ELIANA PEDROSA: “O GOVERNO TEM PATINADO”

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“O governo tem patinado”

 

Primeira entrevistada do ano pelo O Distrital, a deputada distrital reeleita Eliana Pedrosa (DEM) fará parte, oficialmente, da oposição. Mesmo ciente de que a fase do governo é de segurar as rédeas da máquina, não esconde a insatisfação com as recentes crises, principalmente nas áreas de Saúde, Transporte e Educação, em especial, área tão defendida pelo PT.” A impressão que dá é que eles estão desmontando o discurso que sempre fizeram”, apimenta. E aproveita para opinar sobre a quantidade de partidos que integram a base do governo: “Ninguém é unanimidade. Nem Jesus Cristo foi”, disparou.

Edson Sombra

edsonsombra@odistrital.com.br

Hoje a situação da oposição está um pouco nebulosa, ninguém sabe ao certo quem vai ser oposição e quem não vai ser. A senhora é oposição ou é aliada ao governo?

Eliana Pedrosa – Eu não gostaria de ser oposição. Brasília vem de uma crise e eu acho que todos nós temos a obrigação de torcer para que tudo dê certo. Mas não vou abrir mão das minhas prerrogativas parlamentares esculpidas na Lei Orgânica, na Constituição, de fazer a fiscalização do governo.

E o DEM, como está hoje?

Pedrosa – O DEM está numa fase de reestruturação. Agora em março nós devemos ter a convenção para escolha de uma provisória para fazer o organograma de votação da nova executiva nacional e, consequentemente, das novas executivas regionais. O partido está em compasso de espera e de reorganização.

O PSDB-DF, um partido que no cenário nacional caminha com o DEM na oposição ao PT, começa a acenar uma aproximação da base de Agnelo, o que pode enfraquecer a oposição ao governo local. Essa quase unanimidade de apoio ao PT não pode ser prejudicial ao DF?

Pedrosa – Ninguém é unanimidade. Nem Jesus Cristo foi. Esse risco o Distrito Federal não corre.

Então qual é a análise que a senhora faz do primeiro mês do governo Agnelo?

Pedrosa – Todo primeiro mês é um mês mais difícil. Embora tenha havido transição, mas a ocupação dos espaços toma muito tempo daquele que ganha a eleição. É nesse momento que a base aliada quer – legitimamente – fazer parte do governo, fazer escolhas de currículos e é um mês em que naturalmente não acontece muita coisa e o governo fica mais envolvido com a montagem de equipes. Mas o governo tem patinado.

Mas nas principais áreas, como a Educação, por exemplo, qual é a avaliação da senhora?

Pedrosa – A educação é um discurso prioritário de qualquer governo. Só que o novo governo já começou dizendo que suspenderia o programa Escola em Tempo Integral e que só o retomaria no ano que vem. Para mim, seria a mesma coisa que dizer “vamos suspender a democracia, não vamos fazer eleições até que o sistema político brasileiro fique perfeito”. A gente sabe que temos problemas nesse programa, mas as crianças que estão estudando já se habituaram a ficar o dia inteiro na escola. Os pais das crianças já possuem uma programação de vida, trabalham contando  que os filhos estejam na escola, enfim… O governo precisa ter bom-senso e saber que o sistema pode não ser perfeito, mas ele precisa funcionar enquanto se planeja um melhor para funcionar em 2011.

Outro problema foi com a contratação daqueles 1.456 professores, que depois voltaram atrás. Ainda não deram uma solução concreta para o caso. Posso dizer que é viável a contratação desses professores, porque fui a relatora do orçamento da Educação. Além do que, na LOA (Lei Orçamentária Anual) já temos garantida a contratação de 400 professores. Então falta de orçamento não é o problema. 

O PT sempre defendeu a gestão democrática também na área da educação. Só que no fim do ano passado os deputados do PT colocaram uma emenda submarino no projeto de contratação temporária de professores para acabar com a eleição de diretores de escolas, inclusive invalidando quem já havia sido eleito com mandato até este ano. Se o mandato deles acabaria este ano, por que não deixaram acabar para depois colocar a nova proposta mais aperfeiçoada em discussão?

Não foi nada disso. Assim que eles tomaram posse, mandaram exonerar todos os diretores e vice-diretores e, por uma iniciativa da deputada Celina Leão, que foi ao Ministério Público, o governo teve de voltar atrás. A impressão que dá é que eles estão desmontando o discurso que sempre fizeram. Fora a nomeação de servidores mortos… Ficou uma coisa feia.

E a saúde, qual é a avaliação que a senhora faz?

Pedrosa – Houve uma transição e, pelo que me parece, o governador Agnelo deve ter participado muito das discussões, mesmo porque ele afirmou que seria secretário de Saúde durante os três primeiros meses de governo, o que não ocorreu. Aliás, foi uma surpresa para mim ele não ter cumprido essa promessa.

Surpreendo-me também com essas idas do governador aos hospitais. São muito mais visitas de engenheiro do que de um médico. Ele tem visto as obras, a parte de funcionamento estrutural, pede para arrumar elevador, coisas que um engenheiro como o vice-governador poderia se encarregar. Mas resolver os grandes problemas de atendimento médico, o atendimento ao cidadão que depende da saúde pública, ele não tem mostrado nada. Acredito que por ele ser médico, a população esperava um pouco mais, como ouvir quais são as soluções práticas para o caos. Está faltando um pouquinho isso.

Outro exemplo de problema é o Hospital de Santa Maria, que vinha funcionando bem. O contrato com a Real Sociedade Espanhola (entidade que administra o hospital) terminou no dia 21 de janeiro e o próprio ex-governador Rosso  não manifestou intenção em renovar quando ele ainda estava no Buriti. Tudo bem que o PT sempre afirmou ser contra terceirização de hospital. Só que a maneira como está sendo feita essa a transição entre a organização e a Secretaria de Saúde não está correta.

O governo fez uma intervenção no hospital e o interventor deu o aviso-prévio para os trabalhadores, que terminaria numa sexta-feira (21). O gerente das unidades fez um apelo para que os trabalhadores ficassem no sábado, no domingo e na segunda no sentido de não comprometer o atendimento à população. Só que na segunda os trabalhadores foram surpreendidos com a notícia de que o aviso-prévio deles não valeria mais. Muitos já haviam feito atestado demissional, outros já haviam até recebido o FGTS. Isso cria uma instabilidade muito grande. Que trabalhador consegue se concentrar no seu trabalho sabendo que hoje está empregado, mas sem saber se amanhã estará? A instabilidade é grande e é preocupante. Isso resulta diretamente na qualidade do atendimento à sociedade.

A senhora mencionou também o transporte. Qual é o principal problema hoje da equipe do novo governo na área?

Pedrosa – No caso do transporte, há outro problema por vir. Daqui a pouco as aulas recomeçam e a recarga do Passe Livre não está disponível. São 130 mil estudantes, daí a gente já começa a imaginar aquelas filas quilométricas. Estive na Fácil (empresa que administra o passe livre) e no DFTrans e quero crer que o governo vai encontrar uma solução rápida para esse fato. Pelo que parece, a empresa Fácil pode estar boicotando e o governo deve ter certa celeridade para contornar qualquer tipo de boicote.

Tem a questão do IPVA também. O governador Rosso acertou quando  não sancionou o imposto. Mas fizemos um apelo ao novo governador para que mandasse para a Câmara Legislativa o projeto com o desconto, que nós faríamos até uma autoconvocação, sem nenhum custo para a sociedade. Mas a assessoria do Agnelo afirmou que não seria possível porque haveria grande impacto no orçamento e não havia essa previsão. Só que quando aprovamos o orçamento na Câmara já o fizemos com o impacto lá, da forma pedida pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Além disso, o governo divulgou uma tabela de base para calcular o IPVA e esqueceu da depreciação do carro. Tudo bem usar a última tabela, mas os carros sofreram um ano de depreciação… Quando eu for olhar um carro de 2010, por exemplo, vou ter que ver o valor do imposto de um ano antes. Essa questão até motivou os internautas a lançarem a campanha “Agnelo Compre Meu Carro“, pelo Twitter, uma forma que o brasiliense encontrou de brincar com a possibilidade de ganhar essa valorização que os carros tiveram com essa situação provocada pelo governo. O brasileiro é muito rápido, mas a gente espera que o governo se acomode rapidamente no poder e dê respostas para a sociedade sobre essas questões e muitas outras que não foram citadas aqui.  

Apesar de estar no terceiro mandato, a senhora passou boa parte no Executivo. Agora, por uma questão política, a senhora deve ficar no Legislativo. Quais são seus planos para o mandato?

Pedrosa – A minha intenção é ficar na Comissão de Assuntos Sociais, já que fui secretária de Desenvolvimento Social.  Ou mesmo na Comissão de Educação e Saúde, que também são questões importantes. Até mesmo na Comissão de Meio Ambiente eu posso atuar, já que no meu primeiro mandato minha atuação maior foi nessa área.  Estou concentrando a minha atenção nessas três comissões.

E vai trabalhar em algum projeto especial?

Pedrosa – Dentro da Comissão do Meio Ambiente, por exemplo, discute-se também o desenvolvimento econômico e tenho um projeto que concede benefícios fiscais para as micro e pequenas empresas durante o primeiro ano de vida, justamente o período em que elas correm maior risco de fechar. Atuei também na defesa dos animais, propondo que o sacrifício dos animais, como os que estão na Zoonose, seja de forma indolor, para que eles sejam respeitados. E, claro, ajudar e muito na fiscalização do meio ambiente.

Fonte: O Distrital

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