época em que o hoje senador era filiado à legenda. “O Cristovam recebeu uma doação da Odebrecht. O partido era veementemente contra, mas ficou por isso mesmo”, diz o parlamentar. Naquele ano, Cristovam foi eleito governador do DF.
No entanto, o parlamentar afirmou que conhece o delator Cláudio Melo Filho “há muito tempo”, pois é amigo do pai dele. “Conheci ele (Cláudio) quando fui reitor da UnB e ele, estudante”, contou. Segundo Cristovam, os dois nunca trataram de política.
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Em 2010, Cristovam Buarque foi eleito pela coligação NOVO CAMINHO (PRB / PDT / PT / PTB / PMDB / PPS / PHS / PTC / PSB / PRP / PC DO B).
No primeiro ano em que a Justiça Eleitoral exigiu prestação de contas dos candidatos a cargo público, as empreiteiras com atuação no DF, hoje no olho do furacão da Operação Lava Jato, já figuravam como doadoras. Era 1994, Cristovam Buarque e Valmir Campelo disputavam o governo local. Juntos, eles receberam R$ 1,5 milhão em doações da Norberto Odebrecht e da Via Engenharia, construtoras denunciadas nos últimos meses ao Ministério Público Federal por corrupção e pagamento de propina em troca de vantagens na construção de obras públicas.
Os documentos são em papel, com capa desgastada e letras datilografadas. Não há registro da prestação em meio digital, o que só ocorre a partir de 2002. Os documentos amarelados revelam que o então candidato eleito pelo PT, Cristovam Buarque, contou com uma ajuda robusta das duas empreiteiras. Metade de tudo o que recebeu, R$ 400 mil, veio das contribuições da Odebrecht (R$ 200 mil) e da Via (R$ 200 mil). Essa contabilidade detalhada só se tornou pública um ano depois. Buarque teve um total de receitas declarado em R$ 861.477,27 e gastou com a campanha para o governo local R$ 934.477,27. Ou seja, ainda tirou do bolso R$ 73 mil.
A notícia da participação vultosa de empreiteiras na campanha do candidato de esquerda causou um alvoroço político, ao ponto de setores mais conservadores do partido pedirem publicamente que as verbas fossem devolvidas. Em uma entrevista à Folha de S.Paulo em 11 de dezembro de 1994, quando foram divulgadas as contribuições para a sigla, Cristovam Buarque, ex-governador e hoje senador, chegou a declarar que as doações para o PT “quebravam a pureza” da legenda.
Um ano depois, Buarque apareceu como beneficiário das doações. Na época, não havia nada que desabonasse nem o PT, nem as empresas doadoras. As contas, inclusive, foram aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral do DF (TRE-DF), no documento de 244 páginas, relatado pelo juiz Nelson Gomes da Silva.
Confira parte das contas aprovadas pelo TRE-DF durante campanha de 1994:
Mas estava ali o registro de um sistema de cooperação que, ao longo das últimas duas décadas, abasteceu e moveu uma indústria da propina envolvendo políticos e empresários agora pilhados nas delações da Lava Jato. Coincidência ou não, as duas empreiteiras estão no centro da crise ética apontada pelos delatores das Odebrecht.
Doação detalhada
A Via Engenharia doou para o petista, hoje no PPS, R$ 200 mil. Os primeiros R$ 60 mil foram remetidos em 3 de novembro de 1994; mais R$ 40 mil, em 14 de novembro; e o restante, R$ 100 mil, depois de Buarque se tornar o governador eleito. A Odebrecht desembolsou R$ 200 mil para a campanha do então candidato petista no dia 13 de novembro do mesmo ano. Com as informações transparentes, o PT tentou devolver as doações das empreiteiras.
Luiz Fernando Emediato, ex-coordenador da campanha do senador Cristovam Buarque à Presidência em 2006, usou sua página no Facebook para acusar o hoje senador pelo PPS-DF de receber dinheiro do PSDB em troca de apoio a Geraldo Alckmin no segundo turno daquele pleito.
No texto O drama de Cristovam Buarque, Emediato afirma que “premido pelas circunstâncias – a necessidade de pagar seus marqueteiros”, Cristovam “acabou aceitando dinheiro de caixa 2” para a campanha presidencial, feita então pelo PDT.
“No final, [Cristovam] também aceitou que parte da campanha fosse paga, irregularmente, pelo PSDB de Geraldo Alckmin, em troca de apoio no segundo turno. Na política brasileira, infelizmente, ninguém é santo.”
A DOAÇÃO DE EIKE BATISTA
No mesmo depoimento que prestou aos procuradores da Operação Lava Jato e confessou ter pagado R$ 5 milhões ao ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, por meio de caixa dois, para quitar dívidas da primeira campanha eleitoral de Dilma Rousseff, o empresário Eike Batista também revelou ter distribuído dinheiro não contabilizado a outros políticos e partidos (veja depoimento no vídeo abaixo). Além do PT, citou PMDB e PSDB como beneficiários dos pagamentos. Chegou a apresentar aos procuradores uma lista com vários nomes de políticos aos quais ajudou – entre eles o do senador Cristovam Buarque (PPS-DF), ex-ministro da Educação no governo Lula.
O empresário não revelou quanto deu de dinheiro ao parlamentar. Na declaração sobre suas contas de campanha registrada na Justiça Eleitoral, Cristovam nega caixa dois e acrescenta que recebeu, legalmente, R$ 100 mil em doações de Eike.
O fato acima talvez explique a decisão de Cristovam Buarque (PPS) de apoiar o nome do tucano Izalci Lucas ao GDF. No mais, tirem suas próprias conclusões sobre o senador que sonha continuar no Senado por mais um bom período. Resta saber de onde virão as doações desta vez…
Fonte: Donny Silva/Com informações do portal Metrópoles













